terça-feira, 23 de setembro de 2014

Mote do encontro 30/09


Texto lido por Marco Antonio Martire
 
O mundo se despedaça



Okonkwo acabara de apagar a lâmpada de óleo de palma e de se deitar na cama de bambu, quando ouviu o agogô do pregoeiro da cidade perfurando a atmosfera tranquila da noite. Guim, gom, guim, gom - soava o oco metal. Depois, o pregoeiro transmitiu sua mensagem e, ao terminá-la, voltou a tocar o instrumento. E esta era a mensagem: pedia-se a todos os moradores de Umuófia que se reunissem na praça do mercado na manhã seguinte. Okonkwo ficou imaginando o que estaria acontecendo de errado, pois tinha a certeza absoluta de que algo ruim estava sucedendo. Discernira na voz do pregoeiro uma clara tonalidade de tragédia, e continuava tendo a mesma sensação à medida que a voz se tornara cada vez mais indistinta na distância.
A noite estava muito calma. Eram sempre calmas, exceto as noites de lua cheia. A escuridão inspirava um vago terror nessa gente, mesmo nos mais corajosos. As acrianças eram advertidas de que não deviam assobiar à noite, por causa dos espíritos malignos. Os animais perigosos tornavam-se ainda mais sinistros e estranhos na escuridão. Uma cobra nunca era chamada pelo nome, à noite, pois ela poderia ouvir. Era chamada de cordão. E assim, nessa determinada noite, à medida que a voz do pregoeiro ia sendo gradualmente engolida pela distância, o silêncio retornava ao mundo, um silêncio vibrante, que se fazia mais intenso com o trilo universal de milhões de insetos na floresta.
Se fosse noite de luar, seria tudo diferente. Então, se ouviriam as vozes alegres da garotada brincando pelos campos abertos. E talvez aqueles que já não eram tão crianças estivessem se divertindo, aos pares, em lugares menos expostos; e as mulheres e os homens mais idosos estariam relembrando a juventude. Como dizem os ibos: "Quando a lua está brilhando, o aleijado anseia por um passeio a pé".
Mas essa noite em especial estava escura e silenciosa. E em todas as nove aldeias de Umuófia um pregoeiro com seu agogô pedia a cada um dos habitantes que estivesse presente ao encontro da manhã seguinte. Okonkwo, em sua cama de bambu, tentava imaginar qual seria a natureza da crise - guerra contra um clã vizinho? Essa parecia ser a hipótese mais provável, e ele não tinha medo da guerra. Era homem de ação, homem de guerra. Ao contrário do pai, era perfeitamente capaz de ver sangue. Durante a última guerra de Umuófia, fora o primeiro a trazer para casa uma cabeça humana. Era sua quinta cabeça; e ele ainda não era velho. Nas grandes ocasiões, como o funeral de alguma celebridade da aldeia, bebia o vinho de palma no primeiro crânio que cortara.
Na manhã seguinte, a praça do mercado estava repleta. Uns dez mil homens deviam estar reunidos ali, todos falando em voz baixa. Finalmente, Ogbuefi Ezeugo ergueu-se do meio deles e bradou quatro vezes:
- Umuófia kwenu? Povo de Umuófia, estamos de acordo?
A cada berro, ele se voltava para um lado diferente e parecia dar murros no ar com o punho cerrado. E todas as vezes dez mil homens respondiam Yaa! (Sim!). Ogbuefi Ezeugo era um orador poderoso e, por isso, sempre escolhido para falar em ocasiões semelhantes. Passou a mão por seus cabelos brancos e cofiou a barba branca. Depois, ajeitou o pano que lhe passava por baixo da axila direita e se amarrava por cima do ombro esquerdo.
- Umuófia kwenu? - clamou pela quinta vez, e a multidão gritou em resposta. Então, de repente, como um possuído, estendeu a mão esquerda e apontou em direção a Mbaino*, dizendo entre os dentes firmemente cerrados:
- Esses filhos de animais selvagens ousaram assassinar uma filha de Umuófia."

*nota do Marco: trata-se de um clã vizinho.     

ACHEBE, Chinua. O mundo se despedaça. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.




