domingo, 29 de maio de 2016

Mote do encontro (07/ 06/ 16)



Mote lido por Daniel Russell Ribas


Morangos mofados




 

Terça-feira gorda


(trecho)

Brilhávamos os dois, nos olhando sobre a areia. Te conheço de algum lugar, cara, ele disse, mas acho que é da minha cabeça mesmo. Não tem importância, eu falei. Ele falou não fale, depois me abraçou forte. Bem de perto, olhei a cara dele, que olhada assim não era bonita nem feia: de poros e pelos, uma cara de verdade olhando bem de perto a cara de verdade que era a minha. A língua dele lambeu meu pescoço, minha língua entrou na orelha dele, depois se misturaram molhadas. Feito dois figos maduros apertados um contra o outro, as sementes vermelhas chocando-se com um ruído de dente contra dente.
Tiramos as roupas um do outro, depois rolamos na areia. Não vou perguntar teu nome, nem tua idade, teu telefone teu signo ou endereço, ele disse. O mamilo duro dele na minha boca, a cabeça dura do meu pau dentro da mão dele. O que você mentir eu acredito, eu disse, que nem marcha antiga de Carnaval. A gente foi rolando até onde as ondas quebravam para que a água lavasse e levasse o suor e a areia e a purpurina dos nossos corpos. A gente se apertou um contra o outro. A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro. Tão simples, tão clássico. A gente se afastou um pouco, só para ver melhor como eram bonitos nossos corpos nus de homens estendidos um ao lado do outro, iluminados pela fosforescência das ondas do mar. Plâncton, ele disse, é um bicho que brilha quando faz amor.
E brilhamos.
Mas vieram vindo, então, e eram muitos. Foge, gritei, estendendo o braço. Minha mão agarrou um espaço vazio. O pontapé nas costas fez com que me levantasse. Ele ficou no chão. Estavam todos em volta. Ai-ai, gritavam, olha as loucas. Olhando para baixo, vi os olhos dele muito abertos e sem nenhuma culpa entre as outras caras dos homens. A boca molhada afundando no meio duma massa escura, o brilho de um dente caído na areia. Quis tomá-lo pela mão, protegê-lo com meu corpo, mas sem querer estava sozinho e nu correndo pela areia molhada, os outros todos em volta, muito próximos.
Fechando os olhos, então, como um filme contra as pálpebras, eu conseguia ver três imagens se sobrepondo. Primeiro, o corpo suado dele, sambando, vindo em minha direção. Depois as Plêiades, feito uma raquete de tênis suspensa no céu lá em cima. E finalmente a queda lenta de um figo muito maduro, até esborrachar-se contra o chão em mil pedaços sangrentos.


ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 12ª edição, 2015.




Caio Fernando Abreu nasceu no Rio Grande do Sul em 1948. Foi jornalista, dramaturgo e escritor. Aos 19 anos, publicou o romance “Limite branco”. Lançou 11 livros, foi premiado duas vezes com o Jabuti da Câmara Brasileira do Livro (1984 e 1989) e seus textos foram traduzidos em várias línguas. Homossexual assumido, foi perseguido pela ditadura. Nos anos 1970, exilou-se na Europa. Os contos de Morangos mofados, de 1982, ocuparam um lugar cativo na cabeceira daquela geração. Morreu em 1996.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Mote do encontro (24/ 05/ 16)


