quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Jair, por Poliana Paiva

Muito embora seja filho da união estável de duas mulheres hoje com 65 anos, Jair sempre foi um sensível de fachada, desses que leram Simone, gostam de Mc Carol, aplaudem o protagonismo feminino mas na hora do vamo ver, na hora que o cinto aperta, que a vontade é destra, vão lá e destilam sua condescendência auto-imune.

Jair tem pau grande. E grosso. Dizem as boas línguas que se trata de um pau hábil e expressivo. Um pau democrático. Até a página dois, naturalmente, afinal, uma coisa que Jair nunca assume é sua preferência pelo padrão. Jair beija a loira de barriga negativa no chorinho de domingo de manhã na praça lotada e a mulata gorda nos cantos escuros do baile funk, onde, disfarçado de burguesia folclórica, pode abrir seu coração e ser ele mesmo.

No fundo Jair queria era poder dizer aos quatro ventos que mulher, se não tivesse boceta, ele não dava nem bom dia. Mas isso pegaria muito mal e faria com que ele passasse aperto com as intelectuais que gosta de seduzir e que, ou serão por ele comidas, ou lhe apresentarão alguma nova gatinha gratidão-mantra da lua-oficina de bambolê.

Para caras como Jair, não importa o que se sente. Importa o que se pensa que se sente. E o que se mostra. E o que se posta no face, no insta, no twitter e no snap. Jair vive de imagem. Jair pensa que é scanner.

Resta saber o quão pobre ficará Jair na hora exata que sua bundinha jiu-jitsu cair.

(Conto lido no encontro de 20/09/2016)

Poliana Paiva é formada em Cinema pela UFF e em Teatro pela CAL. Roteirista e atriz, já fez programas de auditório, de revista e de ficção, além de ter escrito e dirigido 4 curtas. Tem um canal no Youtube 'Tudo sobre Jasmine', onde escreve, atua e dirige. Há alguns meses, vem fazendo participações em esquetes do Porta dos Fundos.



terça-feira, 27 de setembro de 2016

Mote do encontro (04/10/ 16)



Mote lido por Daniel Russell Ribas

Um dia toparei comigo





O telefone tocou às sete da manhã e eu cambaleava do sono que não dormi. Confesso que fiquei satisfeita: a coordenadora da clínica queria me tranquilizar. A tranquilidade significava meu pai converso em vegetal sobre a cama, oxigênio a mil, dedos a necrosar, tosto de cera adivinhando o próximo habitat. Ora desperto, ora adormecido. Sim, a intermitência das coisas brutas e serenas retornara em grau máximo.
Novamente os vivos e os mortos povoavam seu quarto. Ele indicava um ponto na parede e lá residia a escola da infância, onde parentes preparavam seu desenlace. Esta era sua. Desenlace. Mas não era a única palavra a nos vexar. Havia todo um vocabulário misto de invenção e memória, o qual penávamos para decifrar: “hecatombe” não era problema, apenas reflexo de nossa pobreza de linguagem, mas “sorvete de gliche” gerava angústia, pois não havia mais pulmão para nos esclarecer. Aguardávamos entre uma respiração e outra, a busca calma de alguém que sempre soube dominar: uma golfada, o breve armazenamento do ar, o tempo de recuperação do cérebro para organizar ideias e conter o fôlego que lhe resta, e tudo precisava ser rápido, pois em segundos a máquina-homem necessitaria novamente de outra golfada e mais outra, e nesse intervalo mínimo teria de encontrar as palavras certas para explicar o que talvez fosse demasiado simples, sorvete de gliche é assim: gliche, morango e gliche.
Era nítido. A melhora passara e, desse momento em diante, restou a agonia da espera. A espera daquilo que aguardávamos há meses.
A enfermeira, ao telefone, repetiu a missa, com a constância de quem mantém uma clínica de viver e morrer idosos: pode ser hoje ou amanhã, ou quarta-feira o mais tardar.
Saí de casa imediatamente, atabalhoada, corri o mais que pude para tomar sua mão e dizer-lhe, se ainda era tempo, não eu não estava segura de nada, muito menos de ter jogado o remédio contra câncer no lixo, de ter gritado àquele médico bufão que eu bancaria a eutanásia de meu pai.
Foi ele, o médico, quem disse essa palavra pela primeira vez. Eutanásia. Eu sabia o que significava. E não era aquilo. Não era bem aquilo. Mas quem conhece o significado das palavras todas?


