O Filósofo do Samba, de Francisco Bosco

... Mas e a filosofia? Se o poeta da Vila é esse amigo íntimo da língua, o sujeito engenhoso que se procurava na Galeria Cruzeiro para fazer a segunda parte de um samba, o craque que inventava samba epistolar, marcha absurda e era capaz de transformar em canção até um gago com dor de cotovelo — se é a isso que se refere o apelido de poeta, o que pretendia designar o de filósofo? O filosófico, em Noel, se deixa ler em pelo menos duas dimensões. Uma, mais evidente, é a dimensão ética. É ela que se mostra no samba Filosofia : “Não me incomodo/ Que você me diga/ Que a sociedade é minha inimiga/ Pois cantando neste mundo/ vivo escravo do meu samba/ Muito embora vagabundo”. Desde a sua origem na Grécia antiga, o filósofo é alguém que se define por uma relação de maior autonomia com a sociedade. Essa autonomia pode se dar tanto por um isolamento ascético, indiferente ao mundano, quanto por uma atuação política direta, interventiva. Nos dois casos o que se tem é um modo mais ativo...