terça-feira, 28 de junho de 2016

Homens não choram

Homens não choram
Gabriel Araújo de Aguiar

- Pai, eu acho que não sou homem...

Decepcionado, o pai chorou.

Aliviado, o filho sorriu, vendo que o pai também não era.



(O microconto “Homens não choram”, Gabriel Araújo de Aguiar, de Brasília, foi vencedor do 4º Concurso de Microcontos de Humor, do 41º Salão Internacional de Humor de Piracicaba, de 2014)

Mote do encontro de 05/07/2016


quinta-feira, 23 de junho de 2016

Alfa

Assumir a relação era para ela um problema. Acreditava em morar livre e só nesta parte do mundo, compartilhando a rotina com um cachorro parceiro e amigo. Morava por aqui longe dos pais e do irmão. Tinha família grande, tios e tias e primos, moravam longe também. Cuidava de um carro novo, usava para trabalhar, só para o trabalho, gostava de ônibus e metrô. 
   
Passeava com o cachorro quando conheceu o Vitor. Conversou com o rapaz primeiro por quinze minutos, na calçada do meio de semana, o tráfego muito intenso, som de tráfego e canto de cigarras. Não resistiu, ele pediu e ela aceitou sua amizade no facebook. Conversaram muito online, à tarde e à noite e pela manhã. Descobriram preferências de um e outro devagar, havia um clima de romance no ar, mas ela foi levando com calma. Havia livros e séries de tevê, havia celulares e tablets, havia os amigos da vida e da internet.

Vitor era sem dúvida seu amigo da internet. Os dois brincavam muito pela rede, o cachorro dela junto da cama quando ela dava risada. Começou a reencontrar Vitor pessoalmente na rua, por acaso repetiam bastante o mesmo encontro da primeira vez, o passeio com os respectivos cães de estimação. Ela com o macho e ele com uma fêmea. Sem timidez. O passeio era bonito.

Mas o tempo passou e a relação dos dois não avançou, permaneceu a mesma. Quando questionada, ela respondeu que achava aquela relação muito natural. Óbvio que pela internet se falassem mais, à distância se entendiam melhor, ela estava na casa dela, deitada na cama dela. Não podia simplesmente enfiar a cama no meio da rua.

Não é verdade que fosse dessas que se trancam em casa, não era dessas. Tinha boas amigas, saía à noite, se divertia, ficava com os carinhas, transava. Sempre em motéis, ainda que os lençóis não fossem os da sua cama. Sua vida era de uma cordialidade branda: cumprimentava conhecidos na rua, cumprimentava o porteiro. O porteiro já fizera inclusive serviços preciosos em seu apartamento.

Mas Vitor fazia questão de ser um problema.

Ela não sabia o quanto deveria ceder.

Já moravam no mesmo bairro, eram vizinhos. Vitor precisava de muito mais que uma caminhada com os cães, precisava ser homem também ao lado dela, certamente queria entrar na casa dela, estar na cama dela. Era uma ideia que a aborrecia. Em sua casa tinha apenas um banheiro e a ideia de compartilhá-lo com um homem não lhe agradava. Compartilhar a senha de sua rede wi-fi também não. Compartilhar cozinha, compartilhar cama e tevê também não.

Liberdade é um lance bom. Ela decidia por si o que jantar, o que assistir na tevê, quando sair, que postagem curtir. Vitor vinha e mandava nessa liberdade toda, precisava demais de muito, queria invadir e conquistar o seu território. Ela decidiu dar uma chance ao rapaz. Deu para ele. No apê dele, a cadela latindo horrores, foi uma loucura legal. Gastaram umas semanas compartilhando aquele espaço, transaram muito naquele apê, o que a fez acreditar que a relação tinha jeito.

Foi engano.

Ela sempre ia embora quando queria, o cachorro a esperava em casa e Vitor bancava o chato, sempre reclamava. Precisava que ela e o cachorro se mudassem para o seu apartamento. Precisava. Precisava. Ela detestou a proposta, não desistiria de um lar que era tão seu. Nem por causa de sexo bom entre quatro paredes. 