Nasceu em Ogidi, Nigéria, em 1930. É um dos mais respeitados escritores africanos da atualidade. Atuou na diplomacia durante os conflitos entre o governo da Nigéria e o povo ibo, no final da década de 1960. Em 2002, foi agraciado com o Prêmio da Paz oferecido pela Feira de Frankfurt, na Alemanha. Em 2007, recebeu o Man Booker International, um dos mais importantes prêmios das literaturas de língua inglesa.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Narrativas - Francisco Ohana


Narrativas

Ainda lhes restava alguma autoconfiança. Havia no centro da cidade uma espécie de edifício monolítico. Preto. Era menos que uma sentinela guia de destinos, menos que um canto de sereia perturbador de macacos e astronautas temerosos. Acho mesmo que, pela irrelevância, pode não ter acontecido nada do que digo, e que minha memória seja mais uma contação, apenas. Da janela da torre não se vê muita coisa, mas o suficiente para notar que funcionários fechavam às pressas os portões em torno na tentativa de barrar os manifestantes. Vinham em traje típico e alguns tinham arco e flecha em mão. Canteiros inclinados ladeavam o prédio, cercado de grades que haviam sido transpostas pelas gentes em movimento. Uns penduravam-se no cercado e gritavam uma cantoria de bando. Outros apontavam flechas para fileiras de homens uniformizados, curvos detrás dos muros e paredões da estrutura, esgueirando-se ao modo dos primatas iniciais na iminência de um salto maior. No gramado viam-se cocares amarelos, azuis e vermelhos, sobre seres materiais. Sobre homens e seus corpos, corpos que – ressalte-se – alimentavam ali mesmo, no cimento, com mingaus de pupunha, quitutes de mandioca macerada e bebidas fermentadas. Numa cerimônia de defumação sobre o concreto, batiam nas vigas da construção num chamamento de selva, como as pancadas que ecoam dos pés de grossos troncos à parte alta da mata. E ensaiavam nova invasão.
Autorizou-se a entrada de um grupo. Um yanomam – um ser corpóreo – despiu-se das poucas vestes que trazia, deixando ver sua pintura de urucum, jenipapo e carvão, de tinta batida em cuia. Tratava-se de um padrão ancestral facilmente encontrável em panos, afrescos e ocas do mundo. É imaginação coletiva, afinal. Ele: o tipo de homem que acessava arranjos mais largos de inconsciente. Sabia de algum modo que vimos migrando pelos mesmos estreitos, um grande continente, geleiras que escorrem em formas lacustres, navegações rudimentares. Sabia das batalhas de histórias. Que as histórias são batalhas, que as batalhas são histórias. Suas gentes começaram a escrever em árvores e paredes – e ambas se tornavam cada vez mais raras naqueles tempos, não havia por que evitar a realidade. Ante algum constrangimento dos presentes, disse que não compreendia os mecanismos que de longe pareciam grandes moinhos delgados. De longe: um bosque de cata-ventos. Mas se aproximava até debaixo das pás que cortavam o ar em torno do parque eólico. Tampouco entendia o uso do alagamento da terra de antes, num esquema de transformação de energia que lhe parecia pouco intuitivo. Ou as turbinas, os eixos. Estava tudo alagado agora. Cheio de cata-ventos brancos. Disse assim que não foi sábio que se houvessem aproximado tanto. Que os houvessem mantido sob cerco. Pois viram muito seus rostos e agora