terça-feira, 25 de outubro de 2016

Só Garotos, por Patty Smith

 No ano seguinte, meu pai nos levou para uma rara excursão ao Museu de Arte de Filadélfia. Meus pais trabalhavam duro, e levar quatro crianças de ônibus até Filadélfia era algo exaustivo e caro. Foi o único passeio que fizemos com a família toda, marcando a primeira vez em que fiquei cara a cara com a arte. Senti uma espécie de identificação física com os esguios e lânguidos Modigliani; fiquei comovida com os temas elegantes e tranquilos de Sargent e Thomas Eakins; ofuscada com a luz que emanava dos impressionistas. Mas foram as obras de uma sala dedicada a Picasso, dos arlequins ao cubismo, que me penetraram mais fundo. Sua confiança brutal me deixou sem fôlego.
Meu pai admirou o virtuosismo do desenho e o simbolismo das obras de Salvador Dalí, mas não viu nenhum mérito em Picasso, o que levou à nossa primeira desavença séria. Minha mãe ficou ocupada cercando meus irmãos, que deslizavam pelo piso liso de mármore. Tenho certeza de que, enquanto descíamos a grande escadaria, eu parecia ser a mesma de sempre, uma menina embasbacada de doze anos, toda braços e pernas. Mas secretamente eu sabia que havia sido transformada, comovida pela revelação de que os seres humanos criavam arte, de que ser artista era ver o que os outros não conseguiam ver.

(Mote lido do Marcio Couto para o encontro de 01/11/2016)







sábado, 22 de outubro de 2016

Trump e seu trompete, de Fernando Andrade

Trump morava numa pocilga perto Da rua do Lavradio, cujo nome do lugar lembrava algo que coça bastante. Hotel Pulga. O nome do dono era Homero Pulga Jacinto. Todo dia ao subir as escadas Trump via a palavra do nome da rua rabiscada no corrimão da escada. Lavradio.
Tinha alguma mania por palavras rabiscadas, depois claro das palavras cruzadas.
Alguém, talvez algum vizinho tinha colocado à faca, talhado na madeira do corrimão a seguinte mensagem talvez a ele que saía de noite para tocar.
Lavra o seu trompete. Rá Rá Rá.
Trump tocava no quarto. Ele na verdade ensaiava para o show depois da meia noite num Night show ali perto da rua do Livramento. Ele trump, gostava muito do seu trompete. Tocava com a boca igualzinha do Miles Davis. Ele tinha por hábito tocar em surdina porque achava que o som do instrumento era lascivo. O hotel era mal afamado, com uma clientela perdida num filme a lá David Lynch. Ele não queria fazer trilha nenhuma para qualquer tipo de trama a ser implantada naqueles corredores mal iluminados e que por penúria só tinha um banheiro comunitário. Já diziam seus colegas músicos que tocavam com ele, Trompete é coisa demoníaca. Parece um vagido saído de uma tristeza dodecafônica.
Trump um dia-noite estava na sua poltrona com o seu trompete num banquinho, repousado, quando ouviu um urgido ou talvez um mugido como se houvessem colocado ali um boi no hotel pulga. Ele saiu do quarto e olhou idoneamente para os dois lados do corredor. O som do mugido parecia que vinha do apartamento do seu Homero. Ele já com certa lassidão resolveu subir as escadas que levavam ao último andar. Chegou bem perto e resolveu voltar e trazer seu trompete. Aquilo parecia vir de um (a) trompeta. Ou uma corneta. Do tipo que se toca em estádios de futebol. Já era quase meia noite. O show era pontual como uma pulga que radiografa um palco e suas coceiras. Dali começou um solo de jazz a lá Davis com Marcus Miller, alegro ma non tropo. Aquilo parecia um tanto flamenco. Homero abriu a porta e perguntou o que o senhor está fazendo aqui? Trump. Eu vi ou melhor ouvi um ruído vindo daqui? Sim, ouviu, é minha esposa. E o que ela está fazendo? Pegando folego ou resfolegando. E Trump, pesaroso, não sabia onde enfiar o seu trompete. Vou lavradiar essa noite na sua conta. Seu estropício!
Trump saiu para o seu Night show.
Trompeta - Significado: Indivíduo desprezível, velhaco, sem préstimo.
Indivíduo que acaba com o prazer do outro, desmancha prazeres.

