terça-feira, 26 de julho de 2016

O Universo Oculto do São João Baptista

por Morena Madureira 

O universo oculto do São João Batista

Ele era daquela profissão que agora quase que não existe mais. Aquela que deram na mão de outro pra fazer, sem pra isso aumentar seu salário. Corte de custos. Corte de custos supérfluos. Ele era trocador de ônibus. Demitido, foi ser coveiro no cemitério São João Batista.

Nos primeiros dias não achou nada demais, tinha ficado tanto tempo sem trabalho que só pensava no salário que finalmente ia voltar a ganhar. Contas penduradas, cheque especial no talo, e ter que depender do salário da mulher pra seguir sobrevivendo. Não, daquele jeito não dava não.

Além disso, ele não via os mortos mesmo. Nada, já chegavam com o caixão fechado, segurado por parentes chorosos, os homens da família. Primo, filho, amigo do botequim. As mulheres vinham atrás, abraçadas umas às outras, enxugando as lágrimas com seus lenços coloridos.

Mas isso foi só no começo, porque depois eles começaram e ficou tudo diferente. Eles, os enterrados. Os falecidos. Os finados. Começaram. Um a um. O primeiro na verdade foi uma senhora. Dona Terezinha. Foi entrar debaixo da terra que ela começou a gritar. “Safados! Safados! Vão pegar todo meu dinheiro e gastar com puta, viado e bicheiro. Bando de bastardos que coloquei no mundo! Imprestáveis! Puta, viado e bicheiro!”.

Ele tomou um susto que só vendo. Quase caiu pra trás. O parceiro daquele enterro quase se acabou de rir. A cara dele branca, as pernas balangando. E sabe por que o filhodaputa ria? Porque também já tinha sido iniciado no mundo dos mortos. Já tinha perdido o cabaço naquele universo oculto chamado São João Batista.

Sim, era isso mesmo. Para quem trabalhava ali, os cerca de 40 funcionários, entre coveiros, seguranças, auxiliares de escritório, contínuos, faxineiros e até a gerente, aquele cemitério era como uma grande cidade dos defuntos. Todos falavam e interagiam de suas tumbas, gavetas ou mausoléus.

Havia brigas, cantorias, choros, desabafos, gargalhadas, tudo mesmo que costuma sair da boca de uma pessoa viva emanava daquelas sepulturas, e nada adiantava para calá-los porque, infelizmente, os finados não ouviam os seres do lado de cá do túnel da morte.

Passadas algumas horas nas quais se lamentavam, reclamavam ou agradeciam pelas circunstâncias de suas passagens, ou nas quais xingavam ou trocavam juras de amor eterno com as pessoas que deixavam para trás, esse outro mundo não existia, era tão misterioso quanto para os de cá era o além-túmulo.

Aos poucos, ele foi se acostumando a ouvir aquela algazarra toda diariamente, que afinal de contas não era tão diferente do seu dia a dia nos coletivos cariocas. Ali era possível até escutar o que tinham a dizer alguns hóspedes famosos do São João Batista, já aquele era o cemitério das estrelas.

Aí todo dia ele fazia uma espécie de ronda enquanto esperava chegar um novo morto para ser enterrado. Passava pelo túmulo de Chacrinha, Tom e Vinícius, Mario Lago, Carmem Miranda, Dorival Caymmi, Clara Nunes, Nara Leão, Oscarito, Otto Lara Rezende, Clementina de Jesus, Nelson Gonçalves, Bussunda e até Leila Diniz. Cada qual falando, cantando, conversando, reclamando, chorando, rindo ou praguejando como se ainda estivessem em vida.

Também havia os anônimos a expressar ao mundo as dores e delicias de suas existências defuntas, e foi justamente entre esses que ele encontrou Elisa. Ela vivia no túmulo da segunda fileira do cemitério, perto da entrada principal. Havia morrido de tifo aos 20 anos, pelo menos era o que dizia sua lápide, acompanhada por uma foto desbotada de uma jovem com os cabelos repartidos em duas longas tranças. Estava ali há mais de 80 anos.

Como morrera virgem, ainda noiva de um oficial da Marinha brasileira, Elisa não sabia o que era o amor carnal entre um homem e uma mulher. Mas não se engane se você acha que ela não tinha interesse em saber como era esse mundo. Ô se tinha. Passava o dia falando de sexo. Falando em como queria loucamente ser iniciada nos prazeres mundanos.

Ele foi se animando com a voz tão doce e ao mesmo tempo tão lasciva de Elisa. Passou a ter fantasias eróticas com ela. Sonhava com Elisa a suspirar por seus homens. “Calor! Fogo! Preciso de um homem! Um homem que me faça mulher, que me penetre, que me faça sua! Agora, vem, vem você, vem, vem, vem....”.

Os colegas coveiros, acostumados aos chamados desesperados de Elisa, já nem se abalavam mais com as palavras carregadas de luxúria da triste virgem do século passado, mas ele não. Com ele bateu diferente. Começou a responder à jovem quando via que ao seu redor não havia mais ninguém. Dizia a ela que ele era o homem que procurava. Que ele a queria, a desejava, que seria só dela se o quisesse.

Por um desses acasos que ninguém explica, um dia Elisa o ouviu. Ficou em êxtase! Todos os dias os dois trocavam juras de carícias futuras, narravam com detalhes o sexo apaixonado e também selvagem que fariam quando finalmente se encontrassem. Vez ou outra, ele se escondia para ficar sozinho com Elisa durante a noite toda, masturbando-se enquanto ouvia ela narrar cada toque que imaginava estar dando nele.


