quinta-feira, 28 de abril de 2016

A Paixão de Roussef - Guilherme Preger



A Paixão de Roussef



E Dilma Roussef falava ao povo quando Temer, o Judas, chegou e lhe deu um beijo.
-“Vice, a que vieste?”, perguntou Dilma.
Mas antes que o Vice decorativo falasse qualquer coisa, vieram os guardas e levaram Dilma ao Sumo Sacerdote, Moro.  “És tu a Presidenta do Brasil?”, perguntou a Dilma. “Tu o dizes”, respondeu-lhe a Presidenta.
- “É réu de impeachment!”, decretou o Sumo Sacerdote do STF, enquanto alisava seu tucano de estimação. E mandou Dilma ao Congresso. Ao chegar com Dilma no Senado, o Presidente Renan perguntou-lhes:  “Que crime esta cometeu”? “Cometeu pedaladas. Toda manhã andava de bicicleta”, responderam-lhe. “Não é verdade”, respondeu Dilma Roussef, “eu andava dia sim e dia não”. “O que é a Verdade?”, perguntou-lhe Renan, o Pilatos do PMDB. 
Era época da Páscoa e era costume fornecer indulto a um criminoso. Havia dois candidatos: Eduardo Cunha e Dilma Roussef. “Vocês querem que eu solte o Cunha ou a Dilma?”, perguntou Pilatos ao povo de coxinhas. “O Cunha”, responderam-lhe os coxinhas. “Mas que mal cometeu Dilma Roussef?”, lhes perguntou o Pilatos do Senado. “Ela se diz Presidenta do Brasil, responderam-lhe os Coxinhas.
Então, o Pilatos do Senado soltou Cunha e entregou Dilma aos guardas. “Façam o que quiserem com ela. Não vi nenhum crime de responsabilidade, mas lavo minhas mãos”.
Então os Guardas levaram Dilma para a Câmara, colocaram-na no pau de arara, chamaram 380 deputados para estuprá-la. Também chamaram deputadas para chamarem-lhe de puta e de vadia. “Somos Belas, recatadas e do lar”, lhe gritavam.  Em seguida, os deputados enfiaram ratos em sua vagina e uma coroa de espinhos em sua cabeça com os dizeres: “Dilma Roussef Presidenta do Brasil”.
E na sexta-feira levaram-na ao Calvário. E com pregos, prenderam-lhe pelas mãos numa cruz entre dois outros condenados: Lula e Delcídio. Este último gritava a Dilma “Não és a Presidenta do Brasil, por que o povo não te salva?”. Mas Lula dizia a este: “Cala a boca, renegado. Não vês que tu és um traidor safado pior do que o Temer?”.
E Dilma em sua agonia olhou para os céus e disse: “Povo, por que me abandonaste?”.
E então baixou a cabeça, deu seu último suspiro e uma noite escura e longa desceu sobre o Brasil.
Levaram seu corpo para uma caverna, mas ao terceiro dia, quando voltaram lá, seu corpo havia desaparecido.
E passaram-se mais 50 dias e seus discípulos petralhas rezavam por sua alma, escondidos, quando Dilma lhes apareceu em carne e osso. Ficaram perplexos: ‘Salve Dilma, Presidenta do Brasil!”.  A Presidenta então soprou sobre eles e uma ventania entrou pelo diretório onde se escondiam. E então Dilma ascendeu aos céus. Sentindo o Espírito Santo, os discípulos criaram coragem e  saíram pelo Brasil, pregando a Revolução Comunista e gritando: “Não vai ter golpe, vai ter Luta!”.  


Conto escrito para o encontro de 26/04/2016





Guilherme Preger é escritor e engenheiro, engenheiro e escritor e está no Clube da Leitura desde sua fundação, tendo participado de suas 3 coletâneas. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Oito e Meio/2014). Atualmente é doutorando em Teoria da Literatura na UERJ. Politicamente, é comunardo e defende a proliferação de comunas pelo Brasil.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Tigres Trísticos - André Salviano



Tigres Trísticos


primeiro tigre

A busca. Que nunca existiu, mas sempre esteve presente. Pássaros cantando, flores por todos os lados, o barulhinho gostoso do rio. Bosque de caminhos seguros. Onde passeávamos, ora juntos, ora separados. Até que numa tarde qualquer um tigre atravessou a rua. Suas listras sob nossos olhares espantados. Nos olhou de volta, poucos instantes. Nunca mais fomos os mesmos.

segundo tigre

O beijo. De repente tão plural quanto o desejo desconhecido. Lua cheia, lobos uivando. Uma ou outra estrela no céu. Caminhamos sem norte. Fingindo não ouvir aquele corvo que insistia em cantar, nunca mais, nunca mais. A noite se esvaindo, vacilantes pensamos na despedida. Até que outro tigre atravessou nosso caminho, muito mais próximo que o primeiro, e além de nos olhar rugiu. Tão alto que você assustada se jogou nos meus braços, pude te sentir mais minha. Embevecido te abracei bem forte, corações acelerados. Tua pele minha. Nenhuma frase dita. Palavras dialogando dermes. Duas bocas, uma crase. E as tardes que não ardiam, tem agora nesse verbo o infinitivo sempre aguardado.

terceiro tigre

Amanhecemos. Sem bússola, muito menos mapa. Um alento, o sol passando pela fresta do quarto sem janela. Cabana no meio do nada. Passear pela floresta não há de ser fácil. Ilusões travestidas de árvores seculares, quereres frutos fora da estação. Definitivamente, não existe nada mais definitivo que o amor. Que às vezes nos pega com suas furiosas garras, tal qual um tigre de bengala, que não cruza ruas ou caminhos, mas se apossa de nós sem que consigamos saber quem geme ou treme, ou mata e chora. Seguimos. Em lençóis que se amarrotam, promessas que jamais se perdem. Nosso tigre sai do papel e ganha vida, só não sabemos quantas. Caminhar pela selva requer cuidado. Do teu corpo a seiva que não se perde. Em mim, que te mordo tentando entender se não é sonho. E te beijo percebendo que sonhamos juntos.