Trompete – significado: É um instrumento musical da família dos metais que se caracteriza por instrumento de bocal e feito de metal. Usado em diversos gêneros musicais principalmente o jazz e o clássico.

Trump – Indivíduo falastrão que curte bisbilhotar a vida alheia.

(Conto lido no encontro de 18/10/2016)


Fernando Andrade, 48 anos é jornalista. e poeta.trabalhou por 10 anos como livreiro.  Foi auxiliar de acervo na Biblioteca parque. Colabora com resenhas de cinema literatura e musica para site Ambrosia. Tem dois livros publicados de poesia pela editora oito e meio: Lacan por Câmeras Cinematográficas  e Poemometria. Participa do Clube da leitura tendo um conto na coletânea volume 3.


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A vida secreta dos ácaros, de Poliana Paiva

Minha irmã me denunciou prum programa de tv a cabo que denuncia pessoas que, segundo a opinião deles, são acumuladoras, ou seja, pessoas que, segundo a definição deles, possuem mais coisas do que necessitam. Aí eu pergunto: quem são essas pessoas que acham que sabem o tanto que as outras devem possuir? Qual o problema de eu ter um quarto só pros meus discos de vinil? E outro só pras fitas de vídeo? E daí que hoje em dia tem tudo em mp3, no netflix ou na nuvem? E se a nuvem e a internet e todas essas mídias pouco palpáveis um dia sumirem do mapa, quem vai poder ouvir 'the dark side of the moon' tranquilona? Quem, meus caros? O pessoal da tv a cabo é que não vai ser!

Quando minha irmã soube que eu fiquei indignada com o que ela chamou de convite mas que na minha terra se chama coersão, ela ficou perplexa. Disse que era uma chance em mil ser escolhida prum programa como aquele, que era por isso que eu estava encalhada, que homem nenhum aguenta aquela quantidade de ácaro no ambiente e que isso e aquilo e aquilo outro. Teve uma hora que eu coloquei o celular no viva voz e fui cozinhar. Cozinhar me acalma, me deixa solta. Tem gente que fuma maconha, não tem? Eu cozinho. Cada um com seu cada qual, tudo certo. Menos pra minha irmã, naturalmente. Pra ela nada é tão certo assim. Outro dia reclamou de eu ter 20 caixas de 50 unidades de sabão em pó dentro do meu quarto. A criatura é funcionária pública e não entende as agruras do freelancer. O freelancer não pode ver uma promoção, ainda mais se for de itens não perecíveis. Compro tudo, não nego, pago no débito. Pensa que minha irmã entende isso? Nada. Só quer saber de falar no meu ouvido. Outro dia disse que meu guarda roupa era irreal. Ela me vem com um tênis fluorescente e uma meia até o joelho por cima de uma legging me dizer isso? De onde ela tirou tanta audácia? E daí que eu tenho vestidos que não me servem há 20 anos? Quem garante que eu nunca mais vou emagrecer? Já olhou minha despensa pra ver quantas caixas de diet shake com validade prolongada tem lá? Não olhou. E, sinceramente, nem quero que olhe, vai ser mais um motivo pra me chamar de acumuladora.

Agora a mania mais nova dela é querer que eu troque meu colchão. Um colchão onde eu perdi minhas duas virgindades, um colchão que abrigou surubas de gente que já foi famosa e que hoje só faz programa de denúncia a supostos acumuladores na tv a cabo. Um colchão épico. E daí que microorganismos moram nele? Prefiro microorganismo a gente chata. Gente que não tem mais o que fazer do que prestar atenção nos hábitos dos outros. Gente que acha que tudo tem que postar no facebook. Gente que recicla lixo mas acumula pensamento negativo. Gente que fala gratidão e que não toma mel porque o mel incorre em sacrifício animal. Gente cansativa. Prefiro gente que vem aqui em casa e, mesmo reclamando que na hora de dormir não dá pra esticar os pés sem bater nas caixas de sabão em pó, comparece direitinho no meu colchão. Gente que não reclama de comer pão de forma que tava na promoção com mel de abelha. Gente que não me irrita. Pensando bem, é até melhor que minha irmã não saiba o que os ácaros da minha cama têm pra contar. Eu ia ter de ouvir um rosário sobre doenças sexualmente transmissíveis e casos de estupro a mulheres que moram sozinhas e dão a esmo.