Um dia, foi descoberto pela esposa em sua mórbida traição. Ele falava dormindo e, em meio a um sonho com sua noiva-cadáver, se entregou. A mulher, que já não estava lá muito satisfeita com o casamento, acabou indo embora. E ele, louco de amor e sem nada mais que o prendesse à vida na terra, se enforcou numa manhã chuvosa de domingo, sem paciência para esperar que a morte o levasse naturalmente para perto de sua Elisa. Ele, porém, não tinha bala na agulha para o São João Batista. Foi para o Caju. E tomou no cu.   

Conto premiado em 2o lugar no encontro de 19/07/2016.

Morena Madureira é paulistana, jornalista e inventora de histórias


Este texto

Por Marcos Bassini

Este texto não está sendo lido. Ele é apenas uma hipótese de um texto que fala de algo que teria acontecido, não fosse o

E mesmo que fosse, seria um texto incompleto, posto que falaria de algo jamais, que absolutamente, que nunca eu

Aliás, nem deveríamos fazer menção a este texto inexistente ou, ainda que houvesse uma ínfima fração desse texto, texto invisível, levando-se em conta que ele não revelaria absolutamente nada parecido com a nossa, quer dizer, com a minha, quer dizer

Não seria estranho imaginar que, além do texto, o leitor também fosse uma ideia, apenas, uma sugestão longínqua, uma projeção de algo que talvez

Não haveria, portanto, diante da impossibilidade de texto e leitor, um tema e, antes, portanto, não haveria uma saudade, um choro, um vaso quebrado na parede e a água escurecida das flores mortas escorrendo por esta parede que também não haveria, ou senão dificilmente

Nem mesmo antes da parede, aquilo mesmo que ergueria casa sólida, uma casa antes sonho, uma planta rabiscada num guardanapo fugidio, erguida em linhas imaginárias de um sentimento unidimensional, imaginada por

E entre o desencontro inicial e a casa de frágil solidez, um plano que se dissolveria no ar como o hálito da voz que o revelaria, um choro inaudível de criança, um aborto praticado antes da concepção, desejo que se segue ao orgasmo, imperceptível após a saciedade mas que sabemos, sim, sabemos já estar ali, desejo que

E até mesmo antes, antes, muito antes de ser vestígio impensável, possibilidade remota, quimera inexpugnável, sopro imprevisível, palavra impronunciável, suspiro inaudível, ou até mesmo

É como se morasse num tempo que de tão longínquo sequer saberia se existiu ou se durante a infância inventou de brincadeira, tão verídico quanto o amigo imaginário, cumprindo ali seu papel de éter, morando embaixo da cama com o monstro que meu pai dizia alimentado por mim, ou dentro da escuridão do armário que rangia, talvez fosse você aquele rangido, talvez a própria escuridão, talvez até

Mas agora está materializado na minha frente, é sólida rocha que minha cabeça fere, carne viva que me morde, naco que me mastiga, saliva que me engole, fome que me sente, fome, muita fome de


E não sei, realmente não sei como dizer pra você que eu não existo.


Escrito para o encontro do dia 19/07/2016

Marcos Bassini é redator, compositor e autor do livro de poemas Senhorita K (ed. Patuá).