Resolveu: parou de compartilhar. Parou de compartilhar onde trepavam, parou de compartilhar o apê dele, parou enfim pelo celular. Não respondeu a qualquer mensagem. Ele também parecia não estar mais tão a fim. Talvez agora ela transasse mal.

Não se viram de novo. Pela internet se estranharam em algumas postagens. Nada que rendesse um bloqueio. Ela passou a passear com o cachorro em outra rua.


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Conto lido no encontro de 13/10/2015.



Marco Antonio Martire é carioca, autor do livro de contos "Capoeira angola mandou chamar" (2000) e do ebook "Cara preta no mato" (2001). 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Nine out of ten



Nove em cada dez estrelas de cinema me fazem chorar, eu estou vivo.

Pairo como um quase nada sobre uma terça-feira emagrecida, reúno meus pedacinhos desconectados, as terças-feiras parecem mesmo ter esse direito de ser sempre chuvosas e nubladas.

Um dia frio é bom para comer um croissant.

O primeiro golpe lhe foi desferido na cabeça com um alicate, como uma coronhada. O sangue verteu, verteu e verteu e, antes que se pudesse dizê-lo morto, os olhos escuros e pequeninos se dilataram, e o corpo caiu no chão, tombado como um prédio histórico.

O segundo golpe foi uma flecha que, atirada por um índio que vivia às margens do Tapajós, acertara-lhe em cheio a cara, e o sangue escorria pelas bochechas aos borbotões. Que não devia era mexer com os índios, a lição que sua mãe lhe dera.

O terceiro golpe veio pelos cavalos esbaforidos que levantavam a poeira da terra por entre os trotes, mas apesar das ferraduras, quatro por animal, não se tratava de um golpe de sorte: era coice e pisoteio.

É importante palitar os dentes após cada uma das refeições, especialmente se não houver um fio dental por perto.

Triste Bahia, ó quão dessemelhante estás e estou do nosso antigo estado de espírito. Pobre te vejo a ti, a mim, a ele, a ela, aos artistas, à vida, pobre te vejo a todos, e em todos.

Quero a luz dos olhos meus à luz dos golpes teus, só pra te massacrar.

Meu amor, teu corpo ao meu, nesse meu corpo ateu, vou te desmascarar.

E tendo José de Arimateia pedido o corpo de Jesus Cristo a Pôncio Pilatos, e vendo que o corpo estava morto e sangrava por todos os poros, e sabendo que os golpes que lhe foram desferidos eram injustos, decidiu a dar a ao escolhido um enterro digno.

Calado pelo dever moral, o homem que diz vou, não vai. Coitado do homem que cai no canto de Ossanha, traidor.

A traição não é um pecado capital, nem nos dez mandamentos bíblicos contidos no livro de Êxodo, tampouco na versão católica dos dez mandamentos. O adultério é pecado, a traição jamais. O roubo é pecado, a traição jamais. Roubar é pecado, temer jamais.

Aquele que trai, conspira e tece as teias de urdiduras corrosivas e diz vou: não vai; se é homem que diz ‘Sou’, não é.

Cada um dos índios sente a dor do golpe e contra-ataca, de forma coletiva, em flechadas disparadas contra os canhões.

Davi contra Golias é também a flecha contra o arcabuz, a nudez contra o excesso de roupa, as pessoas contra a cavalaria, é desviar-se do coice do golpe do cavalo do bandido com um golpe, um golpe de capoeira.

O golpe de capoeira é gente preta, gente branca, gente índia na malemolência de quem não quer mais saber de Pôncio Pilatos.

É Oxóssi em seu cavalo, com seu chapéu de banda.

É a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar.

Um dia frio é bom para comer um croissant, como são lindos, como são lindos os burgueses, e os japoneses, mas tudo é muito mais.

Caetano Veloso gravou o álbum Transa em 1971, passando uma temporada golpeado no frio londrino enquanto pensava no seu triste Recôncavo.

