quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Mote do encontro 02/09



 texto lido por Marco Antônio Martire 

O velho e o mar




Quando o sol desapareceu no horizonte, o velho Santiago recordou, para tomar mais coragem, aquela vez em Casablanca, na taberna, quando disputara uma queda de braço com um negro enorme de Cienfuegos, que era o homem mais forte das docas. Haviam ficado um dia e uma noite com os cotovelos assentes sobre um traço de giz feito na mesa, os antebraços eretos e as mãos apertadas. Cada um deles tentava forçar a mão do outro a descer sobre a mesa. Na sala, alumiada por lampiões de querosene, havia muitas apostas entre os assistentes, que entravam e saíam, e durante todo aquele tempo ele estivera com o olhar fixo no braço e na mão do negro e também no seu rosto. Depois das primeiras oito horas tiveram de mudar de árbitros de quatro em quatro horas para que estes pudessem dormir. As unhas dos dedos dele, como também as do negro, tinham-se tornado roxas. Olhavam um para o outro, os olhos nos olhos, e para as mãos e antebraços, enquanto os apostadores entravam e saíam ou sentavam-se nos bancos encostados às paredes para observar a disputa. As paredes eram de madeira, pintadas de azul-claro, e os lampiões nelas projetavam as sombras dos dois homens de encontro ao tom azul-claro. A sombra do negro era enorme e movia-se na parede à medida que a brisa fazia balouçar os lampiões.
As apostas pendiam ora para um, ora para outro e variavam durante toda a noite. Os assistentes alimentavam o negro com rum e davam-lhe cigarros acesos. Então o negro, depois do rum, fazia um esforço tremendo e de uma feita quase derrotara o velho, que naquela ocasião não era velho, mas sim Santiago, El Campeón, forçando-lhe a mão a ceder alguns centímetros. Mas Santiago resistira e levara de novo a mão à posição vertical. Estava certo de que podia bater o negro, embora este fosse um grande atleta e muito forte. E quando surgiu a luz do dia e os apostadores gritavam para que fosse dado empate e o árbitro já estava abanando a cabeça, o velho reunira todas as energias que lhe restavam e forçara a mão do negro para baixo, mais para baixo, até encostá-la à madeira da mesa. O desafio começara num domingo de manhã e terminara numa segunda-feira de madrugada. Muitos dos apostadores tinham pedido um empate porque precisavam ir para o trabalho nas docas, onde carregavam sacos de açúcar ou fardos mais pesados da Companhia de Carvão Havana. De outra forma estariam todos de acordo em que a disputa continuasse. De qualquer modo, Santiago pusera a termo à coisa antes que os trabalhadores tivessem de ir às suas fainas.
Durante muito tempo, depois disso, toda a gente o tratara por O Campeão e na primavera houvera um novo desafio de desforra. Mas dessa vez houve poucas apostas e o velho venceu sem dificuldades, pois abalara a confiança do negro de Cienfuegos no primeiro encontro. Mais tarde tivera outros desafios com outros homens e, depois, abandonara tais disputas. Compreendera que podia vencer qualquer um deles se realmente desejasse e chegara à conclusão de que lhe podiam estragar a mão direita para a pesca. Tentara, com a mão esquerda, alguns desafios de experiência. Mas a mão esquerda fora sempre uma traidora e nunca fazia o que ele desejava, razão por que jamais confiava nela.

HEMINGWAY, Ernest. O velho e o mar. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 2013.