segunda-feira, 25 de julho de 2016

Escuridão Adentro

de Beatriz Moreira Lima 


Na estrada escura, ela não enxergava nada. O homem ao seu lado dormia. Bêbado. De súbito, o tranco forte e o barulho assustador. O carro parecia haver despencado em uma ribanceira.
- Mario! Acorda, homem! Acho que bati o carro! – ele não se movia, o corpo pendendo para a frente, preso pelo cinto de segurança – Merda! Homem inútil... Não dá pra contar com ele pra nada mesmo...
Era uma mulher independente. Não tinha medo do escuro. Tinha medo de estar, talvez, pendurada à beira de um precipício. Queria sair do carro, mas temia que sua movimentação o desprendesse de qualquer coisa que o estivesse segurando. Os fracos faróis haviam se apagado com o baque. Tentou acendê-los novamente, sem sucesso. “Também, não estavam servindo para nada, com essa neblina...”, pensou. Acendeu a pequena luz do teto. Observou que escorria um filete de sangue da boca do homem. “Deve ter mordido a língua... Bêbado!”.
A visão do homem desacordado a seu lado a enchia de repulsa. Precisava sair do automóvel. Pelos seus cálculos, não deviam estar longe de casa. No máximo dois quilômetros. Nada que justificasse passar a noite no frio e desconforto, presa dentro do carro com aquele porco.
Com todo cuidado, abriu a porta. Primeiro só um palmo, mas, como o carro parecesse não oscilar, deixou que a porta se abrisse totalmente. Depois, levou lentamente a perna esquerda para fora do veículo, procurando o chão com a ponta do pé. Encontrou terra firme e aparentemente plana. Girou lentamente o corpo de frente para a porta, trazendo a outra perna para o lado de fora. Plantou os dois pés no chão. Não via um palmo à frente do nariz, mas o contato com o solo lhe dava segurança para prosseguir. Levantou-se, segurando a porta com a mão direita. Uma vez em pé, fora do carro, tateou à frente e encontrou algo que lhe pareceu o tronco de uma árvore. Apoiou-se e respirou aliviada. Agora era só questão de encontrar a estrada. Lembrou-se do celular dentro da bolsa. A bolsa, dentro do carro, provavelmente no banco de trás. Não valia a pena tentar encontrar. Sentia que seus olhos começavam a se adaptar à escuridão. Ouviu o latido de um cachorro, ao longe. Seguiria em sua direção.
Ainda bem que estava de botas, pensou, enquanto enfiava, pé ante pé, no mato invisível à sua frente. Tateando, foi se agarrando em troncos e raízes e o que mais aparecesse e conseguiu subir até a estrada. O latido do cachorro soava mais próximo. Devia ser o chato do cachorro do vizinho. Só podia ser ele. Sentiu medo. O cão não era muito amigável e, mesmo de dia, tinha receio de passar sozinha em frente à casa, pois acreditava que ele era capaz de pular a cerca. Aliás, muitas vezes ficava solto. Talvez fosse esse o caso, mesmo porque a casa ainda devia estar longe e o latido parecia bastante próximo.
Parou um pouco no meio da estrada. Aguçou os ouvidos. Sim, era o cachorro do vizinho. Ponderou suas opções. Não eram muitas. Poderia ficar ali no meio da estrada, voltar para o carro ou seguir em frente. Nenhuma delas era muito segura, mas a última era a única que capaz de lhe proporcionar ao menos um final de madrugada tranquilo. A névoa estava se dissipando e o vento afastara as nuvens que encobriam a lua cheia. Agora conseguiu enxergar a estrada. Respirou fundo e recomeçou a caminhada.
Devia estar na metade do caminho, quando ouviu o galope do cão se aproximando. Gelou. E gelada, pensou: “você não pode ter medo, o cachorro sente a adrenalina e aí ataca... respira fundo, faz de conta que tá tudo bem...”. Quando avistou o enorme rotweiller, ele já não galopava. Vinha pela estrada, farejando o chão. Latiu na direção de um arbusto. Depois sentou-se e uivou para a lua. Parecia não a ter visto. Ela continuou andando, a fingir calma, sem sair da sua reta. Se o cachorro ficasse parado, ela passaria a cerca de 3 metros dele. Mas ele voltou a andar e farejar. Veio em sua direção. Ela parou, assustada. O cão passou a meio metro de sua perna, sem olhar em sua direção, sem farejar, sem latir. Era como se ela não estivesse ali. Um pouco mais adiante, latiu para outro arbusto. Sentiu um frio na espinha, os cabelos da nuca arrepiarem. Passou a mão na fronte, para afastar os cabelos. Percebeu uma umidade estranha nos dedos. Levou a mão à altura dos olhos. Estava cheia de sangue. Pensou que ia desmaiar.

Mas permanecia em pé, no meio da estrada. O cachorro seguia calmamente, ora farejando, ora latindo para os arbustos ou uivando para a lua. Tentou chamá-lo, porém sua voz parecia não o alcançar. Melhor assim, pensou, e continuou o seu caminho, escuridão adentro.

Conto escrito para o encontro de 19/07/2016

Beatriz Moreira Lima nasceu em 1970, é funcionária pública, mas sempre gostou de escrever. Teve um filho em 1998, publicou um livro em 2008 (“Tempos Férteis”, editora 7 Letras) e até 2018 pretende plantar uma árvore para completar a sua minibiografia. Enquanto isso, frequenta o Clube da Leitura


Sociedade do Cansaço

 por Byung-Clul Han

A sociedade disciplinar de Foucault, feita de hospitais, asilos, presídios, quartéis e fábricas, não é mais a sociedade de hoje. Em seu lugar, há muito tempo, entrou uma outra sociedade, a saber, uma sociedade de academias de fitness, prédios de escritórios, bancos, aeroportos, shopping centers e laboratórios de genética. A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade do desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais “sujeitos da obediência”, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmos. Nesse sentido, aqueles muros das instituições disciplinares, que delimitam os espaços entre o normal e o anormal, se tornaram arcaicos. A analítica do poder de Foucault não pode descrever as modificações psíquicas e topológicas que se realizaram com a mudança da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho. Também aquele conceito da “sociedade de controle” não dá mais conta de explicar aquela mudança. Ele contém sempre ainda muita negatividade. (p.24).

Mote para o encontro de 02/08/2016

 Byung-Clul Han nasceu na Coreia e é professor de filosofia na Universidade de Berlim. Descreve neste livro como o Ocidente está se tornando uma sociedade do cansaço.  

Retirado do livro Sociedade do cansaço, de Byung-Chul Han. Editora Vozes, 2015. Publicado na Alemanha em 2010. 


