segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Nunca Nos Separamos do Primeiro Amor, por Marguerite Duras

Nunca Nos Separamos do Primeiro Amor Já o disse em Hiroshima Mon Amour: o que conta não é a manifestação do desejo, da tentativa amorosa. O que conta é o inferno da história única. Nada a substitui, nem uma segunda história. Nem a mentira. Nada. Quanto mais a provocamos, mais ela foge. Amar é amar alguém. Não há um múltiplo da vida que possa ser vivido. Todas as primeiras histórias de amor se quebram e depois é essa história que transportamos para as outras histórias. Quando se viveu um amor com alguém, fica-se marcado para sempre e depois transporta-se essa história de pessoa a pessoa. Nunca nos separamos dele. Não podemos evitar a unicidade, a fidelidade, como se fôssemos, só nós, o nosso próprio cosmo. Amar toda a gente, como proclamam algumas pessoas e os cristãos, é embuste. Essas coisas não passam de mentiras. Só se ama uma pessoa de cada vez. Nunca duas ao mesmo tempo. Marguerite Duras, in "Mundo Exterior "

Mote para o encontro de 07/02/2017, lido por Walter Macedo


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O desejo dos vivos, por José Fontenele

Com afinco decidi ser santo. Interpelei o padre após a missa sobre qual escada tomar à santidade e ele sorriu da minha meninine. Disse que cometia engano por achar que uma lista de tarefas definia a santificação. Era preciso mais. Era preciso ultrapassar a linha dos homens, esta ainda invisível aos meus treze anos. Quando perguntei o que era isso o padre riu e deitou a mão nos meus cabelos ralos tomando-me inocente com vontades sem solução.
Após a missa notava a vila unânime em pesares. Todos saíam silenciosos e mesmo com roupas de domingo não se escutava qualquer elogio. A Margarida me alcançava enquanto eu seguia para casa e me dizia que logo cresceríamos o bastante para nos casarmos; ela fez um coração na praia com os nossos nomes dentro e deixara um traço incompleto no desenho para que eu entrasse e se fixasse por inteiro naquela vontade. Eu respondi que não. Buscava ser santo e por isso não a protegeria na integridade daquele amor. Me interessava outro amor, um sentimento comunitário que diminuísse o sofrimento daquelas pessoas condenadas que assomavam à nossa vila. Disse a ela que era preciso mostrar alguma esperança àquelas pessoas e que se ninguém o fazia por achar fardo pesado demais aos compromissos adultos, eu acolheria a tarefa sem fraquejar. Ela me respondeu que se fosse por isso também queria ser santa, e eu ri. Pus a mão em seus cabelos encaracolados de sol e disse que ela não sabia o que estava pedindo; que isso de ser santo não era uma escolha repentina e despreparada. Contei-lhe o destino dos santificados, contei-lhe das provas no corpo, dos inimigos que surgem querendo sangue, e finalmente contei-lhe do diabo a espreitar pelos olhos alheios, do diabo a criar armadilhas para maltratar o corpo e o espírito dos destinados a santos. Tão logo ia contar mais, Margarida chorou. Tirou-me por mentiroso, mandrião, falaciador. Me segurei para não bater nela. Segundos depois disse que me tratando dessa forma ela também é uma armadilha do inferno. Ela chorou mais. Entre as lágrimas e soluços não entendi se me xingava ou me tirava o amor. Respondi que não iria mais a escola, pois deveres de quase-santos consomem o dia inteiro em rezas e doações a comunidade. Por fim aconselhei que ela deveria encontrar outra pessoa que caiba no coração desenhado na areia, e assim ela se foi.
Não contei à minha mãe o desejo de ser santo porque queria surpreendê-la quando conseguisse a santificação. Amanheci a segunda e esperei o Jerônimo para irmos a escola, mas tão logo ela me viu com ele tomando a trilha para as aulas da dona Ermecinda, atalhei por outros cantos e fui ao único posto de saúde da vila. Lá tratei de contar a dona Lucrécia, a enfermeira sexagenária que nos atendia, que eu buscava a santidade e por isso dispunha a minha reza aos casos mais irrecuperáveis da terra. Ela sorriu tonta e por alguns momentos imaginei que a pouca audição dela dificultaria meu objetivo ali. Mais tarde Dona Lucrécia desatou conselhos inúteis; disse que deveria frequentar a aula, que deveria ouvir mais e falar menos, e que crianças no meio das doenças são atacados pelas chagas dos outros. Respondi que conhecia os perigos da estrada, mas que não renegaria minha santidade por conta de simples maldições. E como ela demorava a me responder, pois não enxergava as palavras como nós que temos bons ouvidos, chegou um homem velho debilitado de todo o corpo para quase-morrer, pois morrer eu não o deixaria. A família trouxe o velho como quem já cortejasse a morte presente; a filha derramava litros de desespero, dizia que o pai sentia uma dor incomensurável nas entranhas como se nascessem árvores nos intestinos. A mulher do velho tinha um terço agarrado às mãos e já usava um chale negro cobrindo a cabeça. Dona Lucrécia agia como surda, pois perguntavam-na muitas coisas e ela não respondia nada. Em vez disso, a nossa única enfermeira maquinalmente abria um leito do posto e tratava de conferir agulhas e remédios com propósitos diversos ao quase-morto.