Conto escrito para o encontro de 12/04/2016




André Salviano é formado em Letras pela UFRJ. Já participou de algumas antologias, prosa e poesia, mídia impressa e eletrônica, como o Prêmio UFF de Literatura 2009, categoria conto, e o e-book Não é só por 20 contos (http://www.skoob.com.br/files/ebooks/20-contos.pdf). É um dos fundadores do blogue Confraria dos Trouxas (confrariadostrouxas.com.br), onde escreve todas as terças desde 2010. Admirador da alma feminina. Torcedor do Flamengo. Sempre que pode bate ponto no Maraca. Gosta de suco de melancia e do pôr do sol no Arpoador. Não dispensa um chopinho regado a bom papo. Mora em Laranjeiras, mas vive na Lapa.

Mote do encontro (26/ 04/ 16)



Mote lido por André Salviano


Alice Cavalo de Pau

Chamava-se Alice da Silva Ramos e foi a Pinheiro Machado da prostituição nacional. Sua celebridade foi longe. Mulata enorme no comprimento e na largura, foi como exploradora do lenocínio que ela enriqueceu – juntou 50 contos roubados do seu quarto por um político da cidade , no dia em que morreu de gripe, em 1918.

Vulto lendário do Rio é justo que figure no Bambambã!

Alice Cavalo de Pau, inculta, era um prodígio de inteligência e maldade.

O defeito que mostrava nos dedos talvez fosse a origem de todo aquele fel que ela destilava, tirando o último trapo das suas escravas e separando os casais – como fez com o tabelião Paula Costa, a quem mostrou um retrato da sua Edméa em colóquio com um chofer.

E isto só porque a Edméa não quis mais morar na sua pensão.

O tabelião danou-se.

Alice, quando pequena, era obrigada a pedir esmolas.

E para pedir esmola com êxito, era preciso ser aleijada.

A sua mãe de criação queimou-lhe os dedos nas brasas de um fogareiro. Com oito anos e os dedos roídos, comovia.

E fazia boa féria.

Convivendo com “focas” dos jornais, médicos, advogados, funcionários públicos, policiais e magistrados, como o juiz Albuquerque de Melo, que lá ia dormir com a Paulistinha, Alice ficou sabida.

Mas não sabia ler.

Um dia houve o crime da rua da Carioca.

Ela queria saborear as narrativas do crime de Rocca e Carletto.

Aprendeu a ler e saboreou.

Alice colaborou no Rio Nu.

Dava as notas a um mulato bacharel, poeta suburbano, de nome Alexandre Sequeira e a um Carlos Barbosa Bento Serzedelo, capitão da “briosa”, que era o dono da seção.

A seção era a “Carteira de um peru”.

Era uma coluna de perfídias e chantagens daquele órgão curioso então redigido por Olavo Bilac (d. Louro), J. Brito (Bock), Arthur Azevedo (dr. Selo) e outros intelectuais da ocasião.

Para que se possa avaliar da inteligência da Alice Cavalo de Pau, líder até 1918 do lenocínio nacional, vale a pena contar uma anedota, também atribuída à sua colega Libânia.

Um dia chegou à cada de rendez-vous da rua Maranguape um homem importante da política nacional.

E perguntou à exploradora se não podia arranjar uma moçoila, de 15 a 18 anos, para aquela noite. Estava com o dinheiro.

– Posso, tenho aí uma coisa boa...

– Mas eu quero bem bonita...

– É muito bonita. Quer ver já?

E gritou para o interior da casa:

– Mariquinhas!

O pretendente interrompeu:

– Espere. Não chame já. Diga-me uma coisa: é inteligente? Eu quero dormir com uma mulher inteligente.

Alice malcriada disse:

– O sr. quer dormir com inteligência? Então não é aqui. É na rua São Clemente, 134. Vá dormir com o Rui Barbosa!


BARBOSA, Orestes. “Alice Cavalo de Pau”. In: Lapa do desterro e do desvario – Uma antologia / vários autores – organização: Isabel Lustosa. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2001. 




quinta-feira, 7 de abril de 2016

Mote do encontro (12/ 04/ 16)

Mote lido por Vivian Pizzinga


Adeus a Alexandria





O poder das palavras que queremos ouvir é grande. Como um filhote de pássaro, o amor precisa receber continuamente essas regurgitações senão morre. É uma construção frágil, vive de promessas. Cada dia tem que ser confirmado com frases escritas no vento.


CAMPELLO, Myriam. Adeus a Alexandria. Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2014.




Myriam Campello nasceu no Rio de Janeiro. Com Cerimônia da noite, seu primeiro livro, recebeu em 1972 o Prêmio Fernando Chinaglia para romance inédito. Publicou ainda Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993, editado na Alemanha em 1998), Sons e outros frutos (contos, 1998, Bolsa para Conclusão de Obra da Biblioteca Nacional em 1996), Como esquecer (romance, 2003) e Jogo de damas (romance, 2010). Em 1997, recebeu o Prêmio União Latina - Concurso Guimarães Rosa para conto inédito. Participou de diversas antologias, entre elas Os cem melhores contos brasileiros do século (2000). Tradutora, entre outros, de Georges Simenon, Stephen King e Virginia Woolf.