Juiz Templário

domingo, 24 de julho de 2016

Manutenção

Por Eduardo Villela

Primeiro, silêncio. Um pouco de paz. Então, o ronco. Oscilação rápida e contínua de engrenagens banhadas em óleo velho, pastoso. Quatro ou cinco segundos, e depois a brisa surda, sucedida de novo pela máquina operante, e mais uma vez brisa surda. Um motor que descansa, exala vento e volta a operar. Máquina de conservação e reparação.
É um som que está ali só para existir, não precisa de significado. Sentido tem o sistema de entretenimento, que começa a projetar filmes autobiográficos, histórias futuras, realização de desejos, lembranças distorcidas da infância. Hoje não é dia de terror ou frustração. Também não pode haver passagens que provoquem turbulências ou impressões de quedas bruscas. A ordem, que ninguém sabe de onde vem, é pacificar. A semana foi intensa.
Uma forte luz natural invade e ofusca a projeção, tomando seu lugar na tela. Um pouco de sabonete phebo preto, merenda, short adidas azul. E some a infância, porque o continente ora se movimenta.
Ele acorda com o próprio ronco da máquina. A passagem do sistema de entretenimento inconsciente para a percepção ao redor é como o ar entre a passarela e o vagão quando pulando para dentro do metrô. Gerúndio por um segundo infinito. “Sacolé a dois reais!”. Abre o olho. “Olha o mate!”
Fernando não sabe o que é sacolé, mate, não sabe de nada, porque o hiato dura mais que o normal. O intervalo − entre a projeção elaborada (por quem?) para entreter durante a manutenção de seus mecanismos físicos e/ou químicos e o que vem depois − o deixa sem compreender nada de sua existência e dos outros, de tudo.
Algo estranho e cheio de dentes está ali à sua frente, próximo de seu rosto. Peraí, agora me recobrei. O nada já sumiu. A mulher, que olha e sorri. “Recuperado?”, ela pergunta. Fernando esfrega os olhos e acha que sim. Como já é consciente de tudo à volta, pode pensar em nada sem ser um nada, entende à sua maneira o nada. O aparente nada que o fez recuperar-se do cansaço. É claro que sim, com certeza é uma nova pessoa. Desculpem os jantares caros, os carros novos, a moda, o consumo que grita, carente, mas agora sim.
É hora de levantar, recolher a canga, as cadeiras, o lixo. Ergue-se com um pouco de dificuldade, os dois andam até a barraca e pagam o que devem. Fernando procura na mochila a chave do carro. “Não viemos de carro, lembra?”
Lembra de novo do trabalho na manhã de sábado, a intensidade frenética da semana. Caminham até a estação de aluguel de bicicletas, por sorte há duas em bom estado. Bem conservadas, como ele, agora. O barulho do mar ainda entra nos ouvidos para acaricia-lo.
“Aquele email... Esqueci de enviar!”. “Manda na segunda-feira, amor”. “É. Você tem razão...”
Cada um sobe em sua bicicleta. Começam a pedalar pela ciclovia, invadem o bairro e ganham a lagoa. Seguindo devagar, observam as árvores e montanhas que já começam a ganhar tons rosados, acompanhando os cantos do céu.
Talvez, um cinema mais tarde.

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Conto lido no encontro de 19/07/2016


Eduardo Villela escreve nas brechas.




Uísque

Aquele porteiro praticava um hábito curioso: bebia à noite durante o serviço doses de uísque. Digo curioso porque imagino o seu salário. Sem grana o bastante para criar família ou entreter namorada, ainda assim reduzia as parcas despesas, curtia sacrifícios para saborear à noite doses queridas de uísque.

Tomava várias precauções, sabia quando beber. Sempre depois da meia-noite, quando os moradores já deitados sonhavam sobre travesseiros. Sacava a garrafa de um armário esquecido em um canto da portaria, do seu quarto trazia o gelo, esticava-se na cadeira de rodinhas e assistia à televisão. Embriagava-se devagar, protegido pela escuridão da portaria.

Uma noite, Milena chegou com vontade de falar, os papos com os amigos não tinham sido suficientes. Parou junto dele, observando seus olhos baços, avaliando o homem que descobriu beber escondido, mas que parecia capaz de conversar.

Ela perguntou quanto é que fora o jogo.

Ele perguntou quê jogo.

— Não sei, sempre tem um jogo.

Ele riu à vontade daquela frase perfeita. Ela riu também.

O papo prosseguiu. Depois de minutos, ele quis buscar para Milena um copo e Milena foi catar em casa um uísque melhor. Ela tinha um doze anos largado em casa, um ex-namorado sovina o esquecera. Desceu na volta os dois lances de escada, duvidando se era mesmo verdade que descia para beber uísque e conversar com o porteiro. Não cogitou nem por um segundo que descer poderia render mais do que isso.

Ninguém cogita.

Seria um mundo em que dormiriam juntos no quarto onde ele descansava o corpo depois do trabalho. Só que não. Naquela noite e nas outras em que o encontro se repetiu, Milena deu somente o seu recado: falou sobre suas incríveis opiniões, pois guardava muitas. Gostava do porteiro porque ele ouvia suas histórias interessado e arriscava uma prosa de qualidade diferente daquela dos rapazes, sua prosa gerava uma atmosfera sedutora de paz. Quando Milena atinou com a sensação, disse intrigada para si mesma:

— Deve ser o uísque.

Com vontade de ter certeza, convidou um amante a vê-la em seu apartamento. Vestiu na ocasião uma roupa comportada, que sexo não era o objetivo. Botou para tocar uma música e serviu suas comidinhas. Nada de cerveja. Beberam uísque.

Não conseguiu na ocasião mais do que uma trepada correta. Desdenhou dela. A receita que Milena praticava no apartamento detinha um valor infalível, como arroz e feijão, como queijo e goiabada, como risoto e camarão. Trepar assim nunca levaria a marca perene de uma nota ruim, mas Milena esperava que a performance do amante fosse outra, ganhasse em prazer da prosa pacífica do porteiro.

Insistiu. Subia com o rapaz diante da face do porteiro, que nunca manifestou ciúme. Insistiu também com as conversas inocentes na portaria, que se tornaram uma resposta à inquietação das baladas, Milena insistia no tempo com o bêbado, a provar de sua paz alcoólica, administrada pelos preços das garrafas em promoção no supermercado.

Uma vez, o rapaz que lhe servia de amante quis companhia e tentou uma visita surpresa depois das doze badaladas. Milena atestara pelo whatsapp que passaria a noite em casa. O rapaz chegou no prédio de pileque, cheio de coragem e esperança. Encontrou a possível namorada em conversa animada na portaria. Milena negou-se ao constrangimento, convidou o rapaz a participar do papo.

