O Filósofo do Samba, de Francisco Bosco



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Mas e a filosofia? Se o poeta da Vila é esse amigo íntimo da língua, o sujeito engenhoso que se procurava na Galeria Cruzeiro para fazer a segunda parte de um samba, o craque que inventava samba epistolar, marcha absurda e era capaz de transformar em canção até um gago com dor de cotovelo — se é a isso que se refere o apelido de poeta, o que pretendia designar o de filósofo?
O filosófico, em Noel, se deixa ler em pelo menos duas dimensões. Uma, mais evidente, é a dimensão ética. É ela que se mostra no samba Filosofia: “Não me incomodo/ Que você me diga/ Que a sociedade é minha inimiga/ Pois cantando neste mundo/ vivo escravo do meu samba/ Muito embora vagabundo”. Desde a sua origem na Grécia antiga, o filósofo é alguém que se define por uma relação de maior autonomia com a sociedade. Essa autonomia pode se dar tanto por um isolamento ascético, indiferente ao mundano, quanto por uma atuação política direta, interventiva. Nos dois casos o que se tem é um modo mais ativo de relação com o outro.
Isso é claro em Noel, na sua obra como na sua vida. Numa sociedade em que o sambista ainda era visto com maus olhos, ele renunciou a uma prestigiosa faculdade de medicina e foi viver entre malandros do Estácio, Mangueira e cercanias. Compreendeu que o dinheiro não compra alegria, e afirmou preferir ser escravo do seu samba do que “dessa gente que cultiva a hipocrisia”. Via num João Ninguém mais felicidade do que em “muita gente/ Que ostenta luxo e vaidade”. Na sua mais bela canção quanto a esse plano ético, O x do problema, a roda de samba do Estácio é a maior honra, e a palmeira do Mangue despreza altiva as areias de Copacabana.
A outra dimensão é menos evidente. Ela está na capacidade de ver os pontos em que a realidade se fratura em dois níveis. Essa fratura, Noel a flagra em vários versos. “Quem diz que ama nunca sabe o que é o amor/ Amar jurando nunca foi jurar amando”; “Mas vou perguntar aos sábios/ Se a mentira nos teus lábios/ É verdade em teu olhar”; “Se tu sabes que eu te quero/ Apesar de ser traído/ Pelo teu ódio sincero/ Ou por teu amor fingido”. É essa, afinal, a estrutura do filosófico. Ela requer dois planos, um de aparências, outro de verdade. É claro que, de Platão a Nietzsche, essa cisão deixou de ser vista entre transcendência e imanência e passou a ser considerada apenas imanente. A aparência é a realidade manifesta, a verdade é o que essa manifestação oculta. O filosófico se deixa flagrar na passagem daquela a essa.
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(BOSCO, Francisco. Alta Ajuda. Editora Foz, 2012)

Mote vencedor lido por Marco Antonio Martire no encontro de 06/03/2018


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