Mote do encontro 30/09


Texto lido por Marco Antonio Martire
 
O mundo se despedaça



Okonkwo acabara de apagar a lâmpada de óleo de palma e de se deitar na cama de bambu, quando ouviu o agogô do pregoeiro da cidade perfurando a atmosfera tranquila da noite. Guim, gom, guim, gom - soava o oco metal. Depois, o pregoeiro transmitiu sua mensagem e, ao terminá-la, voltou a tocar o instrumento. E esta era a mensagem: pedia-se a todos os moradores de Umuófia que se reunissem na praça do mercado na manhã seguinte. Okonkwo ficou imaginando o que estaria acontecendo de errado, pois tinha a certeza absoluta de que algo ruim estava sucedendo. Discernira na voz do pregoeiro uma clara tonalidade de tragédia, e continuava tendo a mesma sensação à medida que a voz se tornara cada vez mais indistinta na distância.
A noite estava muito calma. Eram sempre calmas, exceto as noites de lua cheia. A escuridão inspirava um vago terror nessa gente, mesmo nos mais corajosos. As acrianças eram advertidas de que não deviam assobiar à noite, por causa dos espíritos malignos. Os animais perigosos tornavam-se ainda mais sinistros e estranhos na escuridão. Uma cobra nunca era chamada pelo nome, à noite, pois ela poderia ouvir. Era chamada de cordão. E assim, nessa determinada noite, à medida que a voz do pregoeiro ia sendo gradualmente engolida pela distância, o silêncio retornava ao mundo, um silêncio vibrante, que se fazia mais intenso com o trilo universal de milhões de insetos na floresta.
Se fosse noite de luar, seria tudo diferente. Então, se ouviriam as vozes alegres da garotada brincando pelos campos abertos. E talvez aqueles que já não eram tão crianças estivessem se divertindo, aos pares, em lugares menos expostos; e as mulheres e os homens mais idosos estariam relembrando a juventude. Como dizem os ibos: "Quando a lua está brilhando, o aleijado anseia por um passeio a pé".
Mas essa noite em especial estava escura e silenciosa. E em todas as nove aldeias de Umuófia um pregoeiro com seu agogô pedia a cada um dos habitantes que estivesse presente ao encontro da manhã seguinte. Okonkwo, em sua cama de bambu, tentava imaginar qual seria a natureza da crise - guerra contra um clã vizinho? Essa parecia ser a hipótese mais provável, e ele não tinha medo da guerra. Era homem de ação, homem de guerra. Ao contrário do pai, era perfeitamente capaz de ver sangue. Durante a última guerra de Umuófia, fora o primeiro a trazer para casa uma cabeça humana. Era sua quinta cabeça; e ele ainda não era velho. Nas grandes ocasiões, como o funeral de alguma celebridade da aldeia, bebia o vinho de palma no primeiro crânio que cortara.
Na manhã seguinte, a praça do mercado estava repleta. Uns dez mil homens deviam estar reunidos ali, todos falando em voz baixa. Finalmente, Ogbuefi Ezeugo ergueu-se do meio deles e bradou quatro vezes:
- Umuófia kwenu? Povo de Umuófia, estamos de acordo?
A cada berro, ele se voltava para um lado diferente e parecia dar murros no ar com o punho cerrado. E todas as vezes dez mil homens respondiam Yaa! (Sim!). Ogbuefi Ezeugo era um orador poderoso e, por isso, sempre escolhido para falar em ocasiões semelhantes. Passou a mão por seus cabelos brancos e cofiou a barba branca. Depois, ajeitou o pano que lhe passava por baixo da axila direita e se amarrava por cima do ombro esquerdo.
- Umuófia kwenu? - clamou pela quinta vez, e a multidão gritou em resposta. Então, de repente, como um possuído, estendeu a mão esquerda e apontou em direção a Mbaino*, dizendo entre os dentes firmemente cerrados:
- Esses filhos de animais selvagens ousaram assassinar uma filha de Umuófia."

*nota do Marco: trata-se de um clã vizinho.     

ACHEBE, Chinua. O mundo se despedaça. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.




Nasceu em Ogidi, Nigéria, em 1930. É um dos mais respeitados escritores africanos da atualidade. Atuou na diplomacia durante os conflitos entre o governo da Nigéria e o povo ibo, no final da década de 1960. Em 2002, foi agraciado com o Prêmio da Paz oferecido pela Feira de Frankfurt, na Alemanha. Em 2007, recebeu o Man Booker International, um dos mais importantes prêmios das literaturas de língua inglesa.

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