terça-feira, 30 de agosto de 2016

As Formas do Silêncio

por Eni Orlandi, mote para o encontro de 06/09/2016

"Se a linguagem implica silêncio, este, por sua vez, é o não-dito visto do interior da linguagem. Não é o nada, não é o vazio sem história. É o silêncio significante. Quando o homem, em sua história, percebeu o silêncio como significação, criou a linguagem para retê-lo. O ato de falar é o de separar, distinguir e, paradoxalmente, vislumbrar o silêncio e evitá-lo. Esse gesto disciplina o significar, pois já é um projeto de sedentarização do sentido. A linguagem estabiliza o movimento dos sentidos. No silêncio, ao contrário, sentido e sujeito se movem largamente. Em suma: quando o homem individualizou (instituiu) o silêncio como algo significativamente discernível, ele estabeleceu o espaço da linguagem."



Eni Puccinelli Orlandi foi docente da USP e professora titular de análise de discurso da Unicamp, onde é atualmente professora colaboradora. É pesquisadora do Laboratório de Estudos Urbanos da Unicamp (Labeurb) e professora e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem da Universidade do Vale do Sapucaí. Tem inúmeros artigos e livros publicados no Brasil e no exterior, dentre os quais As formas do silêncio, Terra à vista, Interpretação, língua e conhecimento linguístico, Análise de discurso: Princípios e procedimentos, A cidade dos sentidos e Língua brasileira.

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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Flor Vermelha

Uma menina estava com raiva. Seus pais a levaram a um museu contra a vontade dela e eles já estavam há duas horas na fila. A menina vestia um vestido vermelho, meia-calça branca, sapatilhas pretas e um casaco do Mickey Mouse tão grande que as mangas cobriam suas mãos. Um laço vermelho fora cuidadosamente amarrado aos seus cabelos castanhos. A menina gostava muito da cor vermelha. Após mais alguns minutos eles puderam entrar no museu.

As portas da exposição foram abertas e primeira pintura a ser contemplada foi uma natureza morta: peras, uvas e maçãs em uma cesta. “Tem uma cesta de frutas na cozinha de casa”, a menina pensou. O próximo quadro era um retrato de uma menina com uma fita verde na cabeça. “Eu poderia ficar na frente de um espelho usando uma fita com uma cor bem mais legal”. Outro quadro era uma representação abstrata de duas pessoas conversando. “Meus desenhos são melhores”.

E assim os minutos foram passando. Durante aquele tempo havia apenas uma coisa divertida: observar a expressão inteligente que os adultos faziam ao observar aquele amontoado de tintas nas telas que, muitas das vezes, não faziam o menor sentido. Mas tudo mudou quando a menina viu uma escada de madeira pintada de branco posta a uma das paredes do primeiro salão daquela exposição e ninguém pareceu notar a presença dela lá. Um homem atravessou a escada e ela se desfez como se fosse uma nuvem, e logo depois voltou à sua forma original. A menina esfregou seus olhos com suas mãos, duvidando do que tinha visto.


De repente, um homem atravessou o teto descendo pela escada. Ele carregava um cavalete e bisnagas de tintas; depois ele colocou os objetos no chão e subiu os degraus da escada até desaparecer no teto. Segundos depois lá estava o homem descendo pelos degraus novamente, desta vez carregando pincéis, um banquinho e telas. Levou todos os objetos ao centro do salão, posicionando-se em frente a um quadro que mostrava um riacho e um bosque. O homem vestia roupas antigas e parecia estar feliz. Ele pegou uma aquarela, que estava presa ao cavalete, e espremeu as bisnagas deixando que as tintas caíssem sobre ela. O homem pegou uma tela e a colocou sobre o cavalete, escolheu cuidadosamente um dos pincéis. Do outro lado do salão o quadro do riacho começou a pingar.
Gota. Gota. Gotas. Fino fio de água. Explosão. Inundação.

Da parede onde estava o quadro surgiu um riacho, folhas, galhos, até mesmo árvores inteiras escaparam da moldura para tomar a parede em que o quadro a momentos antes estava. O homem pareceu satisfeito e pôs-se a pintar. A água não molhava e era de um azul bem claro. A menina se aproximou bem devagar do homem para observá-lo pintar. A cada pincelada dada representando aquela cena inesperada, parte do riacho e do bosque sumia do salão. O pintor capturava a paisagem e a prendia em sua tela. Com pinceladas rápidas e precisas o pintor terminou sua obra. O quadro que ele pintou era exatamente igual ao quadro que estava na exposição e até mesmo a assinatura era idêntica. O homem pegou suas coisas e subiu desajeitadamente pela escada, gargalhando, divertindo-se consigo mesmo devido ser tão desajeitado.