O corpo do velho afundou de tão magro ao cair na cama; os membros vinham encarnados como se fossem chupados por animais invisíveis que não deixavam marcas de dentes. O rosto era toda uma ameixa seca chupada centenas de vezes. Confesso que me aterrorizei com aquela debilidade, mas logo encontrei um crucifixo acima da cama e me reestabeleci. Com Deus e eu ali não era possível que ele morresse. Peguei o terço presente de minha avó e ajoelhei ao lado do moribundo. A família do quase-morto então me percebeu e passou a fazer perguntas. À moda de dona Lucrécia, nada respondi. Procurei a mão do doente, agarrei-a e passei a rezar mais forte. Pedi aos anjos e santos que me ajudassem na caminhada divina concedendo um pequeno milagre: a saúde do quase-morto. Anjos e santos param chacinas, intercedem na ressureição de moribundos, por que não me deixariam pelo menos aquele velho vivo? Senti a presença divina na minha oração e mesmo com os olhos fechados conseguia ver luzes abrilhantando o corpo do doente. Resolvi levantar as pálpebras e enxerguei o espírito do velho sorrindo satisfeito, embora morto. Fraquejei por não o salvar o corpo dele, mas pelo menos garanti a segurança do espírito na morte. “Morreu? O desgraçado morreu? Tomara que o capeta se encarregue dele.” Após dizer isso, a mulher do velho cuspiu no corpo moribundo e saiu da sala.

José Fontenele é Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina. Trabalha em uma Agência Literária. Escreve prosas e críticas para alguns sites de Literatura.


Conto Vencedor do encontro de 24/01/2017



  

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

As Cidades Invisíveis, por Italo Calvino

- O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.

(Mote vencedor lido por Gabriel Cerqueira no encontro de 06/12/2016)


Filho de pais italianos, Italo Calvino nasceu em Santiago de Las Vegas, Cuba, em 1923. Já em sua juventude, abandonou a graduação em Agronomia pela Universidade de Turim para lutar na Resistência Italiana e foi membro do Partido Comunista Italiano. É conhecido pelos livros O Barão nas Árvores (1957), O Cavaleiro Inexistente (1959), As Cidades Invisíveis (1972), entre outros, e é considerado um dos maiores escritores italianos do século XX. Faleceu em Siena, Itália, em 1985.

Do Alto, por Gabriel Cerqueira



O azul do céu parece um mar invertido que se cansara da Terra e decidiu fugir para o paraíso. Lá e cá ele é pontilhado pelos passarinhos que vem e vão semeando seus cantos por onde passam, bailando e brincando. A paisagem revela o verde das plantas que vai até o horizonte, sendo cortado apenas pelo ocre das estradas de terra, pelo branco das casas e pelas mais diversas cores de flores nos campos e das frutas que caíram maduras no chão.