Não poderia sequer imaginar que mais de trinta anos depois estaria se preparando para estacionar um carro no Leblon.

Passa um filme em Portobello Road em setembro de 1971. O sangue, aos borbotões, salta das bochechas de Jesus Cristo enquanto José de Arimateia tenta em vão argumentar, debruçado sobre o peso de Jesus Cristo, ora morto, tombado como um álbum histórico.

Caetano Veloso palita os dentes após comer um croissant. Está sentado na terceira cadeira da quinta fileira assistindo ao filme de cujo nome ninguém mais se lembra. É o décimo filme a que assiste desde que chegou, mas Caetano, manteiga derretida em todos os nove anteriores, por algum motivo, não chora.

Se nove em cada dez estrelas de cinema o fazem chorar, e se passou nove sessões chorando no mesmo cinema de Portobello Road, e se, noves fora, é ainda preciso saber ser forte, pra quê, ó meu deus, pra que rimar amor e dor?

Em frente, amigos, em frente: acabou chorare.


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Este conto foi escrito para o Clube da Leitura de 07/06/2016, data em que completou nove anos de existência.

Igor Dias, 29 anos, é carioca, engenheiro e escritor. É autor dos livros "Dinamarca" (contos, 2015) e "Além dos sonetos breves" (poesia, 2012)


segunda-feira, 20 de junho de 2016

O banheiro dos meninos

O banheiro dos meninos, por Morena Madureira


Isso aconteceu no ano passado, mas parece que faz um tempão, porque depois que aconteceu foi tanta coisa que não dá nem pra contar com uma mão só. Tem que usar as duas. Na verdade tem que usar os dedos do pé também e nem assim dá pra contar tudo. Tem que pegar uns dedos emprestados.

Antes de acontecer eu tava lá, na minha, no começo do quinto ano. Eu era do 5o B. Aquele da sala no final do corredor, em frente ao banheiro dos meninos. Eu sentava todo dia na cadeira da segunda fileira encostada na parede, de frente pra porta. Atrás do Zeca e na frente do Felipe Silveira. Todo dia eu sentava lá.

Como na nossa escola não tem ar condicionado e os ventiladores são umas geringonças velhas e barulhentas, que ficam rangendo a aula toda, a professora deixava sempre a porta aberta, e eu acabei pegando mania de ficar olhando o entra e sai do banheiro dos meninos.

Eu ficava olhando mais quando a aula tava chata, o que acontecia todo dia, porque todas as aulas são chatas, eu só gosto mesmo é de Educação Física e um pouquinho de Ciências, então dá pra dizer que eu ficava olhando toda hora pro banheiro dos meninos. Toda mesmo.

Eu ficava um tempão vendo o que acontecia lá. Via quem entrava e quem saía, olhava as caras dos meninos e ficava reparando quem demorava mais, em que série cada um tava, ficava pensando se tinham lavado a mão, ficava vendo quem era feio, quem era bonito, quem eu queria ser amigo, e sabe, comecei a ficar muito acostumado mesmo a fazer aquilo.

Na verdade eu já fazia isso antes, desde o quarto ano, porque aquela já era minha sala. É, no quarto eu já tava com essa mania. Mas pra falar a verdade eu nem tinha percebido que eu gostava tanto assim de olhar os meninos até quando o Pedro entrou na escola. E isso que foi no começo do quinto ano.

Ele tava no sexto, era mais velho que eu. E até ele chegar no escola, quando eu ficava olhando os meninos ninguém me olhava de volta. Acho que ninguém nem percebia que eu tava olhando. Mas o Pedro percebeu. E eu vi que tinha aquele menino, que eu ainda nem sabia que chamava Pedro, porque ele não era da minha série e eu nunca tinha visto ele na escola, que toda a vez que ia no banheiro quando voltava ficava olhando bem pra mim, me encarando.

No começo achei bem estranho, fiquei com um pouco de medo. Achei que ele queria me bater. O Pedro era mais velho, e os mais velhos só olham pra gente quando querem bater, ou sacanear com a nossa cara. Aí eu sempre desviava o olhar quando via que era ele saindo.