A menina e seus pais foram para o próximo salão. O coração da pequenina batia rápido.

Um homem com cabelos e roupas estranhas corria de um lado para o outro com um pequeno espelho em suas mãos. Ele gritava sobre como estava belo naquele dia e que, se pudesse, casaria consigo mesmo. O doido saltitante era igual ao homem de uma das pinturas que estavam no salão. A menina se aproximou do quadro para tentar ler a plaquinha com as informações; e ela leu, com dificuldade, “Autorretrato”. O pai dela disse “Isso quer dizer que o pintor pintou si mesmo, é ele no quadro. O nome dele é-”. A menina não conseguiu ouvir o nome do pintor porque o próprio gritou de emoção ao pintar uma expressão enigmática em seu olhar; e a menina não conseguiu ler o nome dele na plaquinha. “Aqui diz que ele era um pouco narcisista”, disse a mãe da menina.

O próximo salão foi bem mais agradável. Havia campos floridos, uma mãe ninando seu bebê, uma divertida conversa em um fim de tarde, mas o que mais impressionou a menina foi uma pintora. Ela usava um vestido da cor de champagne, e usava seus cabelos em trança por cima de seu ombro esquerdo. De todos os pintores que ali estavam apenas aquela pintora pareceu notar a menina. A mulher se aproximou da pequenina e disse:

- Está se divertindo?


E a menina balançou a cabeça em afirmação. A pintora sorriu gentilmente e beijou a face da menina e também deu um leve beliscão em sua bochecha. Uma leve luz a fazia brilhar, uma luz parecida com o preguiçoso Sol de uma manhã de outono. Aquela mulher parecia um anjo.

Do outro lado do salão pontinhos em cores berrantes apareceram no ar explodindo que nem pipoca para formar um castelo. Era um tal de pontilhismo convencido que apenas queria se aparecer.

No último salão daquela exposição havia apenas um pintor. Seus cabelos e sua barba eram vermelhos como o fogo.

O homem estava em pé em frente a uma tela em branco. Ele pegou sua aquarela e seu pincel e começou a pintar. Devagar e cuidadosamente ele pintava. Repentinamente o homem fora tomado por um acesso de loucura e uma cama, mesa e cadeira surgiram perto da parede. Ele se deitou na cama. Tapando os ouvidos com as mãos enquanto gritava para que algo se afastasse, e a menina sentiu medo e se escondeu atrás de seus pais.


Então o homem se levantou da cama dizendo repetidamente. 

- Uma flor radiante para outra flor. Para a pequenina flor vermelha.

E ele pintou girassóis. Quando terminou, olhou para a direção onde a menina estava, mas não conseguiu vê-la porque ela tinha voltado para o início da exposição para observar as pinturas com mais atenção.

Momentos depois os girassóis na tela ficaram secos a cada instante. Em cima da mesa havia uma arma de fogo e fumaça saia de seu cano. O cobertor e os lençóis da cama, antes brancos, tingiram-se de rubro.

A menina se tornou mulher, a filha se tornou mãe. Mesmo após todos esses anos ela ainda gostava de vermelho; a antiga fita prendia seus cabelos. Sua filha gostava de azul e usava uma fita da mesma cor. A exposição que visitara em sua infância fazia parte da pinacoteca de um museu estrangeiro e a mãe levara sua filha a ele.

Não foi difícil perceber que a filha também podia ver os pintores; ela estava parada no centro do salão com a boca e os olhos bem abertos, parecendo suprimir um grito; e a mãe riu, se perguntando se havia ficado da mesma maneira anos atrás. Mas agora a mãe não conseguia vê-los; esta foi uma oportunidade reservada à sua infância. Ao decorrer de sua vida ela entendera o significado do que vira: Por trás de cada pintura havia uma história, por trás de todo o caos expresso em uma tela havia a ordem. Há décadas, na frente de espaços em branco, havia visionários, românticos, loucos; pessoas de todos os tipos que, a cada pincelada, deixavam parte de suas alegrias, seus medos, suas dores. As pinturas eram janelas que davam vista a mundos magníficos.
Ela se lembrou do pintor que tinha os cabelos de fogo e procurou o quadro com os girassóis. E ela o encontrou. E também encontrou outra coisa.

No chão, logo abaixo do quadro, havia um pequeno girassol. Suas pétalas brilhavam tenuemente como se fossem feitas com a luz solar matinal. No caule da flor havia um pequeno pedaço de papel em que estava escrito:

Para a pequena flor vermelha




(Conto lido no encontro de 23/08/2016 sobre mote de Clarice Lispector)

Gabriel Cerqueira é uma criatura profunda que habita um mundo raso.