Ana e Miguel caminham por uma dessas estradas. Suas peles são douradas, seus sorrisos são alvos. Peles de Sol, sorrisos de Lua. Eclipses, ambos são noite e dia. A conversa animada dita o passo tranquilo no ritmo da cidade do santo. Eles caminham descalços para sentir a terra úmida e tudo o que ela tem a dizer em seu idioma a nós oculto.
Um cachorro late, fingindo-se de feroz, em frente a uma casa antiga e simples com uma cerca de bambu. Miguel se abaixa e sorri, assobia e estala os dedos. O cãozinho se aproxima e lambe uma das mãos do novo amigo e recebe carinho; de imponente sentinela a terno anjo. Criatura plena em sua felicidade, o cão deita esperando um afago na barriga enquanto sua cauda se agita e sua língua pende da boca. Ana também sorri e junto de Miguel brincam com o cãozinho.

Dona Maria aparece na porta, surpreendida pela festa repentina que acontece na frente da sua casa. Sua pele é escura como ébano e marcada com as cicatrizes do tempo, seu sorriso é amável e seu olhar, infantil e curioso. Na cabeça o lenço esconde seus cabelos presos em coque. Ela convida Ana e Miguel para tomarem uma xícara de chá e eles aceitam.

A cozinha de Dona Maria tem diversos ramos de ervas e plantas curativas com os mais diversos aromas. Tem arruda, alfazema, alecrim, erva-cidreira, arnica e tantas outras. Na janela há vasinhos com margaridas e violetas. Dona Maria serve o chá de cravo, hortelã e gengibre em canecas de alumínio e começa a contar histórias para passar o tempo. Ela conta que um ermitão morava numa caverna da região e que costumavam chama-lo de Zé do Mato. Zé do Mato dizia conhecer o Saci, Curupira, Mãe d’Água, Comadre Fulozinha – “Tudo gente muito da boa”, ele falava dando seu sorriso banguela - e que os ajudava a manter os “espríritus” ruins longe da cidade. Zé sumiu, mas dizem que ele ainda habita na mata; de vez em quando alguém vê o vulto de um velho homem correndo pelas árvores enquanto dá risada – e desde então ninguém mais ouviu falar de aparição do Corpo-Seco na região. Dona Maria também mostrou as plantas que poderiam ajudar contra o mau-olhado, dor na barriga, de cabeça, e até medo de altura, antes de se despedir de Ana e Miguel.

No caminho de volta para casa o céu está branco e Ana encontra uma jabuticabeira carregada. Ela pega uma das frutas e a come, e o sabor doce percorre toda sua boca. Miguel enche os bolsos de jabuticabas e também come algumas. Os galhos de algumas árvores de ambos os lados da estrada se entrelaçaram no alto, formando um túnel de folhas, galhos e ninhos. Uma das árvores está cheia de flores vermelhas. Miguel alcança uma delas e a coloca no cabelo de Ana, que sorri. Mais lá para cima uma trovoada ressoa e começa a chover. Um segura a mão do outro e os dois começam a correr.

Chegando em casa, molhados e respingados de lama, Miguel e Ana gargalham enquanto desabam na varanda. Eles arfam por causa da corrida e da alegria que os contagia. Pelos corredores branco e azul pairam no ar o cheiro de café, broa e bolo de laranja, pão recém-saído do forno e geleia de acerola. Ah, Cadu esteve com eles esse tempo todo. Ficou calado, concentrado, observando e capturando tudo com as lentes de seus olhos de águia.

Parece que Deus, atarefado como só ele, esbarrou num pedaço do céu que acabou caindo na Terra bem em cima daquela cidade, da cidade do santo.
E a vida é simples e bela.

(Conto lido no encontro de 06/12/2016) 

Gabriel Cerqueira não faz a menor ideia de quem ele é.