A felicidade, desesperadamente - André Comte-Sponville



Esperar é desejar sem gozar, sem saber e sem poder:

A felicidade, desesperadamente, de André Comte-Sponville  

Recomendação de livro por Vivian Pizzinga



Se alguém me dissesse que para apaziguar o alívio de uma dor física um bom remedinho seria ler um livro que defende a felicidade no desespero, talvez eu arqueasse as sobrancelhas. Se eu já não tivesse lido o delicioso e pequeno livro do filósofo André Comte-Sponville, A felicidade, desesperadamente, que saiu pela Martins Fontes, em 2005, eu estranharia e, certamente, ficaria curiosa. Ninguém me falou nada e resolvi, esses dias, futucar a estante e logo retirei de lá esse pocketbook do qual é possível dar cabo em 2 horas e é perfeito para dias outonais.
O livro é fácil de ler, acessível àqueles que não têm familiaridade com conceitos, autores ou o pensamento filosófico, é sensato e, sobretudo, afetivo. Acompanhar as experimentações de pensamento do autor, para usar seus termos, em conferência proferida em 1999, permite-nos repensar toda essa noção um tanto quanto religiosa e enganosa de que a esperança e a felicidade têm tudo a ver.
Para tal, o autor, que nos lembra o tempo inteiro seu ateísmo (e que nem por isso recusa citações a Jesus e Buda), cita Platão, Pascal, Schopenhauer, Epicuro e até Freud (sem contar Woody Allen, que de bobo Sponville não tem nada), mas a linha e a agulha do texto são spinozistas do início ao fim. O autor está preocupado em fazer uma defesa do desespero – não aquele em que o abatimento é a tônica principal – mas um desespero feliz, uma felicidade que não espera nada, porque disso não carece. Para chegar ao seu termo, Sponville primeiro fala sobre a felicidade, inserindo-a na definição de filosofia de Epicuro, que, à pergunta ‘o que é a filosofia?’, reflete: “A filosofia é uma atividade que, por discursos e raciocínios, nos proporciona uma vida mais feliz” (Fragmento 218).  O autor nos irá dizer por que gosta tanto da definição – que coloca a filosofia como uma atividade e não só como um sistema, que seja feita por discursos e raciocínios, e não por visões ou êxtases, e que leve à vida feliz e não apenas ao saber ou ao poder. Embebido da noção epicurista, irá nos dizer Sponville que “a filosofia é uma prática discursiva (...) que tem a vida por objeto, a razão por meio e a felicidade por fim” (pp.8-9).
O livro construirá um belo passeio dialético sobre a felicidade sem esperança. Um passeio com três etapas. A primeira, em que expõe o que chama de a felicidade malograda, ou as armadilhas da esperança.  A segunda etapa constitui-se de uma crítica da esperança, que irá resultar no que chama de a felicidade em ato. Finalmente, o terceiro momento é a da felicidade desesperadamente, em que Sponville evoca uma sabedoria do desespero (p. 15).
O experimento de pensamento de Sponville merece ser acompanhado de perto, mas vale aqui destacar o resumo de cada uma das características da esperança, que ele examina no segundo momento de seu livro: a primeira – “uma esperança é um desejo referente ao que não temos, ou ao que não é, em outras palavras, um desejo a que falta seu objeto. (...) esperar é desejar sem gozar” (p. 50). A segunda característica – “uma esperança é um desejo que ignora se foi ou será satisfeito (...) esperar é desejar sem saber” (p. 53). A terceira característica, que a distancia da vontade – “a esperança é um desejo cuja satisfação não depende de nós (...) esperar é desejar sem poder” (p. 57). Todas as características da esperança a afastam irremediavelmente da felicidade. O autor arremata como uma das várias citações a Spinoza: “Vocês podem compreender por que Spinoza via na esperança ‘uma falta de conhecimento’ (...) e como que ‘uma impotência da alma’ (...), por que ele dizia que ‘quanto mais nos esforçamos para viver sob a conduta da razão, mas nos esforçamos para nos tornar menos dependentes da esperança’ (Ética, IV)” (p. 58). Sponville também cita Spinoza, na Ética, III: “Não há esperança sem temor, nem temor sem esperança”.
Finalmente, nosso querido autor cita Freud, em referência ao seu texto Luto e Melancolia, associando o luto ao desespero e, portanto, à felicidade: “O trabalho do luto é esse processo psíquico, esse trabalho sobre si que faz que a alegria pelo menos torne a ser possível. Desesperar, no sentido em que emprego a palavra, é fazer o luto das suas esperanças, fazer o luto de tudo o que não é, para se regozijar o que é (...)” (p. 124). E aí, quem não vai querer ler? E aí, quem não ficou se roendo de vontade de conhecer Spinoza um pouco mais?

Comentários

  1. MEU INCONDICIONAL BOA TARDE,CERTA VEZ NO PERCURSO DA MINHA GRADUAÇÃO GANHEI ESSE LIVRO DE BOLSO DO AUTOR ANDRÉ COMTE E SOU ADMIRADORA FERRENHA DESTE AUTOR,RECOMENDADISSIMO

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