A ideia não foi má. Contudo, observar os dois compartilhando aquele uísque saturou o pretendente de males inesperados: a simpatia do porteiro injetava indignação nas suas retinas e gerava um desprezo que amadureceu quando Milena e o rapaz subiram. Milena tentou no que restou daquela noite conciliar duas forças desenganadas: a prosa calada do rapaz arrependido da iniciativa e a memória do porteiro de hábitos abusados. O fracasso foi evidente. A transa não foi boa.

Na manhã seguinte, o rapaz abdicou de todo orgulho.
  
No elevador do prédio, abordou o assunto com o síndico.

Reclamou apenas do uísque.

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Conto lido no encontro de 19/07/2016



Marco Antonio Martire é carioca, autor do livro de contos "Capoeira angola mandou chamar" (2000) e do ebook "Cara preta no mato" (2001). 

sábado, 23 de julho de 2016

Adeus

por Gabriel Cerqueira 


Olha, eu conheci um cara legal e a gente tá ficando.
As palavras dela me atingiram feito uma bala disparada por um revólver. Após um riso nervoso, que naquele momento pareceu repleto de escárnio, ela continuou:
- Agora você decide o que vai fazer com a sua vida.
Olhei para frente, estático. Já estava preparado para aquela notícia. Sabia que um laço de forca ornava meu pescoço e quea única coisa que faltava era que o banco em que me sustentava fosse chutado. A ironia brincava; o anúncio fora feito no metrô, debaixo da terra, num vagão mal iluminado. O golpe fatal fora desferido já na cova.
Não fiquei tão abalado quando pensei que ficaria. Não sei se foi a expectativa em reencontrá-la que serviu como anestesia ou se o impacto foi tão forte que me deixou atordoado. Durante a viagem – nosso caminho era o mesmo – olhei de soslaio para ela diversas vezes; ela se afundara no celular e beliscava seu lábio inferior ocasionalmente, um claro sinal de que estava apreensiva.
Eu ainda a amava e ela sabia disso. Após o término do relacionamento continuamos amigos em virtude dos fortes laços de afinidade que nos unia. Laços estes que me fizeram pensar que ela ainda gostava de mim dado o modo como falava comigo, os olhares que me lançava, nossas conversas, tudo continuava como antes e durante o relacionamento, sendo apenas desprovido de beijos e de momentos mais íntimos. Mas ela não me amava mais. Iludi-me. Bebi veneno enquanto pensava beber a água da vida. Ao final da noite daquele dia, ao repousar minha cabeça no travesseiro para dormir, dizia para mim que era apenas um pesadelo e que tudo voltaria ao normal na manhã seguinte.
Mas o pesadelo continuou. A voz aveludada tomara um tom rígido, o olhar antes inundado por ternura tornara-se um abismo, o riso cheio de alegria e paixão era agora seco e dissimulado, fingido. Era assim que ela tratava as outras pessoas quando éramos próximos, e assim ela começou a agir comigo. Havia me tornado um dos outros.
Errei muito, não nego, e agora era a hora de pagar por meus pecados. Teria que a ver por todas as noites até o fim do ano. Tão perto, mas tão longe. Havia uma barreira entre nós que era quase palpável de tão sólida que se demonstrava. Algo dizia-me que era para me manter longe, mas não obedeci. Mesmo assim tentei manter a amizade, ficar perto dela era melhor do que nada, mas apenas morri mais ainda. Uma vez ela me chamou pelo nome do Outro num momento de distração.
Foi quando surgiram os fantasmas. Primeiro vieram dois de uma vez só: Eu e ela quando ainda nos amávamos. Eles estavam por toda parte: Ruas, parques, cinemas, museus. Sempre de mãos dadas, ocasionalmente se beijando e se abraçando. Seus risos e palavras de amor ecoavam pela minha memória.Nunca fui tão feliz em minha vida. Nunca fui tão amada. Ficaremos juntos para sempre. De vez em quando meu fantasma desaparecia e o fantasma dela pensava que eu era ele. Ela segurava as minhas mãos e sorria – sua boca era uma meia lua e seus olhos ficavam tão fechados que permitia que apenas seus brilhos fossem vislumbrados por entre as pálpebras. Era frequente que pedisse carinho e que inclinasse a cabeça para que eu beijasse sua testa.
O terceiro fantasma não tinha forma visível e era zombeteiro. É tarde demais, ele dizia, rindo. Perdeu muito tempo. Tarde, é tarde. Ele também pronunciava o nome dela com meu sobrenome, como se eu e ela fôssemos casados. Ele me dizia tudo o que fiz de errado e tudo de certo que deixei de fazer, sempre rindo de deboche.Como pôde ter sido tão idiota?
Certo dia o quarto fantasma apareceu, o mais assustador de todos eles. Era ela, enlouquecida, tomada pela cólera e aflição. Gritava toda a dor que a causei, me perguntava o porquê de eu ter feito o que fiz, me agredia, chorava, lamentava. Somados à voz dela também havia minha própria consciência que ora estava abalada, ora me julgava impiedosamente.Toda mágoa não dita desabava sobre mim. Algumas vezes o fantasma dela queria me matar, desferindo golpes em pontos vitais. Minha carne nunca foi atingida, mas minh’alma estava destroçada.
Minha fértil imaginação criou mais dois fantasmas: O Outro e ela. Mas eles apareceram somente três ou quatro vezes. Fiz questão de logo fazê-los desaparecer senão o pior poderia acontecer. Os prédios mais altos já conversavam comigo, ganhando minha simpatia e me convidando a experimentar o doce sabor da gravidade.
E os fantasmas iam para onde quer que eu fosse. Nos piores momentos eles apareciam todos ao mesmo tempo. Comecei a buscar fuga no sono. Fui agraciado com noites sem sonhos e punido com pesadelos excruciantes. Passei dias em plena decadência enquanto caminhava à beira da loucura. Me isolava cada vez mais. Um dia minha família não suportou mais a minha situação e me forçou a me olhar no espelhopara chamar minha atenção para uma possível mudança de estado de espírito. Relutei, mas estava tão fraco que acabei sucumbindo às diversas tentativas. Estava tão magro que minha pele estava colada aos ossos – e ela havia se tornado transparente e a pouca carne que me restava estava verde-azulada -, meus olhos estavam leitosos como os de um cego, meus cabelos e minha barba estavam brancos e quebradiços, no rosto encovado uma expressão de profundo terror e tristeza. No fim das contas eu me tornara o fantasma.
Pousei a pena ao terminar a frase anterior. Algum tempo se passou desde a narrativa e agora, quando escrevo minha história. Minha pele ainda está um pouco translúcida e minha carne está em tons de cinza; para curar-me fui submetido a um tratamento que tornou minha matéria orgânica totalmente incolor para depois recuperá-la por completo. Na cor residia a essência da minha vida e no ponto mais crítico do desespero ela começou a me abandonar espontaneamente. Olho para minha mão, ainda descarnada, dolorida pela escrita. Meu sanguevoltara a ser vermelho e posso vê-lo indo e vindo pelas minhas veias. Fecho os olhos e respiro fundo. Passo minha mão pela minha cabeça e sinto os curtíssimos e espetados fios de cabelo que crescem pouco a pouco. Volto meu olhar para a janela e observo os galhos das árvores balançando ao vento neste dia ensolarado. O mundo não parara de girar, o Sol ainda brilhava e todos viviam suas vidas. Ainda ouço as vozes dos fantasmas – ainda os vejo, mas não com a frequência de antes -, só que agora me sinto mais em paz. Sei que terei que conviver com eles durante mais algum tempo. Conformei-me. Sentado em uma cadeira - o caderno e a pena pousados na mesa à minha frente - nesta sala de jogos da casa de repouso, aqui enquanto escrevo, penso no que vou fazer para seguir adiante e chego à conclusão de que ainda não sei, mas tenho certeza de que deverá ser algo que fará todo o sofrimento valer a pena. Algo que transformará as lamúrias e o escárnio dos fantasmas em cantos de júbilo.