 

Perguntas de Curumim


Por: Eduardo Villela


       Pedro deitou a folha de papel em branco diante de si, no chão da sala. Queria criar uma fábula sobre adultos. Uma fábula em que as pessoas apenas afirmavam, nunca faziam perguntas. Os adultos eram assim, para ele. Os amigos dos pais que visitavam a casa à noite não faziam perguntas, só diziam coisas. Não sabia ainda se ia desenhar ou contar a história em texto. Ou se os dois juntos. As pessoas que iam lá só tinham algo a dizer, nunca a saber. Por que eram desse jeito, ele não sabia responder. Precisava compreender isso rápido, antes de ficar adulto. E se amanhã, de repente, eu virar adulto e não mais poder perguntar isso, também? Nunca vou saber?
       A fábula era sobre uma aldeia em que não se fazia perguntas. Podia se passar nos dias de hoje, no futuro, antigamente. Mas era uma tribo que vivia no meio da floresta, sem ninguém por perto num raio de muitos quilômetros. Eles quase não tinham contato com outras aldeias, até o dia em que chegou um forasteiro. Essa pessoa se portava igual a todas as outras da tribo, com praticamente nenhuma veste. Também era moreno, cabelo liso, e olhos um pouco puxados como eles.
       Não demorou muito para o estrangeiro ser aceito na tribo, porque não procurava briga com ninguém e ajudava com afinco nas tarefas diárias. Mas um dia ele e outros homens faziam reparos numa oca que havia sido danificada pelo vento, quando disse assim: “Se o vento normalmente vem de lá, por que vocês não reforçam este lado com mais palha e alguns pedaços de madeira?”
      Os outros estranharam e ficaram se olhando, mas não responderam, deixaram pra lá. Talvez ele estivesse doente ou confuso. Porém, no dia seguinte o estrangeiro fez novo questionamento. “Por que os caçadores saem sempre em dupla? É para carregar os animais abatidos com mais facilidade ou por segurança? Ou os dois?”
      Dessa vez, foram três perguntas em uma só e os índios da aldeia não sabiam lidar com aquilo. Que coisa esquisita essa pessoa adulta que pergunta as coisas. Perguntar é coisa de curumim, ora. Só tem utilidade quando você está crescendo e aprendendo as coisas.
     Esses foram só os primeiros de muitos questionamentos que o índio visitante passou a fazer todos os dias. Ele começou a se desentender com a tribo, porque por um lado não compreendia por que ninguém respondia e, por outro, ninguém entendia também como podia existir alguém que fazia perguntas sem ser curumim. 

      Nesse ponto, Pedro não sabia como continuar a história. Lembrou que na conversa dos amigos dos pais um falava uma coisa e o outro também, às vezes um interrompia o outro ou até falavam ao mesmo tempo. Imaginou os índios da tribo que inventara fazendo isso também, e o visitante não entendendo nada. 
    E foi o que começou a acontecer na história. Como era o único que perguntava, o coitado começou a se sentir um pouco solitário no meio daquela gente. Será que já sabiam tudo e por isso não precisavam perguntar nada? Se diziam que só curumim tem questões, então é porque ao virar adulto a gente passa a saber tudo, depois de tantas perguntas que quando curumins fazemos? Será que havia algo de errado com ele? Nossa, quantas perguntas estou fazendo! Ainda bem que não estou falando em voz alta, só pensando. Mas peraí, será que nenhum desses outros índios tem também coisas guardadas a querer saber?
    Especialmente para esta última pergunta ele queria uma resposta, e por isso resolveu procurar o pajé. Para sorte ou azar, o nosso forasteiro não era uma pessoa introvertida. Ele falava sempre o que vinha à cabeça.
     “Anauê, Pajé Anhanguara.”
   “Anauê, visitante.” Ele já estava há meses na tribo, mas mesmo assim ainda era chamado de visitante.
    “Posso fazer uma pergunta, com todo o respeito?”
    “Hã. Mas você já está fazendo...”
  “Os índios dessa tribo não têm mesmo perguntas a fazer, ou só não podem fazer perguntas?”
    O pajé Anhanguara ficou desconcertado, porque não esperava por aquilo. Nunca havia enfrentado uma situação como essa. Então olhou para o chão, para o céu, foi lá dentro da oca, voltou com uma flecha, sentou na frente do visitante e ficou afiando, sem responder. Desanimado, o nosso forasteiro foi embora dali.
    Os dias passaram, e agora todos olhavam estranho para ele, que, coitado, percebeu que aquela aldeia não era mais o seu lugar. Comunicou ao cacique que ia embora, e partiu.