os sabiam de cor. Suas gentes decoravam tudo: traços, gostos, comidas. Medos. Suas horas de dormir e humores. Disse de muitos salvadores que passaram por ali, antes (bem antes) de dois mil anos. Cristos de plumas, meninos com sexo – seu pauzinho sem pelos – nas colinas de vegetação fechada, banhando-se nos rios. Contou de árvores sagradas nas trilhas da caça, sulcadas com descrições de mitos da floresta. Contou de festas fúnebres antigas, quando atavam bichos mortos com cipó – ficavam pendidos sobre o fogo baixo – e comiam macaco, tamanduá, preguiça e roedores. Na praça de terra havia agora canteiros de obra, mas ainda persistiam os gemidos distantes da elite de pajés e as poses que emulavam coreografias de uma natureza indecifrável para a maioria. Os chefes agiam sob influência de um pó marrom de raspa de árvore, que alegrava, vez ou outra, as anciãs da pequena sociedade matriarcal. Depois comiam mais bichos – mutuns, onças, porcões, cotias e tatus-canastra assados em folha de bananeira. Eram mais inteligentes que os bichos, pois seguiam seus hábitos alimentares como quem espreita a cara da morte. Daí que ao lado dos igapós de curso ainda não drenado houvesse totens dos tais bichos mortos, quando se viam patas, mãozinhas e crânios de tamanho, dureza e formatos diversos, naquelas noites de insônia e regurgitações. Esse tipo de cerimônia tinha lugar porque o morto tivera uma queda estranha, batera a cara contra o chão ou qualquer outra morte pouco usual – um tipo de acidente místico. E havia pouco espaço para ansiedades nas festas de vida e morte da aldeia, pouca liberdade para o pranto. Pois vida e morte seriam um mesmo rosto no rio da sua aldeia.
Ocorreu-me que eu visitara certa vez um posto avançado da empreiteira, em que capatazes mal-encarados faziam cócegas na barriguinha de sementes de um papagaio, fumavam e assistiam a programas de auditório na televisão. Em torno dos casebres dos peões, dispunham-se roupas como as peles que secavam nas franjas de uma oca vizinha, num intercâmbio de relações inconfessáveis de subjugação. E na manhã da invasão, o índio falou como num diálogo arcaico. Aqui: fronte reta. Eis ali a imaginação de uma coletividade, afinal. E existe um tipo mais perverso de exílio – o do mundo alheio que diminui o espaço de ação, uma esfera em progressiva redução em torno do sujeito parado. No mesmo lugar. O dos círculos concêntricos de um universo no avesso da expansão, em movimento centrípeto e, sobretudo, sufocante. Vim a saber que o homem era de uma tribo nômade de área demarcada, que couberam ali um tanto de gerações reduzidas a uns poucos mil habitantes de hoje. Que temiam novas corridas do ouro no rastro de obras de governos e projetos que alterariam o funcionamento da reserva. Como num viveiro de grandes proporções, arrombado por entradas e bandeiras espúrias, revestidas da novidade da via férrea e estradas de séculos após, em novas corridas ainda. Histórias de lugares ao norte do mais ao norte que eu conhecera, de gentes de olhos mortos pela raspa inalada, quando se via um céu em queda inevitável, onde se davam brigas simbólicas de uma liturgia toda particularidade e leveza. Até a merda dos brancos era impura naqueles cantos. E hoje rolava pela imensidade da região.
Queria – mas não sei – descrever o que vi.