FÁBRIO, Paula. Um dia toparei comigo. Rio de Janeiro: Editora Foz, 1ª edição, 2015.




Paula Fábrio nasceu em 1970. É mestre e doutoranda em Literatura pela Universidade de São Paulo. Desnorteio [Ed. Patuá], seu primeiro romance, foi Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2013, na categoria estreante. Seu novo livro, Um dia toparei comigo (Foz), é finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2016 e recebeu a bolsa de criação ProAC - Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Se Deus quiser

Se Deus quiser, por Carmen Belmont


“Se Deus quiser, um dia eu quero ser índio.”
Rita Lee, in ‘Baila comigo’.


Ele não era um sujeito muito eloquente, mas isso nunca tinha sido um problema perto dos outros tantos na sua vida de menino de periferia. O que lhe faltava em palavras sobrava em resistência: crescera, como todo garoto nessa condição, apesar da pobreza, do descaso e devidamente vacinado contra as adversidades. Mal completara os estudos básicos, porque desde cedo já trabalhava para ganhar uns trocados e ajudar a mãe a alimentar as três bocas que o pai bêbado abandonara ainda pequenos. Mas tinha fé e era calmo e tenaz, de modo que não sofria pelo passado nem reclamava do presente. Quanto ao futuro, tentava fazer a sua parte para que fosse melhor, se Deus quiser.

Tinha encontrado Nícia em uma festa junina, uma daquelas em que ele fora mais por insistência dos amigos do que por outra coisa. Tá certo, também aceitara ir porque sabia que poderia ficar em paz vendo o vaivém das garotas sem ser incomodado, já que todo mundo logo se desgarrara da turma para se ocupar em conseguir alguma atenção feminina. Ele sabia dançar, mas não tinha a menor pressa. Comprara uma cerveja e arranjara uma posição estratégica para observar o salão enfeitado e borbulhante de pares coloridos, que rodopiavam ao som do ritmo contagiante do sanfoneiro e sua trupe musical.

Estava assim absorto em sua contemplação há uns minutos – ou seriam horas? – quando ela apareceu. Sozinha, vestida de branco  – será que ia participar do casamento na roça? Não, não podia ser a noiva – pensou –, pois acabara de ver os consortes da noite entre os dançarinos na quadra. Ela parou a poucos passos de onde ele estava e ficou olhando a festa como se procurasse alguém, mas não parecia aflita para achar quem quer que fosse. Ao contrário, alguns segundos depois deu de ombros e se aproximou do bar.

– Um refrigerante, por favor – pediu, entregando a ficha que tirou da pequena bolsa branca bordada de pontinhos minúsculos que pareciam ser flores. Pegou a bebida servida no copo descartável com a mão fina e levou-a aos lábios rubros, caprichosamente desenhados com batom. O gesto delicado contrastava com sua beleza enérgica, de olhos escuros e cílios espessos brilhando na tez morena. O vestido alvo destacava a silhueta generosa e as pernas bem torneadas. Uma única flor vermelha sustentava os cabelos castanhos displicentemente presos acima da orelha direita.

Aparentemente alheia à presença dele, ela parou a seu lado e foi percorrendo o salão em semicírculo com o olhar. Devagar, finalmente encontrou os olhos dele e, sorrindo, divertida, indagou:

– Tá gostando?

– Tô sim, e você?

Daí não se largaram mais o resto da noite, nem nas semanas seguintes, que se transformaram em meses, anos, um casamento e um casal de filhos. E também em muita luta para sobreviver numa casinha apertada e simples, perto dos sogros, para eles poderem ajudar com as crianças, senão não dava para gerenciar um lar, cuidar da mãe, apoiar os irmãos, trabalhar e ser arrimo de família – tudo de uma vez e ao mesmo tempo –, mesmo se Deus quisesse.

