A benção do malandro, de José Fontenele

A bênção do malandro
Quem nota o seu Cesinha desacompanhado na mesa da diretoria da Estudantina pode pensar que ele é apenas um homem idoso utilizando o privilégio de sua idade. Supor isso denuncia que a pessoa ou é novata naquela gafieira ou não conhece as malevolências amorosas do malandro. Chapéu Panamá de abas curtas, paletó sempre branco e engomado, camisa de algodão de listras branco-pretas do glorioso Botafogo, calças brancas de leve brim e sapato social como a luz da lua, seu Cesinha não risca o salão por impedimento de suas mulheres. Elas têm medo de ganhar outra concorrente. Digo mulheres porque o malandro é casado de forma civil com a mulata Dolores, mas também dedica atenção amorosa para a mãe dela, a Serafina. O segredo da relação dupla sempre foram as palavras e o gingado dentro e fora da gafieira.
Malandro altivo, o Cesinha, antes de ser respeitado, era um excelente dançarino e um convicto sedutor. Quando as madamas desciam para testar seus passos lá onde a dança de salão era aperfeiçoada, era o Cesinha que guiava os braços brancos e sedosos das grã-finas. Os invejoso diziam que ele era apenas um divertimento de senhoras ricas, algo como um mico de circo; aí ele se enfezava, jurava briga e gingava capoeira de meter medo em qualquer um. Quando saía soco e chute a dança acabava, as madamas iam embora e todo mundo perdia. Foi por isso que demorou um tempo até as grã-finas retornarem e o Cesinha ficar famoso por causa da viúva do coronel.
O nome dela era Claudete Moraes Pereira Barroso, esposa de um Coronel do Exército ainda vivo naquela época. A moça, sem aliança, aprendia os primeiros movimentos no salão e era só elogios aos passos e remelexos do Cesinha. E como diz o bloco, simpatia é quase amor. Por isso não deu outra. O sorrisão do mulato conquistou a grã-fina, o marido morreu de infarto ao saber que era traído e a dona Claudete passou a ser chamada de viúva do coronel. Aí então, quando diziam que cornice não mata, a gente contava a história da viúva do coronel e a fama do Cesinha corria as ruas. A viúva teve problemas com advogados e herança, e logo sumiu. O mulato? Explodiu na gafieira. Faziam fila para dançar com ele e os lábios do Cesinha trabalhavam mais que cuíca em época de carnaval. O malandro só fugia quando as amantes descobriam que eram traídas. Quando a poeira baixava ele aparecia mais cheiroso e simpático do que nunca, galanteando até modelo de vitrine de shopping e ia riscar o salão com outra dama, sem se estressar com mulher, porque estresse a gente sabe que mata tanto quanto cornice.
Então apareceu a Dolores, que no terreiro era filha de Iansã. Mulata três por quatro, cara fechada, brava, botava no chão qualquer um que se engraçasse com ela. Dolores não era uma mulher para ser conquistada, ela era a caçadora. Os mais velhos dizem que quando eles dançaram pela primeira vez, ela o derrubou para deixar claro que era ele quem deveria ter cuidado com ela, não o contrário. Para conquistá-lo a mulata fez guerra: rasgava roupa da mulher que dançava com o malandro, puxava cabelo, dava rasteira e chegou até a morder o braço de uma madama que gingou com o Cesinha. Aí a diretoria se emputeceu. Falou para a Dolores esfriar a cabeça fora da Estudantina por uns dias. E foi nesses dias que ela foi vista no terreiro com velas e flores amarelas, espadas de Iansã, que são iguais às espadas de São Jorge, mas com as bordas amarelas, e melão – oferendas para sua mãe Iansã. O Cesinha, por outro lado, não acredita nesse feitiço. Afirma que foi procurar a Dolores porque queria se desculpar. “Se desculpar com o quê homem?” Perguntavam. Mas ele nunca respondia.
Dois meses depois do pedido de desculpas, a Dolores apareceu meio barriguda, com as carnes mais robustas e o gingado lento. O casório foi no civil, mas a amarração legítima foi no terreiro. Sem dinheiro, porque o Cesinha só fazia bico, eles foram morar na casa de Serafina, mãe da mulata, que também era tão viúva quanto a viúva do coronel. E a gente sabia que ia dar coisa ruim, porque a dona Serafina tem as carnes vistosas para uma mulher de cinquenta anos. Panela velha é que faz comida boa, não é? Por isso o Cesinha, quando não tinha seus bicos, ia comer na panela da sogra. Logo aconteceu o pior: o malandro foi pego com a boca na botija da Serafina. Dolores bateu na cara dele, xingou, quebrou panela e prato, rodou a baiana pra todo mundo ouvir e botou o nome dele na macumba. Só desfez a mandinga por pedido do mulato, que não conseguia nem dançar, tão sorumbático estava. O pessoal do terreiro também ajudou, falou que não pegava bem pra filha de Iansã castigar marido e mãe ao mesmo tempo porque podia dar desgraça braba. Então passaram a morar juntos e o Cesinha teve três filhos com a Dolores, todos homens, e uma filha com a Serafina. Hoje ainda vivem no mesmo teto, porque o mulato só recebe o aposento e os filhos herdaram a malandragem e a cadência do pai.
Vivem felizes. Nunca ninguém viu o seu Cesinha emburrecido com nada.
Então quem vê o mulato no canto todo arrumado no brim e no sorriso, nem desconfia. Acha que ele é um velho daqueles bem velhos que só falta morrer igual velho. Mas quem conhece a história do seu Cesinha, como eu, pede permissão pra diretoria, sobe os degraus com reverência e vai pedir bênção.

Ficar de bem com a malandragem só traz coisa boa.

Conto vencedor do encontro de 19/09/2017

José Fontenele é Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina. Trabalha em uma Agência Literária. Escreve resenhas para os sites Ambrosia (ambrosia.com.br) e Vortex Cultural (http://vortexcultural.com.br), contos e atualmente trabalha no segundo romance.




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