    Pedro terminou a fábula e ficou pensando no que teria acontecido com seu índio curioso se continuasse na tribo. Será que cometeriam alguma violência contra ele? Não queria que a tribo da sua história fosse má. Também tinha muito medo de, um dia, não mais poder fazer perguntas. Levou a história para os pais, que naquela noite tinham visitas na sala.
    O pai pegou a folha de papel, leu e depois deu um beijo em sua testa, dizendo. “Muito bom, filho”. Então Pedro resolveu fazer pergunta parecida com a do índio na história, agora a seu pai.
    “Pai, por que os adultos não fazem perguntas?”
    “Eles fazem sim, filho, mas só em momentos adequados pra isso.”
    “Quando são esses momentos, que nunca vejo?”
    “Em salas de aula para adultos, congressos, palestras...”
    “Por que não podem fazer perguntas em qualquer lugar, como agora?”
    “Porque têm que se defender das lanças uns dos outros, filho.”
   Pedro ficou intrigado com a resposta do pai, que usou um elemento da sua própria história, as lanças indígenas. Continuou com medo de não mais um dia poder fazer perguntas, tinha que pensar uma solução para aquilo. Poxa, não faz sentido. Se perguntamos para ficarmos mais conhecedores das coisas e inteligentes e um dia paramos com isso, ficamos todos mais burros.
    Dali pra frente, passou a crescer tentando encontrar a solução para esse problema. Que não deixaria de existir, mesmo depois de adulto.

(Conto lido no encontro de 23/08/2016 sobre mote de Clarice Lispector)


Eduardo Villela está preparando seu primeiro livro de contos, "O Interesse pelas Coisas".