Ernest Miller Hemingway nasceu em 1899. Em 1926, publica O Sol Também Se Levanta, livro que obteria um sucesso surpreendente. Em 1929, publica Adeus às Armas, que descreve a experiência militar de seu autor na Itália. Vai para a Espanha, onde produz Morte à Tarde (1932), sobre as touradas; faz caçadas na África Central, que relata em As Verdes Colinas da África (1935); participa da Guerra Civil Espanhola e escreve Por Quem os Sinos Dobram (1940); de suas experiências como pescador em Cuba, surge O Velho e o Mar (1952), livro que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer. Ganhador do Nobel de Literatura (1954), Hemingway suicidou-se em sua casa, em 1961.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Nicole e o autorretrato - Andréa Rodrigues



Nicole e o autorretrato


Nicole tinha nascido num subúrbio de Paris, há treze anos e alguns meses.  Tinha esse nome assim francês mas era filha de argelinos, imigrantes na França desde que eram adolescentes. Nicole estudava numa escola a duas quadras da sua casa. No caminho, passava por um prédio que tinha uma placa cheia de nomes. Desde que tinha uns 8 anos ela tinha resolvido parar para ler o que havia ali. Era uma lista com o nome de crianças que moravam naquele prédio na época da segunda guerra e que foram levadas dali para os campos de concentração, pelos alemães. Desde que tomou conhecimento disso, Nicole tinha pensado que, tivesse ela nascido muito antes, poderia ter sido vizinha de dezenas de crianças que desapareceriam para sempre um dia.  A distância que havia entre Nicole e as crianças que foram levadas de suas casas era apenas de tempo. Elas moraram na mesma rua que ela. Tinha um escorrega no prédio delas. Talvez Nicole brincasse ali com elas, no alto daquele escorrega, até o dia em que elas simplesmente desapareceriam de suas vidas.
Nicole caminha para a escola numa manhã de inverno. Ela já saiu de casa mas ainda está escuro. O que precisa ser aprendido tão cedo assim, antes mesmo do dia clarear? Hoje tem aula de francês. O professor é novo, entrou no lugar de um outro que pediu licença.
O professor distribui um livro para todos na turma. Chama-se O diário de Anne Frank. Ele quer que os alunos leiam para que escrevam um autorretrato – para conhecer melhor seus alunos novos. O professor explica o que é um autorretrato. Ele lê um trecho do livro, em que Anne conta como ela é, o que gosta de ouvir e ler. O professor quer que os alunos se inspirem na escrita de Anne Frank. Mas a vida deles não é cheia de emoções como foi a de Anne Frank,  diz um colega de Nicole. Nós só dormimos, acordamos, vamos para a escola, comemos e dormimos de novo. O professor fica espantado. Vocês não acham nada de interessante na vida de vocês? Não têm nada a dizer sobre ela? 
Nesse dia, Nicole voltou para casa mais lentamente. Parou novamente na frente da placa do prédio, como se nunca tivesse lido aqueles nomes. Releu o nome de cada criança. Imaginou seus rostos, pensou como teria sido a vida de cada uma. A vida que teria seguido, com muitas tardes de brincadeiras, com muitas gargalhadas, com muitos professores e deveres de casa. No pátio interno quatro crianças corriam, brincando de pique esconde. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, lá vou eu. O menino ruivo foi achando um a um dos seus amigos escondidos. Conseguiu encontrar todos. Mas olhando mais atentamente, de fora do prédio, Nicole teve a impressão de ver mais crianças, tão bem escondidas que talvez nunca fossem vistas.
“Meu nome é Nicole, tenho 13 anos, gosto muito de ouvir música e passear pelas ruas do meu bairro.”


Conto escrito para o encontro de 29/07/2014 


Andréa Rodrigues é professora de Prática de Ensino de Língua e Literatura na UERJ e frequenta o clube da leitura desde abril de 2013. 


