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Mostrando postagens de Julho, 2016

O Universo Oculto do São João Baptista

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por Morena Madureira 

O universo oculto do São João Batista
Ele era daquela profissão que agora quase que não existe mais. Aquela que deram na mão de outro pra fazer, sem pra isso aumentar seu salário. Corte de custos. Corte de custos supérfluos. Ele era trocador de ônibus. Demitido, foi ser coveiro no cemitério São João Batista.
Nos primeiros dias não achou nada demais, tinha ficado tanto tempo sem trabalho que só pensava no salário que finalmente ia voltar a ganhar. Contas penduradas, cheque especial no talo, e ter que depender do salário da mulher pra seguir sobrevivendo. Não, daquele jeito não dava não.
Além disso, ele não via os mortos mesmo. Nada, já chegavam com o caixão fechado, segurado por parentes chorosos, os homens da família. Primo, filho, amigo do botequim. As mulheres vinham atrás, abraçadas umas às outras, enxugando as lágrimas com seus lenços coloridos.
Mas isso foi só no começo, porque depois eles começaram e ficou tudo diferente. Eles, os enterrados. Os falecidos. …

Este texto

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Por Marcos Bassini

Este texto não está sendo lido. Ele é apenas uma hipótese de um texto que fala de algo que teria acontecido, não fosse o
E mesmo que fosse, seria um texto incompleto, posto que falaria de algo jamais, que absolutamente, que nunca eu
Aliás, nem deveríamos fazer menção a este texto inexistente ou, ainda que houvesse uma ínfima fração desse texto, texto invisível, levando-se em conta que ele não revelaria absolutamente nada parecido com a nossa, quer dizer, com a minha, quer dizer
Não seria estranho imaginar que, além do texto, o leitor também fosse uma ideia, apenas, uma sugestão longínqua, uma projeção de algo que talvez
Não haveria, portanto, diante da impossibilidade de texto e leitor, um tema e, antes, portanto, não haveria uma saudade, um choro, um vaso quebrado na parede e a água escurecida das flores mortas escorrendo por esta parede que também não haveria, ou senão dificilmente
Nem mesmo antes da parede, aquilo mesmo que ergueria casa sólida, uma casa antes so…

Escuridão Adentro

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de Beatriz Moreira Lima 


Na estrada escura, ela não enxergava nada. O homem ao seu lado dormia. Bêbado. De súbito, o tranco forte e o barulho assustador. O carro parecia haver despencado em uma ribanceira. - Mario! Acorda, homem! Acho que bati o carro! – ele não se movia, o corpo pendendo para a frente, preso pelo cinto de segurança – Merda! Homem inútil... Não dá pra contar com ele pra nada mesmo... Era uma mulher independente. Não tinha medo do escuro. Tinha medo de estar, talvez, pendurada à beira de um precipício. Queria sair do carro, mas temia que sua movimentação o desprendesse de qualquer coisa que o estivesse segurando. Os fracos faróis haviam se apagado com o baque. Tentou acendê-los novamente, sem sucesso. “Também, não estavam servindo para nada, com essa neblina...”, pensou. Acendeu a pequena luz do teto. Observou que escorria um filete de sangue da boca do homem. “Deve ter mordido a língua... Bêbado!”. A visão do homem desacordado a seu lado a enchia de repulsa. Precisava…

Sociedade do Cansaço

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por Byung-Clul Han
A sociedade disciplinar de Foucault, feita de hospitais, asilos, presídios, quartéis e fábricas, não é mais a sociedade de hoje. Em seu lugar, há muito tempo, entrou uma outra sociedade, a saber, uma sociedade de academias de fitness, prédios de escritórios, bancos, aeroportos, shopping centers e laboratórios de genética. A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade do desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais “sujeitos da obediência”, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmos. Nesse sentido, aqueles muros das instituições disciplinares, que delimitam os espaços entre o normal e o anormal, se tornaram arcaicos. A analítica do poder de Foucault não pode descrever as modificações psíquicas e topológicas que se realizaram com a mudança da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho. Também aquele conceito da “sociedade de controle” não dá mais conta de explicar aquela mudança. Ele conté…