Do outro lado da sala, em outra mesa, há um jogo de xadrez. Exércitos de dolomita e ônix se encaram no campo de batalha. Perdi a alva Rainha. Tragédia? Apenas se não reconhecer a importância das peças que restaram no tabuleiro.

Conto lido no encontro de 19/08/2016

Gabriel Cerqueira sempre pensou que era um peixe fora d'água. Só que, em vez de ser peixe, talvez ele seja um oceano


quinta-feira, 21 de julho de 2016

O FANTASMA DE DEODATO

Por Maiara Líbano

- Fica quieto aí que isso é um assalto! Mão na cabeça! Mão na cabeça, porra!
- Opa opa. Tudo bem. Pode ficar tranquilo. Eu imagino que você deve estar mais nervoso do que eu.
- Cala a boca! Mandei tu falar alguma coisa?
- Calma...calma. Não precisamos nos tratar dessa forma. O que quero dizer é que eu sei o que você está passando. Você certamente é um excluído do mercado de trabalho e vivencia na pele as mazelas da desigualdade. Não sou seu inimigo. Pra mim roubo é distribuição de renda.
Em qualquer outra ocasião o bandido gostaria daquilo que ouviu, mas naquele momento se sentiu profundamente desrespeitado.
- Aqui eu sou o bandido e você é a vítima. Ok?
Após amarrar os punhos e os pés de Deodato, o bandido começou a circular pela casa jogando tudo pro chão, procurando coisas de valor. A primeira coisa que apanhou foi o laptop.
- Provavelmente você não sabe, mas esse é um macbook última geração. Tem um alto valor de revenda. Não se deixe enganar, pessoas mal intencionadas podem querer pagar um valor mais baixo.
O bandido olhou para Deodato com desprezo. Fez menção de falar algo, mas um espirro irrompeu sua fala.
- Com todo o respeito, mas você não quer tirar essa meia do rosto? É tão desconfortável.
Depois dessa o bandido passou uma fita na boca de Deodato e o deixou ali sentado, amarrado e amordaçado. Tinha experiência com vítimas agressivas, histéricas, resistentes, paralisadas. Mas chatas não. Deodato era o primeiro.
Depois de recolher tudo o que prestava naquela casa, o bandido se virou para onde estava Deodato, por um minuto até pensou em soltá-lo. Mas ao olhar para sua cara flagelada viu que por detrás da fita ele sorria. Não era ironia, sarcasmo, nem loucura. Era como se aquele sorriso fosse um riso da sua incapacidade de ser mau. Sem titubear tirou a arma da cintura e PAH acertou o tiro fatal no peito de Deodato. Correu, apanhou os pertences e fugiu pelos fundos do condomínio.
Mais tarde deitado ao lado de sua mulher na cama o bandido pensava no bizarro roubo daquela noite. O bandido era experiente no ramo, homicídio não tirava seu sono. Mas naquela noite se sentia perturbado, fritava de um lado pro outro, não conseguia dormir. Até que abriu os olhos para ver que horas eram e viu, ali ao seu lado, o fantasma de Deodato.
- Não se deixe levar pela culpa. O que houve foi um impulso natural do seu corpo que reagiu em estado de torpor e adrenalina ao que somos acometidos diariamente.
- Não, não é possível. Eu estou delirando. Que você está fazendo aqui?
- Certamente vivemos um momento de crise social e política de natureza ética e moral, sobretudo dentro do paradigma da desigualdade ante a utopia pela igualdade social.
No outro dia, quando acordou do cochilo que conseguiu tirar depois da noite insone o bandido viu que não tinha sido pesadelo. O fantasma de Deodato estava ao seu lado continuando a palestra de onde havia parado.
O bandido nunca mais conseguiu se concentrar nos assaltos seguintes. Porque em todos os momentos lá estava o fantasma de Deodato teorizando sobre política social. Quando o bandido ouvia funk, o fantasma de Deodato discursava sobre o Juízo de gosto em Kant. Quando o bandido estava num churrasco, o fantasma de Deodato lhe apontava os benefícios do veganismo. Quando o bandido passava muitas horas deitado, o fantasma lhe dava palavras de incentivo “ei faça exercícios físicos”. Já desesperado, o bandido procurou a Igreja, acreditando que recorrendo a Deus o fantasma o deixaria em paz. Estava enganado. “Deus está morto.” E o fantasma iniciava assim a palestra sobre Nietzsche e a crítica da religião que passaria a dar durante os cultos, ao seu lado no banco da Igreja.
À beira do enlouquecimento o bandido já não conseguia mais se reconhecer. Já tinha se separado da mulher, já não conseguia mais assaltar, sequestrar, nem sequer furtar em paz. Até que um dia subiu até o alto do morro e lá de cima meteu uma bala na própria cabeça. Seu último pensamento: “Senhor, que eu vá para o inferno. Mas que fique longe desse fantasma.”
No além, sem inferno nem céu, finalmente iguais, os fantasmas do bandido e de Deodato nunca mais se encontraram.