A esposa não tinha um trabalho formal, mas ajudava nas despesas costurando e vendendo cosméticos de catálogo. Ele agora dirigia um táxi, única alternativa restante depois de ter sido demitido do seu último emprego de carteira assinada. A muito custo conseguira juntar umas migalhas para pagar o primeiro aluguel do carro que, aliás, era uma salgada taxa semanal, a qual ele tinha que se virar para cobrir antes de fazer a sua féria. Com a crise, não estava fácil pra ninguém, então ele se ausentava para trabalhar sempre que podia, sacrificando suas horas com a família, não havia outro jeito. Mas como não era homem de se queixar, fazia o que tinha que fazer, confiando no que o destino – ou Deus – tinha reservado para ele.

Em uma dessas tardes no meio da semana, circulava pelo bairro da zona norte no qual mais costumava dar sorte para arranjar passageiros. Hoje o dia estava fraco, mas ele não desistia de passar e repassar pelas ruas na esperança de conseguir alguma coisa. Decidiu pegar a pista marginal da via principal, quem sabe? Foi quando avistou um homem, atarracado e uniformizado, fazendo sinal com o braço defronte de um dos muros altos que ladeavam a avenida.  A maioria dos imóveis por ali era de motéis mais ou menos arrumados, por isso ele não estranhou os trajes meio extravagantes da figura. Ao parar, o homenzinho deu uma batidinha na lateral da porta, pedindo para abaixar o vidro, e em seguida esclareceu:

– Tem um casalzinho aí saindo do hotel, tá a fim de levar?

–  Ôpa, levo sim, vambora! O porteiro baixinho sumiu na portinhola do muro, de onde não demorou muito para surgir um casal, o homem de mãos dadas com a moça. O motorista destravou a porta de trás, eles entraram e se acomodaram, o rapaz atrás do banco dele, a mulher ao lado.

– Boa tarde! Pra onde?

O rapaz tomou a frente: – Boa tarde. Conhece a Penha?

– Claro, moro lá. O interlocutor, em resposta, indicou o local aonde queria ir e o táxi deu a partida.

Do retrovisor, observou que o passageiro voltou-se para a mulher, tentando conversar, porém ela permanecia quieta, mal respondendo em murmúrios monossilábicos inaudíveis. O rapaz insistia, animado, provavelmente sem entender o porquê daquela atitude amuada da companheira depois de uma tarde supostamente prazerosa para ambos. Contudo, a moça não arredou pé do seu inexplicável silêncio durante todo o trajeto.

Chegando ao destino, o veículo parou. O rapaz dispôs-se a pagar, indicando que a moça iria prosseguir. Antes que qualquer dos dois se mexesse, o taxista perguntou de chofre:

– E aí, Nícia, onde tu vai descer?

– Peraí, tu conhece ela? – contestou o surpreso acompanhante.

– Se conheço? Conheço sim. Ou pensava que conhecia, pois até uma hora atrás ela era a minha mulher!

Sem dizer palavra, o homem entregou o dinheiro da corrida e ambos os passageiros – um por cada porta – desceram do carro.

Ele acelerou sem olhar para trás, os olhos marejados, o coração em frangalhos: como Deus queria.

(Conto lido em 06.09.16 (terça-feira) no Clube da Leitura, realizado na Casa Rio)

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Fascinada pelos ecos da linguagem escrita, Carmen Belmont lê e escreve desde que se entende por gente; tudo o mais é adendo. "A palavra/ alva/ alvará da imaginação". (Imagem: @cdbelmont in PicsArt)