Juiz Templário

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por Daniela Ribeiro
sábado
Juiz Templário 👏👏👏👏👏👏👏 SÉRGIO MORO
A formação pessoal e profissional do Juiz Sérgio Moro é realmente admirável.   Formado em Direito e Antropologia, é fascinado por livros  clássicos e apaixonado  pelas artes de combate, pois é Faixa Preta 2DAN de karatê, 1DAN de Aikido e Faixa Roxa de Judô, além de exímio atirador (armas curtas e longas)  é especialista em combate com faca, com curso de operações especiais na PF, por isso é um guerreiro, um grande estrategista.  É leitor voraz dos Grandes Pensadores e escritores universais, dentre eles o Nicolau Maquiavel. Só uma pessoa com o conhecimento do escritor renascentista italiano, que escreveu sobre política de estado, teria essa sagacidade e a esperteza para destroçar a ideologia nefasta, comunista e exploratória implantada pelo PT - Partido dos "Trabalhadores".   Para isso, ele age com sobriedade e adota um estratagema de forma a não permitir que as suas decisões sejam contestadas pelos tribunais superio…

Manutenção

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Por Eduardo Villela
Primeiro, silêncio. Um pouco de paz. Então, o ronco. Oscilação rápida e contínua de engrenagens banhadas em óleo velho, pastoso. Quatro ou cinco segundos, e depois a brisa surda, sucedida de novo pela máquina operante, e mais uma vez brisa surda. Um motor que descansa, exala vento e volta a operar. Máquina de conservação e reparação. É um som que está ali só para existir, não precisa de significado. Sentido tem o sistema de entretenimento, que começa a projetar filmes autobiográficos, histórias futuras, realização de desejos, lembranças distorcidas da infância. Hoje não é dia de terror ou frustração. Também não pode haver passagens que provoquem turbulências ou impressões de quedas bruscas. A ordem, que ninguém sabe de onde vem, é pacificar. A semana foi intensa. Uma forte luz natural invade e ofusca a projeção, tomando seu lugar na tela. Um pouco de sabonete phebo preto, merenda, short adidas azul. E some a infância, porque o continente ora se movimenta. Ele acorda c…

Uísque

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Aquele porteiro praticava um hábito curioso: bebia à noite durante o serviço doses de uísque. Digo curioso porque imagino o seu salário. Sem grana o bastante para criar família ou entreter namorada, ainda assim reduzia as parcas despesas, curtia sacrifícios para saborear à noite doses queridas de uísque.
Tomava várias precauções, sabia quando beber. Sempre depois da meia-noite, quando os moradores já deitados sonhavam sobre travesseiros. Sacava a garrafa de um armário esquecido em um canto da portaria, do seu quarto trazia o gelo, esticava-se na cadeira de rodinhas e assistia à televisão. Embriagava-se devagar, protegido pela escuridão da portaria.
Uma noite, Milena chegou com vontade de falar, os papos com os amigos não tinham sido suficientes. Parou junto dele, observando seus olhos baços, avaliando o homem que descobriu beber escondido, mas que parecia capaz de conversar.
Ela perguntou quanto é que fora o jogo.
Ele perguntou quê jogo.
— Não sei, sempre tem um jogo.
Ele riu à vonta…