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Panela de Barro

por Maiara Líbano


Como não era visível, por um tempo não se fazia notar. Ao contrário, um cromossomo a mais ou a menos não faz mistério. O distúrbio logo se mostra. Mas esse era um tipo de moléstia sem rosto. Uma imperfeição que ia aparecendo aos poucos.
Ainda bebê a mãe suspeitava, estranhava o balbucio, um balbucio monótono de som, um balbucio tardio. Mas a família tratava logo de espantar esses maus pensamentos da mãe. - É só um bebê, como pode se queixar de qualquer coisa mulher? Num mundo tão estressado tens um bebê calmo. Não se afeta pelas coisas, vai ver já nasceu sabido. Pode ser um presente de Deus!
Mas a mãe percebia o filho. E percebia que o filho não percebia as coisas. Nem as coisas, nem as pessoas. Porque tinha suas ausências. Os olhos parados no vazio. A mãe sentia que nada poderia interromper seu devaneio. Os brinquedos, os penduricalhos do berço. Nada. O menino era um grande sono. Tinha muita vida interior. E somente interior. A parede invisível entre ele o mundo ficava cada dia mais larga. Até que a mãe então decidiu buscar ajuda de um médico. - Não sei doutor, é que ele tem um olhar que não olha.
Quando o médico pôs nome à coisa, tudo mudou. As pessoas mudaram. Não tinha nenhum "se", nenhuma esperança. Um natimorto vivo era o que pensavam as "amigas". Um natimorto traz consigo o sofrimento de um luto. À diferença dele, o sofrimento teria a duração de uma vida, que poderia ser miseravelmente longa. Olhares de piedade os seguiam quando saíam à rua.
Durante os primeiros anos a mãe era toda coragem. Eles não sabem de nada! Vamos construir um mundo, eu e você meu filho. Onde vai ser tudo de sentir. Não vai haver erro. Porque também não vai haver acerto. Só vão ter as coisas. A ideia ferrou com tudo. A ideia te chamou de doença.
A mãe culpava a linguagem. Pois foi quando ela apareceu que as coisas iam mal. A BE CÊ DÊ. - Repete comigo, insistia a professora. Infelizmente não podemos com "crianças especiais". A palavra doce apunhalava a mãe. - Se entende como erro por que chama de especial? É autismo o nome disso! Logo se apercebeu que estava cedendo à própria inimiga. A linguagem que batizava de "autismo" era a mesma que corrigia para "especial". Daí passou a dizer apenas: assim. Meu filho é assim.
Passado algum tempo o marido entregou-se à covardia. - Conceição, espero que um dia me perdoe. Mas essa vida já não posso mais viver. Sou fraco e preciso de pequenas alegrias. Não tenho o suficiente pra me doar por completo a alguém. Não é desprezo. Sou pouco. Não me sobraria nada.
Por um tempo a vida solitária a encheu de tristeza. A vaidade foi-se embora. E junto com ela a fé. Já não ia mais à missa de domingo. Já não participava mais das festas da vila. Vivia para o trabalho e para o filho apenas. Sua rotina era da casa ao trabalho, que era uma barraca na beira da estrada onde vendia panela de barro, côco verde, banana e água. Sua barraca era uma entre dezenas de outras ao longo da estrada rumo ao litoral da Bahia.
O desejo da mãe era só o de estar viva. Não podia morrer antes do filho. Ela sabia que os filhos partirem antes dos pais era contra a lei da natureza. Mas numa natureza que errou uma vez já não se pode mais confiar. E como tinha medo de que a doença fosse com ele agarrada pro céu, guardava na gaveta do criado mudo um veneno. E assim morreria imediatamente depois dele.
Mas na vida só dos dois, sem nenhuma testemunha as coisas funcionavam. Acordavam cedo, tomavam café, colhiam o côco, buscavam as bananas, enchiam o isopor de gelo. E sentavam-se na sombra à espera de que um carro escolhesse sua barraca dentre todas as outras. A mãe passava as horas do dia produzindo novas panelas de barro. O estoque crescia, mas quase nada vendia. O filho passava com os olhos parados em alguma palmeira, em algum graveto. Às vezes contava as placas dos carros. – Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia. À noite somava quantos carros de cada estado tinham passado naquele dia. A mãe fingia interesse. Filho enfermo, filho eterno. Pensava.
Um dia, que era pra ser igual a todos os outros daquela vida pacata, o filho fez algo que a mãe nunca permitira: mexer na argila da panela de barro. Ficou lá pra dentro, manuseando, horas a fio aquele bolo de argila. De noite, a mãe viu o objeto no centro da mesa da cozinha. Era um rosto. O olhar da escultura até assustava a mãe. Parecia gente. Tinha detalhes demais, era expressivo demais. A mãe perguntou se fora a primeira vez que o filho tinha feito uma coisa dessas. Descrente, pediu que ele fizesse mais uma. Dessa vez uma imagem dela mesma. De novo, a escultura ficou perfeita. As imperfeições que haviam na imagem eram apenas aquelas que também existiam no rosto da mãe. Era como se todas habilidades que ele deveria ter estivessem somadas naquele único talento de dar beleza ao barro.
Daí em diante passavam, os dois, o dia todo mexendo no barro. A mãe fazendo panelas, e o filho esculturas. Não demorou pra que um freguês que parava por um côco verde observasse aquelas belas esculturas enfileiradas ao lado das panelas. Foi o primeiro comprador. Como não sabiam dar um valor, venderam pelo mesmo preço da panela.
O talento do filho da Conceição logo passou a ser assunto sabido de um lado ao outro da vila. Não havia quem não tivesse visto as esculturas. Até o padre encomendou uma pra paróquia. A coisa mudou mesmo no dia em que um jornalista passou na barraca. E a escultura passou na televisão. Chamaram de “Art Brut”. E depois vinha gente rica comprar. Com a bonança divina cresceram a casa, fizeram um puxadinho, tudo de alvenaria.
Dizem que era porque o coração da Conceição não aguentava felicidade, estava acostumado demais com a dificuldade. Mas em pouco tempo, sem qualquer motivo aparente, foi encontrada morta dentro de casa. A denúncia veio de uma vizinha, que estranhou o fato de não ver mais nem a mãe nem o filho na barraca. E depois veio o cheiro forte. Ninguém podia acreditar. Mas a polícia, depois que encontrou o veneno no criado mudo, disse que aquilo era um indício e que ele era um suspeito.
O caso nunca foi julgado. Mas, como temia Conceição, seu filho passaria os dias de sua vida, miseravelmente longa, no hospital psiquiátrico da região.

Dizem que a enfermeira levava argila escondida pro seu quarto. Mas ele nunca mais fez uma escultura. Só panelas de barro. 

Conto vencedor do encontro de 23/08/2016 baseado em mote de Clarice Lispector

Maiara Líbano não é precisa, é contraditória.