Agora, sem brincadeira, esse papo todo me deu uma espécie de epifania. Para aqui pra refletir comigo: quem sabe essa não é uma boa ideia prum programa?

A vida secreta dos ácaros.

Taí. Vou ligar pra minha irmã agora pra ver se ela dá essa ideia pra moça que ela conhece que trabalha na tv a cabo. Se rolar mesmo uma produção dessas, super topo dar uma entrevista. Mas com uma condição: que a equipe venha sem celular, que nasci na década de 70 e não tenho mais colágeno nem cabelo ao vento pra ir parar no insta de gente jovem reunida. Gente que no lugar da parede da memória, tem o snap do esquecimento.

Gente que eu, sob o olhar de meus vinis e minhas vhs, respeito, mas não entendo.

(Conto vencedor do encontro de 18/10/2016)

Poliana Paiva é formada em Cinema pela UFF e em Teatro pela CAL. Roteirista e atriz, já fez programas de auditório, de revista e de ficção, além de ter escrito e dirigido 4 curtas. Tem um canal no Youtube 'Tudo sobre Jasmine', onde escreve, atua e dirige. Há alguns meses, vem fazendo participações em esquetes do Porta dos Fundos.


sábado, 8 de outubro de 2016

Herzog, por Saul Bellow

 Se estou louco, tudo bem para mim, pensou Moses Herzog.
Algumas pessoas achavam que ele não estava regulando bem e por um tempo ele mesmo tinha questionado a sanidade. Mas agora, embora continuasse se comportando estranhamente, sentia-se confiante, animado, clarividente, forte. Em estado de graça, estava escrevendo cartas para todo mundo sob o sol. Estava tão agitado por essas cartas que, desde o final de junho, ia de um lugar para o outro com uma valise cheia de papéis. Tinha carregado essa valise de Nova York a Martha’s Vineyard, mas voltara de Vineyard imediatamente; dois dias depois voou para Chicago, e de Chicago foi para um vilarejo no oeste de Massachusetts. Escondido no campo, escreveu incessantemente, fanaticamente, aos jornais, a pessoas na vida pública, a amigos e parentes e, por último, para os mortos, para seus próprios mortos obscuros e finalmente para os mortos famosos.
Era o auge do verão nos Berkshires. Herzog estava sozinho no velho casarão. Normalmente cheio de caprichos em matéria de comida, agora ele comia pão de fôrma Silvercup, feijão enlatado e queijo americano. De quando em quando colhia framboesas no jardim coberto de mato, erguendo os ramos espinhentos sem muito cuidado. Quanto ao sono, dormia num colchão sem lençóis — era sua cama de casal abandonada — ou na rede, coberto por seu casaco. Capim barba-de-bode bem alto e mudas de alfarrobeira e de bordo se espalhavam pelo terreno em volta. Quando abria os olhos à noite, as estrelas estavam próximas como corpos espirituais. Fogos, evidentemente; gases — minerais, calor, átomos, mas eloquentes às cinco da manhã para um homem numa rede, enrolado em seu casaco.
Quando algum novo pensamento se apossava do seu coração, ele ia para a cozinha, seu quartel-general, para passá-lo para o papel. A tinta branca das paredes de tijolo estava descascando e Herzog às vezes limpava cocô de camundongo de cima da mesa com a manga da camisa, perguntando-se calmamente por que motivo os camundongos tinham tamanha paixão por cera e parafina. Eles faziam buracos nas compotas lacradas com parafina; roíam até o pavio as velas de aniversário. Um rato cavou um túnel num pacote de pão de fôrma, deixando um molde do seu corpo nas fatias. Herzog comeu a metade que sobrou, lambuzada de geleia. Era capaz de compartilhar com os ratos também.

Enquanto isso, um canto da sua mente permanecia aberto ao mundo exterior. Ouvia os corvos pela manhã. Seus gritos estridentes eram deliciosos. Ouvia os tordos ao anoitecer. À noite havia uma coruja. Ao caminhar pelo jardim, excitado por uma carta mental, via rosas se enroscando na calha de chuva; ou amoras — os pássaros se fartando na amoreira. Os dias eram quentes, as noites afogueadas e poeirentas. Ele olhava para tudo com vista apurada, mas se sentia meio cego.

