Haxixe, por Walter Benjamin (mote)

“Olhei para o relógio, eram oito da noite. Nas primeiras horas do dia seguinte, um telegrama urgente poderia estar na agência de meu banco em Berlim. Dentro de mim começam a alternar-se inquietação e desagrado; inquietação por ver-me às voltas, justo naquele momento, com um negócio, uma incumbência, e desagrado pela insistente demora do efeito. Pareceu-me que o mais sensato seria rumar imediatamente para o correio central, que, pelo que sabia, expedia telegramas até meia-noite. Dado o infalível tirocínio do meu homem de confiança, meu assentimento era decisão tomada. Entretanto, preocupava-me um pouco a possibilidade de que, caso o haxixe começasse a fazer efeito, eu pudesse esquecer a senha combinada. O melhor era não perder tempo. Enquanto descia a escada, procurava recordar a última vez em que havia tomado haxixe – isso fora vários meses antes – e aquela fome devoradora e insaciável que me viera mais tarde, no quarto. Pareceu-me prudente comprar um tablete de chocolate. Avistei ao l...