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

As Noites devem morrer

por Vinicius Varela


A minha história de amor com Júlia é a história de como eu tentei mantê-la viva, como fiz de tudo para que a sua vontade de viver fosse maior que a sua pulsão de morte e não consegui. Fracassei em fazer com que se agarrasse à vida.
A morte rondava nossa casa. Eu sentia como ela fazia minha barba com sua gadanha como se ela fosse uma navalha. A morte era nossa convidada. Júlia a havia deixado entrar. Quando eu desenhei o círculo mágico no chão de casa já era tarde. Não havia contrafeitiço capaz de nos proteger. A palavra tem poder. A todo instante os homens proferem maldições. A morte já havia sido invocada. Júlia pronunciado em voz alta que preferia morrer a continuar vivendo desse jeito.
Júlia era iniciada em mistérios. Guardiã de escuridões. Com dolorosa certeza sou obrigado a afirmar que jamais me aproximei do coração dela. Ela era toda escuros. Júlia ninava o silêncio. De sua treva me revelava dentes de vampira. Dente lindos, claros. E essa é toda clareza que tenho sobre ela. Seus dentes perfeitamente vampirescos, porque não importava o quanto anoitecesse, os dentes de Júlia eram lunares. E seus dentes agora jamais esclarecerão qualquer coisa.
Quando conheci Júlia, isto é, tomei consciência dela, era noite ou dia, (mas na minha memória qualquer lembrança de Júlia sempre se passa à noite, ou com um fundo negro, ou em um lugar escuro) ela me disse jamais ficarei com você. Eu sou um eclipse. Os eclipses podem ser admirados, mas aparecem inesperadamente e por pouco tempo. Eu sou precisamente um eclipse no fim. Desde que nasci já estava no fim. Há 27 anos eu estou no fim e não acabo de findar. Mas pode acontecer a qualquer momento e, nesta noite, sinto meu fim mais próximo do que nunca. Estou prestes a me eclipsar. Se você se envolvesse comigo, seria o seu fim. E o fim é meu, só meu, não compartilho o fim com ninguém. Sou egoísta demais para compartilhar o fim com alguém. Agora eu vou embora, para que você não precise ir, porque o meu embora é para sempre.
Eu deveria ter colocado um fim nesta história nesse momento. E eu pus um fim. Mas não como se esperava que eu fizesse. Eu pus um fim em meu coração. Deixei que o fim ocupasse o meu coração e o nome desse fim é Júlia. Me apaixonei pelo fim. Porque sou idiota, porque não sei quando parar de escrever, porque não sei quando dar a última palavra, deixei que a história seguisse e qualquer pessoa inteligente sabe como termina
esta história, é muito óbvio, mas eu vou continuar contando porque preciso, para alongar um pouco o fim, para amar mais um pouco o fim, assim como eu amei Júlia e amo ainda, porque meu amor não pode mais conhecer o fim, ele já o conheceu, Júlia, e é por isso também que nesta parte da história estou usando mais vírgulas que pontos, porque Júlia morreu e é desnecessário dizê-lo, porque já o disse no começo, Júlia morreu, findou, mas o meu amor não, e só estou dizendo tudo isto não pela história, porque não há, o que há é o meu amor, o prolongamento do fim, estou dizendo tudo isto para dizer o meu amor, não há como contar a história de Júlia, o que há, o que verdadeiramente há, o que sempre há e sempre haverá é o amor, só por isso falar de Júlia, para falar do amor.
O que houve com Júlia? É normal se perguntar o que houve com ela, eu também me pergunto. Como ela morreu? Já que história não há, no mínimo, resta a pergunta como foi que ela morreu. Ela morreu do jeito que todo fim termina, desaparecendo da história. Não há mais história depois do fim. Ela se eclipsou. Eu já não disse? Ela eternizou a noite. Ela queimou seu passaporte porque sua viagem era sem volta. Jogou ao mar os documentos. Realizou seu eclipse e ficou sempre noite. As noites devem morrer. Eu não podia com Júlia, nem ela podia com ela mesma. Mas quem é que pode consigo mesmo?
Esta é a história de Júlia que convidou a morte. E a morte aceitou seu convite. A morte veio buscar Júlia, tirá-la de mim, dos meus braços, da minha história. Júlia era magia negra. Júlia era tumba. A morte passou pelo círculo de proteção, tirou o pentagrama do pescoço dela, apagou as velas. Eu quis manter Júlia comigo. Ela não queria ficar desde o começo, o destino dela era ser noite, ser sempre noite, eclipse vampiresco. Júlia libertou os morcegos. Abriu seu armário de morcegos e deixou que eles saíssem. Eu amava teus morcegos, Júlia.
Júlia é meu fim. Este fim que não termina, esta Júlia sempre terminando, sem fim, Júlia, fim de minha vida, para onde foi afinal? Júlia finalmente. Júlia por quem eu era a fim. Júlia que amo com estupidez e o que dizer? enfim... Maldita Júlia que escolhi amar. Júlia sem final feliz. Finalmente vou te deixar em paz. Não há mais espaço para falar de você, Júlia. Meu amor continua fora destas linhas, no mundo o amor não tem fim, só na página, no texto. E agora eu me chamo Clarice, não Clarice Lispector, só Clarice, Clarice que ama Júlia como quem ama seu próprio fim. Clarice que deixou Júlia para trás. Porque eu não podia mais ser aquela mulher, agora eu sou Clarice.

