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Mostrando postagens de Setembro, 2016

Jair, por Poliana Paiva

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Muito embora seja filho da união estável de duas mulheres hoje com 65 anos, Jair sempre foi um sensível de fachada, desses que leram Simone, gostam de Mc Carol, aplaudem o protagonismo feminino mas na hora do vamo ver, na hora que o cinto aperta, que a vontade é destra, vão lá e destilam sua condescendência auto-imune.
Jair tem pau grande. E grosso. Dizem as boas línguas que se trata de um pau hábil e expressivo. Um pau democrático. Até a página dois, naturalmente, afinal, uma coisa que Jair nunca assume é sua preferência pelo padrão. Jair beija a loira de barriga negativa no chorinho de domingo de manhã na praça lotada e a mulata gorda nos cantos escuros do baile funk, onde, disfarçado de burguesia folclórica, pode abrir seu coração e ser ele mesmo.
No fundo Jair queria era poder dizer aos quatro ventos que mulher, se não tivesse boceta, ele não dava nem bom dia. Mas isso pegaria muito mal e faria com que ele passasse aperto com as intelectuais que gosta de seduzir e que, ou serão por…

Mote do encontro (04/10/ 16)

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Mote lido por Daniel Russell Ribas
Um dia toparei comigo



O telefone tocou às sete da manhã e eu cambaleava do sono que não dormi. Confesso que fiquei satisfeita: a coordenadora da clínica queria me tranquilizar. A tranquilidade significava meu pai converso em vegetal sobre a cama, oxigênio a mil, dedos a necrosar, tosto de cera adivinhando o próximo habitat. Ora desperto, ora adormecido. Sim, a intermitência das coisas brutas e serenas retornara em grau máximo. Novamente os vivos e os mortos povoavam seu quarto. Ele indicava um ponto na parede e lá residia a escola da infância, onde parentes preparavam seu desenlace. Esta era sua. Desenlace. Mas não era a única palavra a nos vexar. Havia todo um vocabulário misto de invenção e memória, o qual penávamos para decifrar: “hecatombe” não era problema, apenas reflexo de nossa pobreza de linguagem, mas “sorvete de gliche” gerava angústia, pois não havia mais pulmão para nos esclarecer. Aguardávamos entre uma respiração e outra, a busca calma de…

Se Deus quiser

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Se Deus quiser, por Carmen Belmont

“Se Deus quiser, um dia eu quero ser índio.” Rita Lee, in ‘Baila comigo’.

Ele não era um sujeito muito eloquente, mas isso nunca tinha sido um problema perto dos outros tantos na sua vida de menino de periferia. O que lhe faltava em palavras sobrava em resistência: crescera, como todo garoto nessa condição, apesar da pobreza, do descaso e devidamente vacinado contra as adversidades. Mal completara os estudos básicos, porque desde cedo já trabalhava para ganhar uns trocados e ajudar a mãe a alimentar as três bocas que o pai bêbado abandonara ainda pequenos. Mas tinha fé e era calmo e tenaz, de modo que não sofria pelo passado nem reclamava do presente. Quanto ao futuro, tentava fazer a sua parte para que fosse melhor, se Deus quiser.
Tinha encontrado Nícia em uma festa junina, uma daquelas em que ele fora mais por insistência dos amigos do que por outra coisa. Tá certo, também aceitara ir porque sabia que poderia ficar em paz vendo o vaivém das garotas se…

ESTUDO SOBRE O SILÊNCIO NÃO SIGNIFICANTE. SEIS DA TARDE NUMA RUA DO JARDIM BOTÂNICO, por Daniela Ribeiro

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Vruuuummmm. Vruuuum. Ha! Ai!!! Hahaha. Um dois, três eeee… já! Posso ir???… Pode!!! Piu-piu-piu-piu. Bem-te-vi!!! Popopopopopopopopopopopopopopopopopo, vroummmmmm. “O menininho entrou aqui me perguntando se ele estava atrasado/ eu perguntei, que horas [e a sua aula? Ele disse, quatro e meia. São seis e dez, hahaha.” “Meu Deus do céu, hahaha.” Bi-bi. Bi-bi-bi-bi. "Boa tarde." "Boa tarde.” "U-hu! Mamãe?” “Olha a tia Júlia! hahaha.” “De nada. Mas eu te disse que não precisava nada disso, blablabla…” Piu. Piu. Piu. “Hoje tem seleção, hoje. Vamos ver no que vai dar.” “ Ó, saiu um café agorinha. Vai lá! Vruuuuuummmm. Vrrruuuuuuummmmm.

(Conto lido no encontro de 06/09/2016 com premiação de segundo lugar)
Daniela Ribeiro é uma relação de forças 

Anatomia do Paraíso, de Beatriz Bracher

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“ Passa no Supermercado, pega o que dá para pagar e entra na fila. Quando se aproxima do caixa, uma moça tenta entrar na sua frente, ela não deixa, a moça diz que já estava lá naquele lugar antes. Vanda diz que não, a moça insiste que sim. A situação é tão absurda que Vanda fica mais espantada do que braba; pensava em outras coisas, inclusive se não deveria voltar às gôndolas e trocar alguns produtos que escolhera por comida mais saudável, por causa do bebê, quando a moça tímida apareceu dizendo que aquele lugar era seu. Primeiro Vanda reage com sua habitual prontidão para defender o que lhe pertence, mas então atina para o inusitado da situação e olha em volta para tentar entender se deixou escapar alguma informação. O homem à sua frente se vira para ela: Não quero me meter, mas é você que está certa, você estava atrás de mim. Vanda não sabe por quê, mas não gosta da maneira como ele toma partido. Outras pessoas se manifestam, porém, nitidamente reprovam a atitude da moça que parece …