Balão Cativo, por Pedro Nava

Quando não olhava para a Charlotte Corday nem para a Princesa de Lamballe, quando não lia — suspendia as âncoras, alestava os cabos, levantava minhas velas e saía mar afora. Para isto bastava fechar os olhos e encostar aquele búzio no ouvido. Era uma fantástica e gigantesca concha univalve cuja espiral não se desenvolvia em torno de uma linha, mas como giro que partisse do flanco de um cilindro. Essa anomalia do molusco deixava por dentro tuba que emitia o som grave, penetrante, profundo e antigo — o mesmo das que eram usadas pelos tritões no mundo de outrora. Eu tomava e soprava largamente como quem procede aos encantamentos. Ao seu troante apelo, como que o mar suscitado se empolava feito se dele fosse nascer outra lua e, do torvelinho da espuma de olhos fugazes, surgiam, cantando, nereidas de ventres nacarados, de altos pentes incrustados de caramujos e de imensas nádegas opalescentes. Punha no ouvido e do côncavo da concha vinha aquele ruído de para-sempre, aquele sustenido nas alt...