(Conto lido no encontro de 23/08/2016 sobre mote de Clarice Lispector)

Vinicius Varela é tradutor. Seu envolvimento com a arte e a literatura é uma tentativa de traduzir o indizível da vida. A poesia é o ímpeto primeiro da tradução. Publicou os livretos de poesia Para abir a porta de emergência(2014), Poentes sob a ponte(2015) e De ellos sabemos que estuvieron y nada más(2104). Escreve regularmente para o Clube da Leitura desde o início de 2015, onde publicou seu primeiro conto na antologia Clube da Leitura Vol III(2015). Ficou em segundo lugar no Prêmio Carlos Drummond de Andrade(2015), organizado pela UERJ, com seu conto "Fotogramas", que será publicado em breve em antologia. É tradutor freelancer - português/espanhol e espanhol/português - e já traduziu poemas de vários poetas como Alexandre Guarnieri, do livro Casa das Máquinas(link da versão em espanhol: http://www.mallarmargens.com/2016/05/guarnieri-gringocarioca-varela-4-poemas.html?m=0 ) e foi um dos tradutores do livro "América Latina en 130 documentales", de Jorge Ruffinelli, com lançamento previsto para 2017. Anda envolvido com projetos independentes de tradução e mantém o blog https://aparatagens.wordpress.com/ e a página Aparatagens( https://www.facebook.com/aparatagens/?fref=ts ) que é um livro de minicontos em desenvolvimento virtual. Em breve também pretende publicar seu primeiro livro de poemas. 


sábado, 13 de agosto de 2016

Menino a Bico de Pena

(Mote lido por Maiara Líbano)

Não sei como desenhar o menino. Sei que é impossível desenhá-lo a carvão, pois até o bico de pena mancha o papel para além da finíssima linha de extrema atualidade em que ele vive.
Um dia o domesticaremos em humano, e poderemos desenhá-lo. Pois assim fizemos conosco e com Deus. O próprio menino ajudará sua domesticarão: ele é esforçado e coopera.
Coopera sem saber que essa ajuda que lhe pedimos é para o seu autossacrifício. Ultimamente ele até tem treinado muito. 
E assim continuará progredindo até que, pouco a pouco - pela bondade necessária com que nos salvamos ele passará do tempo atual ao tempo cotidiano, da meditação à expressão, da existência à vida. 
Fazendo o grande sacrifício de não ser louco. Eu não sou louco por solidariedade com os milhares de nós que, para construir o possível, também sacrificaram a verdade que seria uma loucura.