Conto escrito para o encontro de 29/07/2014





Francisco Ohana é economista e participa de atividades que o mantenham ligado às artes, principalmente literatura, teatro e música. Frequenta o clube de leitura do Baratos da Ribeiro desde fevereiro de 2014.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Mote do encontro 16/09



Texto lido por Daniel Russell Ribas

Meu coração de pedra -pomes

 

 

Se eu fosse a mulher oficial de José Júnior, chegaria gritando na sala: "Este homem tem um pau, ouviu? Tem um pau!".
É assim que eu imagino as tias, sempre pérfidas, com suas pernas compridas e desproporcionais demais ao resto do corpo. E, portanto, quem vai me questionar? José Júnior acha que minha imaginação fede. "Exagerada e doentia", ele diz. Mas, xoxotamente falando, comigo está feliz.
Quando ele está no lugar que eu chamo de "mansão dos falidos", com a família toda reunida em comunhão de males, mando fotos comoventes para ele. Coloco uma lingerie e vou clicando enquanto tiro as peças com delicadeza. Começo com as alças do sutiã, depois vou descendo, até ficar completamente nua. Sempre tiro fotos dos meus lábios ferinos, abertos como se gemessem. Vou mandando pelo celular aos poucos, é sempre importante demorar entre uma foto e outra, para deixá-lo entretido no meio da refeição. Ele implora por mais fotos, ruge, promete joias e sapatos de pele de peixe. Eu mando. Depois, para finalizar com beleza o serviço, ligo para ele e me masturbo com força e habilidade. Daí gozo bem rápido e alto. Nesse momento, ele é obrigado a levantar e ir lá fora, no quintal da mansão em ruínas, me ouvir gemer.
Quando ele chega aqui na minha casa, sentamos na minha cama de meteorito e ele logo me pede para nunca mais fazer isso, que é vexatório e constrangedor.
Digo, revoltada:
 – Como assim, vexatório e constrangedor? Ou uma coisa ou outra.
Ele não se importa:
– Dá no mesmo.
– Como, dá no mesmo? São completamente diferentes.
– Nada disso. São sinônimos.
Levanto do sofá, inconformada:
– Não acredito em sinônimos. Nesta casa eles não são bem-vindos. Ou vexatório ou constrangedor. Escolhe um!
Pego no pescoço do meu amante e grito baixo:
– Escolhe um deles!
Ele arregala os olhos de pânico:
– Vexatório!
Se é assim, faço de propósito, e também para estimular a ereção e divertir o imaginário deletério das tias.
Ontem, já mais calma, pedi para ele os presentes prometidos, muito educada. Nunca vingou. Por isso tenho uma listinha, que penduro sempre no espelho em frente à minha cama. Quando ele me come de quatro, pode ver suas pendências. Depois de gozar, chora e jura voltar para a mulher original sem pecado capital.
Estou planejando outra traquinagem com José Júnior, quero fazer com que ele sente do lado esquerdo do sofá. Já tenho um plano. Vamos ver se funciona. Macumbas sempre funcionam, cada dia eu invento uma.
O José Júnior, com sua falta de emoção e ausência de ímpeto para abrir a boca, faz com que todos acreditem que ele é bom. Durante nossos atos sexuais xinga Deus o tempo todo: "Deus é um pulha, Deus é um crápula, Deus é um menisquente". Mas se comporta como um bom religioso praticante. Anda por aí com a cruz na mão, o terço na cintura, a cara apatetada. Conclusão: todos acreditam na sua beatificação interpretada. Descobriu cedo, o exímio pesquisador da vida, que o bom é aquele que cala. Numa mesa em que todos urram as suas opiniões, lá está José Júnior, triunfando em sua apatia e sempre levando vantagem. No fim da reunião, os convidados o elegem: o correto. Quando eu o sacudo e jogo sua cabeça na parede, ele diz: "Não senti nada". É tão tétrico ser Xosé. Às vezes, quer dizer, sempre acho que ele vai desmembrar sua mulher legítima e ocultar as partes num vaso de uva, lá na mansão dos falidos. Depois, vai vir aqui em casa, com aquele sorriso frouxo de menino criado pelas tias. E, aí, vai começar a maldizer o Deus todo. Até ser a minha vez de ser jogada contra a parede. Para me prevenir, toda vez que encontro meu amante uso um capacete. Passeamos, os dois, pelas ruas. Todos estranham o objeto redondão na minha cabeça. Mais de uma vez já disse para os caixas de supermercado que estava treinando os patins. Ninguém acredita. Mas ele, ó crédulo, acha normal. Acha tudo normal e bom. Menos Deus. Só eu sei desse seu segredo terrível. Mas ainda pretendo descobrir outros. Por exemplo: por que tem essa mania de querer ficar só com a mulher dele? Eu imagino que ela seja frígida, que trepe apenas na horizontal, e tem os gemidos parecidos com o som de uma buzina, e morde travesseiro. Não, mentira. Ela não geme, não goza. A mulher dele nunca goza, não na minha imaginação. Ao contrário, ela retrai a xoxota, dá tapas na cara, xinga e grita: "Goza logo! Goza fora!". A mulher dele sempre quer o esperma fora. Só eu coleciono esperma dentro de mim. Às vezes, transamos várias vezes e não me banho, pra ir juntando o esperma. Depois eu bebo só umas gotinhas. O resto eu guardo num vidrinho de veneno que comprei em Paris pela internet. Tudo à vista, com o dinheiro do hospital. Não da limpeza, com o dinheiro das coisas escusas que faço lá dentro, e sempre me pergunto: por que não o bordel? Mas essa é outra história.

FRANK, Juliana. Meu coração de pedra -pomes. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. 




Juliana Frank é uma experiência de peito aberto.