Adeus

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por Gabriel Cerqueira 


Olha, eu conheci um cara legal e a gente tá ficando. As palavras dela me atingiram feito uma bala disparada por um revólver. Após um riso nervoso, que naquele momento pareceu repleto de escárnio, ela continuou: - Agora você decide o que vai fazer com a sua vida. Olhei para frente, estático. Já estava preparado para aquela notícia. Sabia que um laço de forca ornava meu pescoço e quea única coisa que faltava era que o banco em que me sustentava fosse chutado. A ironia brincava; o anúncio fora feito no metrô, debaixo da terra, num vagão mal iluminado. O golpe fatal fora desferido já na cova. Não fiquei tão abalado quando pensei que ficaria. Não sei se foi a expectativa em reencontrá-la que serviu como anestesia ou se o impacto foi tão forte que me deixou atordoado. Durante a viagem – nosso caminho era o mesmo – olhei de soslaio para ela diversas vezes; ela se afundara no celular e beliscava seu lábio inferior ocasionalmente, um claro sinal de que estava apreensiva. Eu …

O FANTASMA DE DEODATO

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Por Maiara Líbano

- Fica quieto aí que isso é um assalto! Mão na cabeça! Mão na cabeça, porra!
- Opa opa. Tudo bem. Pode ficar tranquilo. Eu imagino que você deve estar mais nervoso do que eu.
- Cala a boca! Mandei tu falar alguma coisa?
- Calma...calma. Não precisamos nos tratar dessa forma. O que quero dizer é que eu sei o que você está passando. Você certamente é um excluído do mercado de trabalho e vivencia na pele as mazelas da desigualdade. Não sou seu inimigo. Pra mim roubo é distribuição de renda.
Em qualquer outra ocasião o bandido gostaria daquilo que ouviu, mas naquele momento se sentiu profundamente desrespeitado.
- Aqui eu sou o bandido e você é a vítima. Ok?
Após amarrar os punhos e os pés de Deodato, o bandido começou a circular pela casa jogando tudo pro chão, procurando coisas de valor. A primeira coisa que apanhou foi o laptop.
- Provavelmente você não sabe, mas esse é um macbook última geração. Tem um alto valor de revenda. Não se deixe enganar, pessoas mal intencio…

Empenhar ou derreter?

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Gilberto nunca teria feito aquilo, não fosse pela necessidade. Não era o seu perfil. Ele nem sabia direito como funcionava uma penhora. Foi até o banco e pegou as informações. De imediato, lembrou-se de sua tia-avó, dona Irene, que morou na zona norte, onde Gilberto, quando criança, passava semanas sozinho durante as férias escolares. Eram as férias mais tristes que trazia na memória. Às vezes, as imagens daquele tempo apareciam de repente na sua cabeça e seu estômago encolhia como um tatu-bola. Quando se aproximava o final de cada semestre, e as aulas estavam para terminar, Gilberto mais uma vez tentava persuadir seus pais para que desistissem de entregá-lo aos cuidados da tia Irene.
Agora que sabia do que se tratava uma penhora, Gilberto viu que, na situação em que se encontrava, era sua única saída. Não tinha jeito. Estava sem um tostão e o que ainda possuía de valor, que poderia transformar em dinheiro, eram as alianças, a sua e da sua mulher. A doença e a morte da esposa, Maria,…

Solaris, de Stanislaw Lem

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(Mote do encontro do dia 20/07/2016, lido por Guilherme Preger)


Quando tornei a abrir os olhos, tive a impressão de ter cochilado alguns minutos. O quarto estava banhado por uma penumbra vermelha. Fazia menos calor. Eu estava me sentindo bem, deitado, com as cobertas afastadas, inteiramente nu. A cortina só cobria metade da janela e lá, defronte de mim, ao lado da vidraça, iluminada pelo sol vermelho, havia alguém sentado. Reconheci Rheya. Usava um vestido de praia, branco, cujo tecido estava esticado no bico dos seios. Tinha as pernas cruzadas e pés descalços. Imóvel, com os braços bronzeados até os cotovelos, olhava-me por entre os cílios escuros. Rheya, com seus cabelos pretos penteados para trás. Encarei-a durante muito tempo, calmamente. Meu primeiro pensamento foi reconfortante: eu estava sonhando e consciente disso. Não obstante preferia que ela sumisse. Fechei os olhos e tratei de varrer aquele sonho. Quando tornei a abri-los, Rheya estava sentada ao meu lado. Tinha os lábios …