(mote vencedor lido por Marcio Couto no encontro de 04/10/2016)


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

CARTA ABERTA A ANDREA, por Poliana Paiva

Estudamos juntas e juntas fomos aos shows do Menudo do Tremendo da Blitz do Tim Maia. Pedíamos mão de pipoca no circo voador porque não tínhamos grana pra nenhuma guloseima. Tudo que não fosse a cervejinha - pésima, diga-se de passagem, mas que naquela época descia maravilhosamente bem, afinal, era cerveja - para nós era superfluo.

A vida foi nos separando naturalmente, cada uma prum canto. Não tinha facebook, celular, bipe nem nada, só tinha mesmo o obsoleto aparelho fixo, hoje responsável somente por telefonemas para os mais idosos, ligações de bandidos afirmando estar de posse de sua filha e telemarketing de quinta categoria. Mas, há 25 anos, o telefone era particularmente importante, pois foi justamente através dele que eu soube como você, minha querida Andrea, a quem não via há um ano, estava passando. Cheguei em casa depois da aula de jazz - por jazz, leia-se dança praticada com polainas, collants cavados e sapatilhas, quase sempre ao som de Frankie goes to Hollywood - e vi um bilhetinho que informava que você estava muito doente e que bom seria se eu fosse te ver logo. Sua mãe deixou o recado. Não dormi a porra da noite toda. Você durou quatro meses e, em todo esse tempo, fui te visitar duas vezes apenas. Lembro de algumas amigas em comum ligando dizendo que tínhamos pouco tempo pra nos despedir e que não dava pra esperar tanto entre uma visita e outra. Mas eu as enganava - e a mim mesma, naturalmente - dizendo que na semana que vem, depois das provas, eu daria um jeitinho.

Passou-se um ano e recebo outra ligação de sua mãe, a danada tinha encontrado um cartão que você esqueceu de me mandar, datado do natal do ano anterior de sua partida, onde estava escrito: “Por mais que a gente cresça, seremos sempre aquelas meninas comendo sufflair no banco da Praça Afonso Pena, olhando os meninos bonitos que passam.”

Outro dia voltei à Afonso Pena, onde até hoje moram meus pais. Comprei um sufflair e comi em sua homenagem, mas preciso que você saiba, amiga, os meninos bonitos cresceram e você não gostaria de ver no que eles se transformaram. Enquanto comia o sufflair - uma novidade estonteante naquelas priscas eras, lembrei que gostávamos dele porque tinha ar dentro. Ser aerado naquele tempo era uma coisa muito avant garde prum mero chocolate.

Aerado é o que tem ar dentro.

Talvez ali morasse todo o simbolismo de nossa amizade. O vento é feito de ar. A vida é sopro. E foi muito bom nossos sopros terem se cruzado por 21 anos.

Acho que ali me perdoei por não ter ido te ver mais vezes quando estavas partindo.

O perdão mais difícil é da gente com a gente mesmo.

Obrigada, amiga.


PS: Troquei a Praça Afonso Pena pela São Salvador, que, a propósito, está na boca do povo. Mas isso te conto depois.


(Conto vencedor do encontro de 04/10/2016)

Poliana Paiva é formada em Cinema pela UFF e em Teatro pela CAL. Roteirista e atriz, já fez programas de auditório, de revista e de ficção, além de ter escrito e dirigido 4 curtas. Tem um canal no Youtube 'Tudo sobre Jasmine', onde escreve, atua e dirige. Há alguns meses, vem fazendo participações em esquetes do Porta dos Fundos.


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Previsível

Previsível, por Carmen Belmont

Cocoricó. Por incrível que pareça, havia um galo no coração da cidade. Devia ser da loja de aves vivas no pé da ruela que subia o morro. A rouca insistente cantoria começava às quatro da manhã e se estendia até o sol nascer, ah, que vontade de esganar esse galo desgraçado! Mas na impossibilidade de sair de pijama correndo pelas madrugadas, acabou se acostumando ao ruído incômodo. E só se mexia mesmo quando ao som insólito se juntava o do despertador anunciando o dia.

Ela não tinha a menor graça. Ou tinha, mas era cuidadosamente abafada por um jeito de ser comum e previsível. Acordava cedo, arrumava-se sobriamente e ia para aquele escritório, igual a tantos outros, desempenhar suas burocráticas tarefas com a maior correção possível. Era polida, reservada e discreta o suficiente para ter conquistado um lugar no gabinete da diretoria. Não faltava. Não se atrasava. Não se metia na vida alheia. Não ria alto. Não.

