Um dia de cada vez, por Carmen Belmont

Um dia de cada vez, por Carmen Belmont

Calma. Não sei mais quem eu sou. Só sei que não sou esse com a mão direita que começa e termina o dia assim – trêmula. Tíbia. Inútil.

Não, eu não. Sempre fui forte, correndo atrás do que queria, sem esperar que caísse do céu, no meu colo, sem esforço. Trabalhando duro, contornando dificuldades, mudando de casas, cidades, até de país, se as coisas não estivessem favoráveis. Absorvia os baques e aprendia as lições sem medo de tentar outro caminho, aproveitar oportunidades, inventar soluções novas para velhos problemas. Costumava pensar, com orgulho, que era tão adaptável que poderia ser deixado nu em lugar desconhecido e distante –  como, por exemplo, a China – que, mesmo assim, daria um jeito – eu sempre arranjo um jeito, sou um sobrevivente. Mas agora isso, isso que não posso controlar, não posso curar, não posso nem esconder e está aí pra todo mundo ver, uma manifesta deficiência que vem à tona, saída de uma zona misteriosa do meu cérebro de lutador perseverante. Isso que me fez pedir arrego, pedir para abandonar o grupo populacional economicamente ativo para virar um número na estatística quase vil daqueles que dependem da caridade do sistema.

Não, na verdade não era aviltante – afastou a ideia anterior com um gesto inadvertido no ar. Havia trabalhado muito, desde cedo, até sem registro, dada a sua condição inicial de estrangeiro, colocando os rendimentos de seu suor na conta de outros que agora iriam se beneficiar do tempo contado. Depois tudo se normalizou, mas perdera vários anos na transição. Então era merecido, mas, ainda assim, não se sentia tranquilo; ao contrário, seu coração se enchia de uma tristeza profunda cada vez que tentava, teimosamente, controlar aquele membro desobediente.

Os pensamentos febris acompanhavam seus passos no meio do burburinho da cidade. Já tinha cumprido todos os afazeres a que se propusera naquela manhã. Olhou o relógio – tinha tempo. Não queria voltar para casa, preferiu andar protegido pelo vaivém de pessoas que nem reparavam nele, dobrando esquinas sem razão aparente, apenas para continuar matutando consigo mesmo. Bem, pelo menos o tremor não atingira as pernas – o que lhe permitia andar com a desenvoltura de sempre. Viu as torres de uma igreja desconhecida no meio de um quarteirão, o portão aberto, entrou. Gostava de igrejas desde a infância, especialmente pela quietude que aqueles ambientes de pés direitos altos e vitrais decorados ofereciam à celeridade cotidiana. Sentou-se em um dos bancos do templo vazio àquela hora e, olhando fixamente o altar, deixou fluir a conversa com o sagrado, do modo como aprendera com a mãe. Não havia revolta; queria, tão somente, entender o porquê.

Foi quando notou, ao fundo, uma portinha lateral pela qual passava uma réstia de luz; como não havia ninguém, decidiu averiguar. A porta dava para um belo jardim, oculto da curiosidade externa pelos muros altos que o contornavam. A brisa da tarde espalhava um cheiro bom de flores e terra enquanto ele seguia o caminho riscado no solo, ladeado pelas plantas e árvores, até chegar a uma clareira com uma pequena fonte ao centro, onde bancos de pedra, estrategicamente dispostos à sombra acolhedora, convidavam ao descanso. Por que não? – pensou, já escolhendo o melhor lugar para continuar desfrutando daquela inesperada beleza.

O lugar era realmente magnífico. Parecia desenhado para permitir a quem quer que lá estivesse que se sentisse transportado para uma outra dimensão de espaço e tempo. O vento brincando nos ramos, a luz bailando em borboletas e contrastes, o som da queda d’água casado com o distante pipilar de pássaros invisíveis, o odor suave e relaxante que agradava às narinas – tudo acontecia devagar, como se deliberadamente orquestrado para que pudesse ser apreendido minuciosamente pelos sentidos.

Não saberia dizer quanto tempo ficara ali, mas, ao olhar de repente o braço direito, surpreendeu-se: a mão repousava, quieta, sobre as coxas, tal como a outra. Ergueu-a, movimentou-lhe os dedos, girou o pulso, fez o percurso do indicador ao nariz, e ela obedeceu aos seus comandos; nada de resistência, rotação dentada ou tremor, como a tinha visto fazer no consultório médico. Levantou-se, andou, fez mais alguns testes de movimentos com os braços, que agora respondiam identicamente e, ainda completamente atônito, constatou: sua mão estava perfeita, como antes!

Tornou a sentar-se, vasculhando a mente em busca de alguma explicação plausível: aquilo não podia ser! Mas as horas passaram e a mão continuava funcionando sem qualquer defeito. O jardim tinha se colorido com tons intensos de laranja e amarelo, anunciando o vindouro cair da tarde. Só aí lhe ocorreu uma possível razão: talvez fosse aquele lugar! Entretanto, ele não poderia ficar ali indefinidamente; precisava retornar ao lar, mas, e se o encanto passasse quando deixasse aquele arremedo de paraíso?

Decidido a viver um dia de cada vez, aprumou-se e tomou o caminho de volta pela aleia vazia. Não faz mal, se acontecer, sempre posso vir aqui novamente – disse para si mesmo no limiar do portão, enquanto punha, resoluto, o pé para fora.


(Conto vencedor lido em 06.02.18 (terça-feira) no Clube da Leitura, realizado na Casa Rio)

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Fascinada pelos ecos da linguagem escrita, Carmen Belmont lê e escreve desde que se entende por gente; tudo o mais é adendo. "A palavra/ alva/ alvará da imaginação". (Imagem: @cdbelmont in PicsArt)




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