 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

A palestra - Guilherme Preger



A palestra


Como bem escreveu Karl Marx, a história só se repete como farsa, ou segundo Clausewitz, a guerra é a continuação da política por outros meios.  E o que fazer quando há, conforme Exodus 21,  a crença primitiva de que é olho por olho, dente por dente, ou outra ideia tão antiga de que, de acordo com Heráclito, a guerra é o pai e o rei de todos os homens?  Não é possível mais se esconder, pois, como escreveu Bertold Brecht, a guerra é como o amor e sempre encontra um caminho. Assim, Dante Aligheri dizia que os piores lugares da escuridão infernal estavam destinados aos que mantêm sua neutralidade em tempos de crise moral.  É imperativo tomar uma posição, pois como demonstrou Schopenhauer, toda guerra tem três fases:  primeiro começa como algo ridículo, depois é violentamente combatida; finalmente é encarada como auto-evidente. Ésquilo dizia que a verdade, na guerra, é a primeira a morrer.  E está escrito em João 8, que a verdade nos libertará.  É preciso, pois, acabar com a guerra antes que a guerra acabe com a gente, como diria J.F. Kennedy. Mas a paz, como disse Nehru, não é apenas ausência de guerra. George Orwell certa vez escreveu que as pessoas podem dormir tranquilamente porque há homens duros prontos para fazer violência por elas. O sábio Sun Tzu, em seu clássico, a Arte da Guerra, já dizia que a suprema mestria é dominar seu inimigo sem ter que lutar contra ele. James Watkins, por sua vez, observava que uma das principais características da era moderna é o permanente estado do que ele chamou de “paz violenta”.   Não há monumento de civilização que não seja também um monumento de barbárie, na famosa frase de Walter Benjamin. Assim, dê uma chance à paz, como cantou John Lennon, e ame o próximo, como queria Jesus Cristo, mas não perca tempo dizendo o quanto você ama seu vizinho, aja como se o amasse, como diria C.S. Lewis. Faça amor, não faça guerra.


Conto escrito para o encontro de 29/07/2014






Guilherme Preger é escritor e engenheiro, autor de Capoeiragem (7Letras) e está no Clube da Leitura desde sua fundação. 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Fotogramas - Vinicius Varela