Mote lido por Morena Madureira


Tanto faz





Saímos, eu e o Chico, do fundo da terra para a noite chuvosa do boulevard du Montparnasse. Entramos correndo no café da esquina, encostamos a barriga no balcão.
-          Dois demis – comanda Chico – pedindo chopes ao garçon.
-          O meu escuro, s’il vous plait – acrescento. O barman não me dá pelota, absorto em seu tédio profissional. Mas acaba trazendo um claro e outro escuro, como pedimos. Afundamos juntos os narizes na espuma.
-          Você acha que passou por paquera barata o convite que eu fiz pra Pamella? – começa Chico, paranoico de carteirinha.
-          Ué? Por quê?
-          Sei lá... essa mulherada aqui da Europa é diferente. Tudo feminista, bi, trissexual, todas com mil giletes na língua. Elas têm ódio à paquera. Consideram uma violência, um crime.  Ainda vão conseguir passar um alguma lei proibindo a paquera, o flerte discreto e até o olhar de esguelha, você vai ver. Passar por uma gostosa na calçada e dar aquela viradinha pra filar a mina de ré vai dar prisão perpétua. Se assobiar, é guilhotina na certa. Escreva o que eu digo. Já ouvi uma francesa, professora de filosofia, defendendo isso na casa da Juliá.
-          Porra, mas nem foi paquera, bicho. Você já conhecia a guria, coisa mais normal do mundo convidar ela prum chopinho. Você não disse “Chupa aqui o meu cacete, tesão”, nem nada do tipo. Foi tudo delicado, na moral. Quê que tem o feminismo a ver com isso?
-          Também acho. Tem nada a ver. A gente vem de uma ditadura militar, porra, não pode vir pra cá pra viver essa paranoia feminista. Chega a polícia, a classe média, o Dops, o Exército, a CIA, a KGB, os mísseis nucleares, a minha asma, o seu fígado podre... Tô começando a achar que o feminismo é um novo tipo de cristianismo fundamentalista, cara. A gente acaba se culpabilizando só por desejar uma mulher.
-          Como é que as feministas acham que a humanidade vai se reproduzir se cortarem o nosso barato? Ou, pior, nosso pai, como muitas gostariam de fazer – digo eu. – Capaz que elas formem tropas de assalto pra roubar espermatozoides nas ruas, com algum aparelhinho de sucção ultrarrápida. Eu até acho que/
-          Tô sacando cada vez mais o lance daquele personagem do Win Wanders – me corta o Chico, que mal ouve o que eu digo, galopando em pista própria, como de hábito. – Como é que ele chama mesmo?
-          De que filme do Wanders? A gente viu vários.
-          Aquele que trabalha em todos, ou quase.
-          O Rüdigler Vogler?
-          Isso, o Vogler. Ele sempre faz o mesmo papel, já reparou? Intelectual cool, meio deprimidão, mas com swing. Maneiro. Nunca mostra fissura por mulher nenhuma. Calado. Na dele. Não fala pelos cotovelos que nem a gente no Brasil, pra dominar os homens e encantar as mulheres. Dá um rolê nas fálicas e nas feministas, ao mesmo tempo. Sabe chegar numa mulher, aborda mas não transborda. Não compete com os amigos.
-          Tudo bem. Mas também não vamos cair no teatro da indiferença diante do tesão, né? A gente lá-bas é mais esporrante mesmo, mais safado, mais... sei lá, primitivo, no melhor e no pior sentido da palavra.
-          Claro, bicho, tô sabendo. Mas nos filmes do Wanders não se trata de indiferença fabricada. O lance ali é que o carinha desmonta a representação do macho diante da fêmea. É o fim do teatro fálico do conquistador. Não tem o culto do sucesso. O sucesso é nazismo, a barbárie. O Wanders sacou o bode do Casanova: o cara que fica full-time de pau duro, mas não goza, não perde a cabeça. A gente é assim no Brasil: tudo um bando de nego fissurado, priápico, tenso. E não tem nada de primitivo, não. A sedução vira espetáculo, ninguém fica relax, ninguém solta seus instintos, seus peidos, numa boa. Todo mundo de cu travado. Daí, quando o cara trepa pela primeira vez com uma mulher, acontece o quê? Ou nego brocha, ou fica de pescoço duro por uma semana, ou tem ejaculação precoce, ou esporra mas não goza, essas merdas. É o velho mito da performance, bicho. Um horror, um horror.



MORAES, Reinaldo. Tanto faz & Abacaxi. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.





Reinaldo Moraes nasceu em São Paulo, em 1950. Estreou com Tanto faz (1981) e depois Abacaxi (1985) - reeditados em 2011 num volume único, pelo selo Má Companhia. Passou dezessete anos sem publicar ficção, até lançar o romance juvenil A órbita dos caracóis (2003), os contos de Umidade (2005), a história infantil Barata! (2007) e o romance Pornopopéia (2009, Objetiva). Escritor, roteirista e tradutor paulistano faz de suas histórias, aparentemente simples, um belo trabalho com a linguagem. A sexualidade está impregnada em cada linha de seus livros, como numa busca incessante de entendimento do próprio desejo. Humor, ironia com eco beatnik, "culto e grosso", como já foi definido à literatura.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Mote do encontro (10/ 05/ 16)


Mote lido por Daniel Russell Ribas

Muito barulho por nada



Quinto Ato

Cena 1

LONATO – Eu te peço, chega de conselhos, pois eles caem em meus ouvidos tão inúteis como a água numa peneira. Não me dês conselhos, nem permita que consoladores outros venham me agradar os ouvidos, exceto se for alguém cujos agravos sejam comparáveis aos meus. Arranja-me um pai que amou tanto quanto eu a uma filha, motivo de seu orgulho e sua alegria, agora dominado por dor como esta minha, e pede a ele que me fale de paciência. Que a desgraça dele venha medir o comprimento e a largura da minha, e que se correspondam, o meu cansaço e o dele; que se possa ver um tanto cá e um tanto lá, um pesar tão importante nele quanto em mim, em cada feição, em cada ruga, na forma e no formato. Se esse sujeito sorrir e alisar a barba, despachar a tristeza, com um “Harrã” limpar a garganta em vez de gemer de dor, usar provérbios como curativos para o luto, embebedar o infortúnio com filosofices de livros, vê que ele venha até mim e já, que eu dele vou coletar paciência. Mas acontece que tal homem não existe, porque, meu irmão, os homens sabem aconselhar e consolar quando a dor é aquela que eles próprios não sentem. É só provar de uma dor assim, e transfiguram-se em fúria os mesmos conselhos que antes receitavam preceitos contra a raiva, amarravam a loucura galopante com delicados fios de seda, enganavam feridas com a voz e a agonia com palavras. Claro, claro, é a obrigação de todo homem pedir paciência àqueles que se contorcem sob o peso da tristeza, mas não existe em homem algum nem a virtude nem a capacidade de ser tão moral assim quando é ele quem tem de suportar o mesmo fardo. Portanto, não me dês conselhos; meu desalento grita mais alto que tuas censuras.


SHAKESPEARE, William. Muito barulho por nada. Tradução: Beatriz Viégas-Faria. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2002.




William Shakespeare foi um poeta, dramaturgo e ator inglês, tido como o maior escritor do idioma inglês e o mais influente dramaturgo do mundo. É chamado frequentemente de poeta nacional da Inglaterra e de "Bardo do Avon".