São Paulo, 40 graus - Guilherme Preger

São Paulo, 40 graus São Paulo, 40 graus, aqui ficou tudo um caos. Do alto do Edifício Copan, eu vejo a cidade, mas não vejo amanhã. Não chove, não cai água, só há suor e mágoa. Lá embaixo, vejo multidões sedentas, sinto sedes irredentas. No asfalto calcinante, sufocam os ambulantes. Nas calçadas ao sol, está aceso o paiol. Mataram todos os mananciais, agora não vai ter paz. Chegamos ao fundo do poço, estava sem água e todo mundo está no osso. Os manos cavam fundo a terra que só minério encerra. Maluf furou por petróleo, mas só automóvel engole óleo. Agora é sem apelo, não sobrevive nem camelo. Nego te fez de otário, te chamando de dromedário. Construíram estrada e viaduto e puseram no tributo. Fizeram uma cidade para os carros e não há saliva para escarro. Gasolina tem bastante, mas a água é diamante. A cidade virou um sertão, mas secaram o coração. Dizem que o corpo é todo líquido, mas nego foi muito iníquo. Secaram os dias e a esperança, agora é cada um com sua dança. To...