Tão certinha por fora. Mas ela sabia, havia uma insanidade à beira de. Como quando naquela vez em que todo mundo foi embora e ela ficou sozinha no escritório. As câmeras estavam sendo trocadas, os olhos de vidro apagados, vazios. Finalmente tinha terminado de cumprir o encargo de enviar por e-mail aquele relatório imprescindível para a reunião de amanhã cedo – ufa! Desligou o computador e arrumou a sua mesa, como sempre fazia. A dela era mais uma no sem fim de fileiras e baias separadas por semidivisórias de vidro, como num aquário, dispostas de um lado e de outro de um corredor principal, cujas luzes de sinalização eram as únicas acesas a essa hora.

Que horas seriam? Dez? Onze? Droga, esqueceu-se de ver no computador antes de apagar. Com a bateria do celular morta e nenhum relógio imediatamente à vista, ficava difícil adivinhar, mas as luzes lá fora atestavam: já era bem tarde. Todos os elevadores estavam desligados, restando apenas um no saguão principal, que ficaria funcionando a noite toda para algum possível workaholic retardatário. Os vigilantes noturnos iriam fazer a ronda no meio da madrugada, para se certificar de que as portas estivessem trancadas e luzes e máquinas desligadas a contento. Mas ainda iria demorar um pouco até que eles aparecessem por ali.

Foi aí que veio aquele pensamento estranho. É, não havia ninguém! O escritório imenso e morto era todinho dela, o que significava que poderia fazer o que bem entendesse naquele momento. Nenhuma ordem para cumprir, ninguém para observar, criticar ou encher o saco. Esse pensamento sacudiu-a com uma excitação travessa, provocando um arrepio deliciosamente suave que percorreu seu corpo. 

Hum...olhou para cima, calculando se os alarmes de incêndio estavam funcionando, será que poderia fumar? Para não arriscar, abriu a janela. Pegou um cigarro do maço escondido na gaveta, sentou-se colocando as pernas sobre a mesa, acendeu o rolinho elegante e deu um longo trago bem devagar, saboreando a brisa que entrava sacudindo levemente as persianas semicerradas. Ficou assim recostada por alguns minutos, fumando e acompanhando a fumaça subir em voltas na penumbra, levada pelo vento em direção à janela. 

Olhou para as suas pernas, achou que ficaram mais bonitas usando aquele belo sapato de salto. Olhou para a sala espaçosa do chefe, a única com paredes opacas e banheiro privativo, que estava aberta, pois não se costumava trancar as portas internas – só se fazia isso com as duas últimas portas de madeira e vidro que davam para o hall do elevador. Levantou-se e foi até o banheiro. Segurando o cigarro entre os lábios, prendeu os cabelos no alto da cabeça e desabotoou a blusa branca, pendurando-a no cabide. Tirou a saia e a lingerie, voltando-se para o espelho aprovadoramente. 

Respirou fundo e pisou resoluta o carpete verde, desfilando com o cigarro nas mãos. Rodopiou nua pelos quatro cantos da sala, como num balé invisível. Uma vez na cadeira do chefe, sacou os sapatos, colocando-os bem em cima daquela pilha importante de documentos, dando risadas. E agora, gostaram?  – disse para os retratos de família que estavam perfeitamente enfileirados em molduras prateadas.

Saiu da sala e assim, alegre e afogueada, foi zanzando entre as mesas e armários, ora cantarolando, ora fazendo caras e bocas, ora trepando nos móveis. Ah, é, de repente lembrou-se daquela perua que a detestava. Procurou o local onde a outra trabalhava e se sentou sobre os papéis, desarrumando toda a mesa da fulana, abrindo bem as pernas: olha isso, tá vendo? Sou bem mais gostosa que você! E então deitou-se languidamente e soltou uma gargalhada histérica até não ter mais fôlego.

No dia seguinte, de manhã, uma bela mulher de vermelho entrou no escritório. Boquiabertos, os colegas a observaram, enquanto ela tomava seu lugar à entrada do gabinete da diretoria.



(Conto lido em 04.10.16 (terça-feira) no Clube da Leitura, realizado na Casa Rio, um dos premiados em 2o lugar)

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Fascinada pelos ecos da linguagem escrita, Carmen Belmont lê e escreve desde que se entende por gente; tudo o mais é adendo. "A palavra/ alva/ alvará da imaginação". (Imagem: @cdbelmont in PicsArt)