Fotogramas



Durante a segunda guerra, os soldados só tinham tempo de ler as cartas uma única vez antes que elas fossem metralhadas por balas ou gotas de chuva. A batalha cuidava de assassinar, borrar caligrafias. Não havia jeito de preservá-las. As fotos também. Pouco a pouco a pessoa no retrato ia desaparecendo até que só restasse um papel em branco. Foi assim durante a primeira guerra, nas guerras antes dela, na segunda guerra e suponho que será assim nas próximas.
O momento em que um soldado ia ler uma carta era semelhante ao da última refeição do preso no corredor da morte. Era um momento solene. Era comum, no meio do caos e destruição provocada pela guerra, ver um soldado lendo uma carta ou escrevendo da maneira que podia. A leitura era o pouco que restava de humano ou aquilo que mantinha uma lembrança de humanidade nas tropas. Essas epístolas eram mal escritas em papéis amassados e velhos, guardados nos bolsos de suas calças, dentro dos coturnos ou no fundo de seus capacetes. Feitas a carvão, lápis pequenos do uso apontados à faca ou qualquer coisa que estivesse à mão. Nos dias de recebimento do correio, grande agitação tomava conta da base militar. Seguido à ansiedade e inquietação um silêncio se instalava no acampamento. Nessas horas o tempo parava. Não havia bombas nem tiros. Não havia guerra. O horário da correspondência era o mesmo em todas as bases, então, uma trégua momentânea era concedida. Aliados e inimigos, liam com avidez o relato daqueles que lhes escreviam, tentando saber notícias sobre o mundo. Queriam palavras de consolo de suas mulheres. Fotos. Pingentes. Perfumes. Colares. Qualquer coisa que fosse externa àquilo. Que viesse de fora. Usavam esses objetos como amuletos, uma forma de não esquecer que lá fora ainda havia um mundo. Durante os bombardeios, eles seguravam esses objetos e fechavam os olhos. Alguns os deixavam ao alcance da vista e contemplavam aquelas miragens. Achavam que dali viria alguma resposta ou ordem de cessar fogo. Estavam doentes. Padeciam física ou mentalmente. A enfermidade da guerra até hoje não foi classificada. Atacava diretamente ao espirito. Durante a noite muitos deliravam. Tinham pesadelos terríveis e dormiam abraçados junto às suas cartas tiritando de febre. Era dura a vida no front.
Guerra, por exemplo, era uma palavra banida do vocabulário dos soldados. Escolhiam outras palavras, sinônimos mais leves: conflito, batalha, luta. Até mesmo front. Achavam que a suavidade da palavra poderia suavizar o que estava sendo feito. Guerra não. No que escreviam para os seus parentes e amigos não se podia mencionar tal palavra. Frequentemente se via “Aquilo” nas cartas. Os soldados diziam que tudo “aquilo” acabaria logo.
Grandes amores morreram na guerra. Alguns homens preferiam morrer olhando para a foto da mulher que amavam ou lendo uma última vez uma carta preferida.  Melhor que correr em direção ao inimigo atirando alucinadamente como os outros. Você estava ali, no campo de batalha, tentando se orientar em meio às explosões e cortinas de terra se levantando, virava para o lado e via um soldado olhando um retrato e dizendo juras de amor, beijando-o. Boom. Catapluft. Trá-tum. Fim.
A guerra traumatizava. Provocava amnésia temporária ou permanente. Nos casos mais graves alienação completa do mundo. O vulgar louco. Do soldado raso eram desconhecidas as estratégias e objetivos. O sujeito era mandado para matar sem nem saber o porquê. Eu era um pobre jornalista misturado com soldados mais miseráveis que eu. Vivi quase o mesmo horror que eles. Só não tive de matar. O que me salvou foi a câmera. Ela criou o distanciamento que me manteve são. Passava vinte e quatro horas por dia olhando através dela. A realidade chegava até mim filtrada por pelo menos cinco olhos: os meus óculos e as três lentes que compunham a câmera com que eu fotograva tudo que via. Me convenci de que estava num filme e passava os dias vendo o que me rodeava como se estivesse de fora. O aparelho permitia que eu registrasse a história sem fazer parte dela. Me subtraía da loucura. Estava ali apenas clicando.
Uma das táticas da guerra é o esquecimento. Deixar o povo atacado sem memória. Saqueava-se a cultura. Roubavam-se os documentos, os livros, mapas. Todo o acervo bibliográfico era levado e muitas vezes destruído. A história daquele povo era roubada. Hitler tentou fazer coisas parecidas. De repente, eles acordavam um dia e não sabiam de onde tinham vindo quem tinham sido seus heróis, nada. Depois vieram as lobotomias. As lavagens cerebrais. Apagar a memória à força. Mas esses métodos não conseguiram superar a amnésia pelos livros. O esquecimento era um veneno lento usado durante a guerra. Ia desconstruindo a identidade. Anulando o sujeito. Logo a nação não tinha mais de que se orgulhar. Não tinha mais nada a transmitir. Tiravam deles a capacidade de contar histórias e pior: a sua própria.
Em um lugar, no entanto, eles tentaram fazer isso. Foi após uma guerra esquecida. Do dia para noite o povo se viu sem passado. Foi preciso então inventar. Diante da falta de relatos e registros aquela nação se viu obrigada a inventar a própria história. E assim foi. Todos participaram da construção coletiva da narrativa. Algo lá atrás precisava fundamentar o agora ou o presente deixaria de ter sentido. Parece que o lugar se chamava... Como era mesmo? Ficava localizado em-                                                                                                                 
(Diário de Vladimir Molotov, Leningrado, maio de 1943)

Relatório Final: O Paciente Hans Klaus, 34 anos, ex-soldado alemão, continua apresentando alucinações, lapsos temporais e crises de identidade. Ele modificou os acontecimentos e apagou de sua memória todos os crimes de guerra. 29 de fevereiro de 1946, Nuremberg, Hospital Psiquiátrico Alles Blank. Doutor Johan Herzog, médico chefe.


Conto escrito para o encontro de 14/07/2014

 


Vinicius Varela é sobretudo um admirador da arte. Gosta de dialogar com os diversos movimentos artísticos e com as formas de criação. Criar para ele é fundamental e se utiliza da arte para tentar explorar tudo aquilo de que a realidade apenas não dá conta. É poeta, ator, músico e contista até agora. Pois encontra-se em constante processo de antropofagia