Mas a vontade de olhar foi ficando mais forte que meu medo, aí eu meio que parei de desviar. Eu olhava ele de volta. E foi ficando meio estranho, porque toda vez que eu via ele me dava um frio na barriga, eu ficava sei lá... empolgado. Ficava esperando ele ir no banheiro todo dia.
E aí comecei a fazer isso na hora do recreio também. Como eu disse ele era novo na escola, e começou a jogar bola na quadra na hora do recreio, com os meninos da sala dele. Eu não tinha muito amigo fora da minha sala, e meus amigos eram meio nerds, eles nem saíam da sala na hora do recreio, ficavam jogando RPG. Aí eu tava com aquela vontade de ver mais o Pedro e comecei a ficar assistindo ele jogar futebol no recreio.

Logo no primeiro dia ele já percebeu que eu tava lá. Ele jogava muito bem, era o melhor sempre. Driblava os meninos, corria mais que todos juntos, fazia vários gols. E sempre quando ele fazia gol ele olhava pra mim, me via sentado lá na arquibancada. E minha barriga sempre doía nessas horas.

Aí um tempinho depois que eu comecei a assistir ele, não lembro bem quando foi, acho que era perto do fim do segundo bimestre, lembro que era perto da semana das provas, foi aí que aconteceu tudo. Foi aí que aconteceu essa coisa que fico tentando esquecer, mas que não consigo, sabe? Que quando fecho o olho vejo tudo de novo. É como se eu tivesse no cinema, sabe? Vejo tudo. Tudinho.

Era hora do recreio. Eu tinha assistido o Pedro jogando e fiquei com vontade de ir no banheiro. Quando entrei no banheiro, vi que tinha uns meninos lá, e entrei em uma das cabines. Fiz xixi normal e quando abri a porta pra sair, dei de cara com o Pedro. Minha barriga doeu, meu coração disparou e antes que pudesse piscar ele me empurrou pra dentro da cabine e fechou a porta.

Aí ele começou a passar a mão em mim, a passar a mão no meu, no meu... no meu peru. Eu fiquei parado. Eu não sabia o que era pra fazer, não sabia de nada. Fiquei lá quieto, e ele lá mexendo em mim. Nem sei quanto tempo passou porque eu tava muito assustado, não conseguia me mexer, só sei que de repente uns meninos subiram pela porta e colocaram a cabeça pra dentro da cabine que a gente tava, e viram o que tava acontecendo.

Eram uns moleques mais velhos que nós dois, do sétimo, oitavo ano. Uns meninos que eu nunca tinha falado antes, mas que a escola toda sabia que eram os que mais gostavam de briga, de sacanear geral, sabe? Tinha uns quatro. E eles viram tudo e começaram a gritar, a chamar a gente bicha, e arrombaram a porta da cabine que a gente tava e começaram a bater em mim e no Pedro.

Como era hora do recreio, não tinha nenhum adulto por perto, porque a sala é no final do corredor e os professores tavam todos lá na sala dos professores, lá em cima. Os inspetores tavam lá na quadra. Ninguém veio ajudar. Os meninos ainda fecharam a porta e me falaram que deixaram um tomando conta do lado de fora, pra ninguém entrar.

Bateram muito em mim e no Pedro. Muito mesmo. Não só com a mão, mas com uma vassoura e um rodo que a faxineira tinha deixado lá. Quebraram dois dentes meus, quebrei um braço e uma perna também. Uma hora eu não consegui nem mais ver nada de tanto soco no olho. Meu nariz era só sangue. Até que apaguei.



