O Haiti Aqui, por Guilherme Preger

Quando chegou de ônibus a Brasília ele se lembrou daquela canção que o Djavan cantava. O céu azul e o laço do infinito sobre o traço do arquiteto. Djavan, cantor preto. Ele gostava dele desde que chegou ao Brasil. Mas diziam que ele apoiava o Coiso. Eu prefiro acreditar que não, pensou. Djavan está sendo ambíguo. É uma tática que nós homens pretos usamos para nos defender. E mesmo seu pensamento soava com certo sotaque. Por que ele tinha vindo ao Brasil? Sim, havia nisso uma fantasia. Os hatianos imaginavam o Brasil como uma terra da alegria. Torciam para a seleção brasileira em copas do mundo. Quando chegou ao Brasil a primeira coisa que fez, ainda no aeroporto, foi comprar uma camisa oficial da seleção brasileira. Queria sair na rua a utilizando. Mas logo viu que isso seria impossível. Reparou imediatamente no mal estar que causava. Estão tendo preconceitos porque um homem preto está usando a camisa brasileira, a “amarelinha”? Como isso era possível no país de Pelé? ...