Conto vencedor do encontro de 19/07/2016

Maiara Líbano não é precisa, é contraditória.



quinta-feira, 14 de julho de 2016

Empenhar ou derreter?



Gilberto nunca teria feito aquilo, não fosse pela necessidade. Não era o seu perfil. Ele nem sabia direito como funcionava uma penhora. Foi até o banco e pegou as informações. De imediato, lembrou-se de sua tia-avó, dona Irene, que morou na zona norte, onde Gilberto, quando criança, passava semanas sozinho durante as férias escolares. Eram as férias mais tristes que trazia na memória. Às vezes, as imagens daquele tempo apareciam de repente na sua cabeça e seu estômago encolhia como um tatu-bola. Quando se aproximava o final de cada semestre, e as aulas estavam para terminar, Gilberto mais uma vez tentava persuadir seus pais para que desistissem de entregá-lo aos cuidados da tia Irene.

Agora que sabia do que se tratava uma penhora, Gilberto viu que, na situação em que se encontrava, era sua única saída. Não tinha jeito. Estava sem um tostão e o que ainda possuía de valor, que poderia transformar em dinheiro, eram as alianças, a sua e da sua mulher. A doença e a morte da esposa, Maria, um ano antes, foi o que complicou de vez a sua vida financeira, depois de desmantelar seu equilíbrio emocional e destruir sua saúde psicológica. Dentro da agência bancária, Gilberto aguardava na fila quando, num flash-back, viu a imagem de tia Irene, ali na frente, também aguardando para fazer a penhora dos seus bens e segurando a mão de Gilberto-menino. Era um ritual que ele acompanhou por toda a infância. Mas, só agora teve a noção clara pelo que passou aquela mulher a quem tanto odiou. Tia Irene viveu tudo aquilo às escondidas. Reverberava pelas paredes da agência bancária o eco das palavras ríspidas da tia-avó ordenando que Gilberto nunca falasse daquilo com ninguém, nunca! Só então, décadas depois, ele pôde entender que ela fazia aquilo por pura necessidade, e não para atormentar a sua vidinha infantil medíocre e transformar suas férias na sequência de momentos inócuos de que se recordava.

Distraído, aguardando chegar a sua vez de ser atendido, tirou o par de alianças do bolso e passou a observar seus detalhes. Estranhou. Na parte interna de sua aliança lia gravado "Gilberto & Maria". Porém, na aliança que seria de Maria leu "Vitória & Leandro". Vitória & Leandro? Vitória & Leandro? Era o casal de amigos mais próximos deles. Foram, inclusive, seus padrinhos de casamento, por parte de Maria. Tudo se embaralhou. Como empenhar uma história? Como deixar guardada no cofre do banco uma dúvida, um mistério que o atormentaria? Gilberto saiu da fila e foi para casa sem um tostão e com um novo problema para resolver. Passou um bom tempo tentando tomar alguma decisão, até que ligou para o casal de amigos.
- Gilberto? Como você está? Penso muito em Maria. Que coisa horrível, meu Deus. Maria não me sai da cabeça.
- Imagino. Preciso encontrar com você, falar com você.
- Claro. Vamos marcar um jantar...
- Só você. Sozinha. Se puder, ainda hoje.
- Mas... Tá bom. O Leandro ia gostar...
- Só você. Pode ser?
- Sim, claro.
Eles não se viam desde o velório, um ano antes. Passadas as formalidades do encontro no café, Gilberto olhou fundo nos olhos de Vitória. Em silêncio, puxou a carteira do bolso da calça, de onde tirou a aliança, colocando-a sobre a mesa.
- Leia.