Conto vencedor do encontro de 07/06/2016

Morena Madureira é paulistana, jornalista e inventora de histórias


sexta-feira, 17 de junho de 2016

CU

CU, por Guilherme Preger


O Comando Unitário – CU – determina que a palavra GOLPE deixe de ser utilizada nas mensagens de nossos órgãos intestinos de mídia. Ela deverá ser substituída pela locução “Impeachment democrático e constitucional”, termo mais correto e verídico conforme os mais aprofundados e penetrantes estudos de ciência governamental.
Igualmente, o CU solta a determinação da extinção dos Ministérios de Cultura, Ciência, Tecnologia, Inovação, Imaginação, Literatura e Cinema por serem excessivamente custosos, completamente ociosos e, com essa decisão do Universo Racional, evita a proliferação de criadouros de vagabundos e viados.
Adicionalmente, o CU releva o Ministério das Mulheres para a Secretaria das Mulheres que é mais representativo de sua condição de gênero, já que a maioria dos seres do Mundo Feminino exerce a profissão de secretariado, sem que haja o menor desapreço por essa profissão, a mais antiga da humanidade.
Consecutivamente, o CU cria, por meio desse ofício invasivo, o Ministério do Lar, que cuidará dos assuntos domésticos, do recato e do câmbio.
Virilmente, o CU mostra a que veio e erige o Machistério, órgão que será responsável por todos os problemas de potência do governo.
Com relevo, o CU coloca o Ministério da Igualdade em seu verdadeiro lugar, o de uma divisão setorial, para dar status à sua diferença.
Ainda, o CU estabelece o Ministério da Anticorrupção, onde serão introduzidos todos os membros por ora inspecionados, para lhes dar a devida possibilidade de tirarem o seu da reta.
Além, o CU extingue o Ministério da Pesca e cria o Ministério da Educação da Pesca, porque é importante não dar o peixe, mas ensinar a pescar.
Esportivamente, o CU promove o Ministério da CBF, responsável pela produção de camisas e bandeiras de nossa pátria amada, idolatrada, avante, vamos todos juntos pra frente Brasil.  
Ilustradamente, o CU aniquila o ignorante Ministério da Educação e em seu lugar funda o Ministério das Brasileirinhas, obra maior de nossa Cultura Profissional.
Abençoadamente, o CU move a Pedra Fundamental do Ministério da Fé, pois uma com fé eu dou, pois a fé não costuma faiá.
Industriosamente, o CU constrói tijolo por tijolo o monumental Ministério da Indústria que deverá por em movimento toda essa joça.
Auspiciosamente, o CU desmonta o Ministério do meio ambiente e faz nascer naturalmente o Ministério da Criação, dos Bons Ventos e da Aviação de Carreira. (Nota: este perfumado Ministério foi criado especialmente para Aecio Neves).
Cuidadosamente, o CU cria o Ministério do Colchão, para assegurar uma boa queda a todos os ministros e ainda ser um bom lugar para resguardar as receitas.
Equilibradamente, o CU dá vez ao Ministério da Ciclovia para estudar a viabilidade de futuras pedaladas.
E Last but not least, o CU transmuta o Ministério da Justiça em Ministério do Justiçamento Skinhead para botar pressão nessa garotada.
E ficam revogadas todas as disposições em contrário.
Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e de nossa Pátria Idolatrada,

Beijem o Comando Unitário!

Escrito para o encontro de 07/06/2016


Guilherme Preger é escritor e engenheiro, está no Clube da Leitura desde sua fundação, e acha que Golpe é coisa de poeta medíocre 

Mote do encontro de 21/06/2016

O Mito do sofrimento

Não diria que escrever é sofrido, Aliás, acho engraçado quando algumas pessoas dizem que escrever dói. Claro que a literatura é um pouco árdua, exige um tipo de esforço prolongado e uma dedicação que pode ser difícil, mas isso não quer dizer que ela é sofrida. A dificuldade não implica necessariamente em dor. Quando termino um livro me dá um pouco de alívio por ter conseguido fazer aquilo e poder tirar o foco de algo que ficou tanto tempo me consumindo, mas isso não significa de maneira alguma aliviar algo doloroso. Outro mito é o de que a boa literatura depende de experiências que carreguem sofrimento. Para mim, não existe essa ligação.

Lido por André Salviano Daniel Galera, 23 de junho de 2009 in Ofício da Palavra, organizado por José Eduardo Gonçalves.