domingo, 11 de setembro de 2016

ESTUDO SOBRE O SILÊNCIO NÃO SIGNIFICANTE. SEIS DA TARDE NUMA RUA DO JARDIM BOTÂNICO, por Daniela Ribeiro

Vruuuummmm. Vruuuum. Ha! Ai!!! Hahaha. Um dois, três eeee… já! Posso ir???… Pode!!!
Piu-piu-piu-piu. Bem-te-vi!!!
Popopopopopopopopopopopopopopopopopo, vroummmmmm.
“O menininho entrou aqui me perguntando se ele estava atrasado/ eu perguntei, que horas [e a sua aula? Ele disse, quatro e meia. São seis e dez, hahaha.” “Meu Deus do céu, hahaha.”
Bi-bi. Bi-bi-bi-bi.
"Boa tarde." "Boa tarde.”
"U-hu! Mamãe?”
“Olha a tia Júlia! hahaha.”
“De nada. Mas eu te disse que não precisava nada disso, blablabla…”
Piu. Piu. Piu.
“Hoje tem seleção, hoje. Vamos ver no que vai dar.”
“ Ó, saiu um café agorinha. Vai lá!
Vruuuuuummmm. Vrrruuuuuuummmmm.


(Conto lido no encontro de 06/09/2016 com premiação de segundo lugar)

Daniela Ribeiro é uma relação de forças 


Anatomia do Paraíso, de Beatriz Bracher


Passa no Supermercado, pega o que dá para pagar e entra na fila. Quando se aproxima do caixa, uma moça tenta entrar na sua frente, ela não deixa, a moça diz que já estava lá naquele lugar antes. Vanda diz que não, a moça insiste que sim. A situação é tão absurda que Vanda fica mais espantada do que braba; pensava em outras coisas, inclusive se não deveria voltar às gôndolas e trocar alguns produtos que escolhera por comida mais saudável, por causa do bebê, quando a moça tímida apareceu dizendo que aquele lugar era seu. Primeiro Vanda reage com sua habitual prontidão para defender o que lhe pertence, mas então atina para o inusitado da situação e olha em volta para tentar entender se deixou escapar alguma informação. O homem à sua frente se vira para ela:
Não quero me meter, mas é você que está certa, você estava atrás de mim.
Vanda não sabe por quê, mas não gosta da maneira como ele toma partido. Outras pessoas se manifestam, porém, nitidamente reprovam a atitude da moça que parece ser do interior e mais pobre do que os pobres dali. Vanda está cansada, mora no Rio de janeiro, muito esperto quer passar na frente, sair sem pagar, cobrar o dobro do que vale. Ela trabalhou o dia inteiro, não tem dinheiro, só quer entrar na fila, esperar sua vez, pagar e ir para casa, e vem a mulher, furar a fila na sua frente. Mas a mulher, ainda que tremendo de vergonha, não arreda o pé:
Eu estava aqui, este é meu lugar.
Vanda tem certeza de que a mulher não estava ali, que não é maluca e fala a verdade. Alguns clientes se constrangem e evitam olhar para a cena. Outros se comprazem com o mal-estar, principalmente da moça, que está no seu limite, quase a ponto de chorar, talvez. Vanda pede a ela com um olhar honesto que diga alguma coisa.
Eu não queria ficar atrás dele, por isso saí da fila...
Mas fiquei aqui ao lado. Tava esperando a fila chegar perto do caixa para entrar de novo e pagar.

Ela fala quase sem voz, olhando rápido para o homem na frente de Vanda. Ela intui o que aconteceu e ceder o lugar à moça que entra na frente não agradece, fica de cabeça baixa, atazanada pelo vexame. Vanda tenta se lembrar se a moça tímida realmente esteve o tempo todo ao lado, acompanhando o movimento da fila, esperando se colocar em seu lugar apenas na última hora. Não vai se lembrar, está distraída. Mas imagina que sim. O que o homem terá feito? Se a mulher estivesse na frente dele, ele poderia ter se encostado nela, se esfregado, mas como isso teria acontecido com ela estando atrás dele? Quem sabe uma parada brusca de marcha ré sútil. Ou talvez ela estivesse na frente dele, mas não tenha querido entrar de novo ali, por isso escolheu ficar logo atrás e entrar na fila na última hora. E o filho da puta do homem foi o único a se manifestar, a falar em voz alta contra mulher. Mais um. Que inferno! Mais um”.

Editora 34, 2015

(Mote para o dia 20/10/2016 lido por Fernando Andrade)