Com um olhar de espanto, Vitória leu a gravação. Amuada, enquanto seu queixo aproximava-se lentamente do peito, foi tirando, de forma mecânica, a aliança que trazia no dedo. Repousou a joia ao lado da outra. Ergueu somente os olhos, encarando com humildade o olhar de indagação de Gilberto. Vitória pegou a aliança que ele trouxera colocando-a no dedo nu. Ajeitou a alça da bolsa no ombro, levantou-se, deu as costas para Gilberto e saiu para a rua. Gilberto delicadamente conferiu "Gilberto & Maria" gravado no interior da aliança que Vitória deixara na sua frente, sobre a mesa. Uma única lágrima se espatifou na fórmica preta, respingando microscópicas gotículas d'água na superfície dourada do anel. Gilberto respirou fundo, saiu da mesa decidido, pagou o que devia e correu para a rua, tentando chegar ainda em tempo na agência, antes que encerrasse o horário de atendimento.

Conto escrito por Walter Macedo Filho para o encontro do dia 05/07/2016

Walter Macedo Filho É dramaturgo, jornalista, roteirista, escritor e gestor cultural. Integrou o Círculo de Dramaturgia do Centro de Pesquisa Teatral, coordenado por Antunes Filho. Como gestor cultural, atuou no SESC São Paulo, Arena Carioca Dicró, Biblioteca Parque Estadual e Instituto Augusto Boal. Publicou seu primeiro livro de contos, Nebulosos, pela Editora 7Letras.



quarta-feira, 13 de julho de 2016

Homo sapiens


Homo sapiens, por Carmen Belmont

"To be, or not to be: that is the question.”
William Shakespeare

E se eu for um homem igualzinho a você?
E se, a princípio, nada tinha planejado, mas aí, quando secava as crianças depois do banho – nem fora ideia minha, fazia a pedido da  mulher – , comecei a gostar de pôr as mãos entre as perninhas infantis, uma quentura doce que passava dos rubores inocentes da pele para os meus dedos, enquanto os irmãos riam risadas cristalinas de folguedo cravejado de brilhantes gotículas d’água?
E se, com o passar do tempo, o ritual de enxugamento se prolongasse mais e mais, a fendinha beijando minha mão estrategicamente descoberta, o passarinho balançando-se e pousando alegremente na bifurcação do indicador e polegar, enquanto a toalha se embolava nas encostas das coxas impubescentes?
E se, em seguida, logo escolhi dispensar primeiro o garoto, só para ficar com ela mais tempo, contemplando-a ali, de pé na cama, tão branquinha e rosada, as ancas delicadas iluminadas pelo sol que espiava da janela?
E se eu evoluí para secar os mamilos tenros em movimentos circulares, antevendo o talho suave dos seios porvindouros?
E se eu dei um passo maior, enlaçando-a, sempre que podia, de surpresa, só para alçá-la e apertar seu corpo miúdo contra o meu, fazendo roçar o volume crescente nas minhas calças o mais próximo possível dos seus quadris, enquanto colhia a inocência de seus lábios e me inebriava no perfume virgem dos seus cabelos?
E se passei a conversar frequentemente, no intuito de lhe ganhar a confiança, enquanto ela se entretinha com seus brinquedos nas tardes preguiçosas, falando da nossa brincadeira secreta que só devia ser compartilhada entre nós, já que éramos tão especiais um para o outro?
E se, várias vezes, a mulher nos surpreendia em atitudes suspeitas que eram rapidamente creditadas ao engano ou ao esquecimento, graças à força do pátrio poder?
E se, quando ia lhe dar boa noite, aproveitava para, sob o lençol, abaixar-lhe o pijama e acariciar-lhe a virilha, alcançando sua joia rara até então intocada, sempre procurando minimizar a estranheza que adivinhava em seus olhinhos espantados?
E se me valia de ocasiões eventuais quando os demais saíam para ir um pouco além, deitando-me cuidadosamente sobre ela e me esfregando sofregamente até molhar seu púbis angelical?
E se ficava louco para ter a próxima chance de ficar a sós com ela, a fim de mergulhar meus dedos ávidos na pureza do seu néctar escondido?
E se a induzia, paulatinamente, á compreensão do que acontecia, ensinando-lhe que a rigidez do “ossinho” que ela, timidamente, em resposta à minha insistência, admitiu sentir, não vinha do meu joelho?
E se pratiquei por anos, enquanto a observava crescer, mal disfarçando o ciúme de sua beleza que, já em flor, atraía cada vez mais atenções alheias, mas antegozando o instante iminente em que a faria minha por completo, antes de qualquer um, sem pejo de lhe confidenciar minuciosos planos de mantê-la cativa de meus desejos, o que incluía lhe encher o ventre com a minha semente?
E se, quando cerrava os olhos marejados – oh, antecipação da suprema felicidade –, já vislumbrava a bela menininha – exclusivamente nascida de e para meu deleite – que viria, pelas sagradas mãos dela, também pedir-me a bênção?
E se eu reconhecer que não me arrependi de nada, nunca, nem quando ela me traiu, gritando aos quatro ventos a nossa história – como se fosse algo terrível – e me trocando por um gajo qualquer?
E se eu confessar que procurei por ela – inutilmente, diga-se de passagem – em cada menina que tive de conhecer desde então?
E se eu for um homem igualzinho a você?

(Conto lido em 05.07.16 (terça-feira) no Clube da Leitura, realizado na Casa Rio)
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Fascinada pelos ecos da linguagem escrita, Carmen Belmont lê e escreve desde que se entende por gente; tudo o mais é adendo. "A palavra/ alva/ alvará da imaginação". (Imagem: @cdbelmont in PicsArt)