Clarice Lispector, Felicidade Clandestina


sexta-feira, 5 de agosto de 2016

MAO GO


por Guilherme Preger

Um guerrilheiro deve estar no meio da massa como um peixe no oceano, dizia o camarada Mao. A multidão deve ser a extensão de minha pele em mil faces e facetas, multiforme, multitudinária, multiarticulada. A massa me protege com sua cor e calor e mimetizo-me em sua imensa variedade físico-corporal. Ser o um qualquer, o cara da esquina, o homem do povo. Afinal, minha tarefa é a missão do povo.
Por causa dessas olimpíadas, removeram milhares de famílias pobres de suas casas. Por causa dessas olimpíadas prenderam inocentes que sequer cometeram um crime. Por causa dessas olimpíadas deram um golpe no país, afastaram uma guerrilheira honesta da Presidência, para melhor reprimir o povo e garantir o megaevento e o lucro dos financistas globais.
Me aproximo da estação do Maracanã, no metrô lotado e festivo. Estou alheio a esse clima de alegria forçada. Estou cansado da falsa alegria dos aparelhos midiáticos. Estou cansado dessa servidão voluntária do capitalismo. A alegria do espetáculo é outra forma de tristeza. O povo em si não tem culpa disso e apoia o espetáculo, pois não sabe o que faz e não tem escolha. Nós lhe daremos escolha.
Desço a rampa com o ingresso na mão. Há muitos militares por toda sua extensão. Não carrego mochila conforme instrução, apenas meu celular, de uma marca popular chinesa, mas ainda pouco divulgada no Brasil. Era o ponto de falha, mas passa despercebido. Ninguém examinou meus óculos. E tem também meu chapéu, um chapéu grande de tecido. Policiais revistam meu corpo, apalpam minhas calças, mas conforme previsto, não examinam meu chapéu. Passam o detector de metais que nada assinala. Não inventaram um detector para objetos de plástico. Imbecis como todos os policiais. Sorrio como um idiota coxinha. Ninguém, rigorosamente ninguém, me questiona. Montaram um esquema colossal de segurança, mas não estavam preparados para evitar as coisas mais simples. Um guerrilheiro deve ser simples.
Meu ingresso, adquirido especialmente para essa missão, dá direito a uma posição na fileira mais superior da arquibancada. Alcanço minha cadeira como previsto. Está vazia, pois os lugares superiores são os últimos a serem ocupados. Não há ninguém às minhas costas, só o painel envidraçado do corredor superior. Estou na ponta da fila, ao lado da escada.
Cheguei no adiantado da hora. Aproveito para testar meus óculos. Fingindo limpá-los acerto as posições da lente. Ela é feita de material que me dá uma visão de teleobjetiva. Observo de minha posição estratégica as posições de camarote onde ficarão as personalidades do mundo político-midiático-espetacular. Confere com as posições do GPS analisadas anteriormente no preparo técnico. Os óculos me permitem um zoom perfeito de longa e curta distância. Vejo as cadeiras do camarote como se estivessem na minha frente.
Há uma enorme ressonância de vozes no estádio. Me movimento em sincronia com a massa, pois estou mimetizado nela. Faço a onda, aplaudo as informações do placar. Esse estádio costumava ser o maior do mundo. Era o templo da massa, da galera, do povo. Vim muitas vezes a ele quando cabia mais de cem mil pessoas. Mas fizeram uma reforma burguesa para pagar as empreiteiras. O capital privado está fortemente atrelado à engenharia civil e à especulação imobiliária.
Começa a solenidade espetacular e começam a entrar as personalidades. A maioria dos países mandou representantes, mas não vieram os presidentes, porque não querem participar da farsa do golpe brasileiro.
E entra afinal o canalha usurpador. Como um vampiro, sugador de sangue do povo, com sua cara de mordomo morto-vivo. Eu sou guerrilheiro, não posso me nausear, meu estofo é outro. Me emociono quando ouço uma enorme vaia se instalar. Mas as caixas de som do estádio aumentam de volume ensurdecedoramente com uma canção de Anitta para abafar a vaia monumental. Parte da massa canta junto, outra continua a vaia. O golpe dividiu o povo. Eu preciso controlar minha revolta. A massa não sabe o que faz. A ela não deram alternativas, mas nós daremos. E canto também Anitta, pois minha missão é mais importante do que minha revolta particular.
As famílias que estão ao meu redor estão totalmente esfuziantes de presenciar a abertura das Olimpíadas e não prestam a menor atenção em mim. O guerrilheiro deve ser invisível, disse o Camarada, e eu penetro a invisibilidade do ser-multidão. Estou no meio da massa, sou parte dela. Ninguém me distingue.
Começa o desfile das nações com seus atletas e bandeiras. Aplaudo discretamente a delegação chinesa, cubana e venezuelana e de todos os países africanos. Mas estou em missão, e quando entra a delegação americana, torço com maior fervor. Foi o único momento em que meus vizinhos pareceram me observar. Creio que cometi um equívoco me excedendo.
Com meus óculos, faço zoom no fantoche vampiresco. Seu sorriso parece ser de formol. Ele é apenas um títere, assim como sua esposa que está ao seu lado é uma boneca plástica. É impossível sentir compaixão por figuras tão lastimáveis.
Está chegando a hora do momento decisivo. Todo o estádio está prestando atenção na top-model brasileira. Nessa hora, tiro meu celular do bolso e abro o aplicativo especial. Me abaixo, como se fosse amarrar meu sapato. Ninguém me percebe. Retiro meu chapéu discretamente, solto o velcro e dele sai o pequeno bólido, o drone de plástico. Ele voa pelo corredor das escadas como um pássaro liberto. Quase ninguém o percebe, mas quem o observa, acha que ele faz parte da festa, colorido em verde-amarelo e com uma pena indígena vermelha Kaiowá. Algumas crianças batem palmas para ele e o apontam para seus pais. Eu o controlo pelo aplicativo do celular, uma adaptação revolucionária de um game japonês, mas modificado por hackers chineses. Ele voa na direção determinada, eu só preciso fazer pequenos e discretos movimentos com o celular.
Imbatível porque indistinguível no meio da profusão de luzes de leds, telões 3D e ruídos intensos, ele paira agora defronte de sua vítima, o usurpador. Com o zoom de meus óculos especiais eu observo a cena. Ninguém o detecta, mas por um instante o vampiro, como se movido por um pressentimento, faz um leve movimento de cabeça e olha para o drone-pássaro indígena. Chega a esboçar um sorriso como se estivesse vendo uma ave exótica desse país que ele não conhece e ajuda a devastar. Mas logo sua face muda de semblante. Aperto o ícone de disparo e uma pequena seta indígena de levíssima madeira parte do bólido voador e atinge a testa do traidor. Ninguém percebe nada, nem sequer sua esposa que, inebriada como falsa primeira-dama, assiste a pira olímpica ser acesa. Ela só sente um corpo desabar inopinadamente ao seu lado.
O Camarada Mao disse: “Há um grande caos abaixo dos céus. A situação é excelente”.

Guilherme Preger é escritor esquerdopata