quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Mote do encontro (05/ 03/ 16)



Mote lido por Walter Macedo Filho


Possibilidades da inteligência





Uma inteligência que reflete é uma inteligência que, afora o esforço praticamente útil, possuía um excedente de força para gastar. É uma consciência que, virtualmente, já se reconquistou a si mesma. Mas ainda é preciso que a virtualidade passe ao ato. É de presumir que, sem a linguagem, a inteligência teria ficado atada aos objetos materiais que tinha interesse em considerar. Teria vivido num estado de sonambulismo, exteriormente a si mesma, hipnotizada por seu trabalho. A linguagem contribuiu muito para libertá-la. A palavra, feita para ir de uma coisa para outra, é, com efeito, essencialmente deslocável e livre. Poderá, portanto, estender-se, não só de uma coisa percebida a outra coisa percebida, mas também da coisa percebida à lembrança dessa coisa, da lembrança precisa a uma imagem mais fugidia, de uma imagem fugidia, mas no entanto ainda representada, à representação do ato pelo qual é representada, ou seja, à ideia. Abrir-se-á, assim, aos olhos da inteligência que olhava para fora, todo um mundo interior, o espetáculo de suas próprias operações. Ela, aliás, estava só esperando essa oportunidade. Aproveita-se do fato de que a palavra é ela mesma uma coisa para penetrar, levada pela palavra, no interior de seu próprio trabalho. Por mais que seu primeiro ofício fosse fabricar instrumentos, essa fabricação só é possível pelo emprego de certos meios que não estão talhados na medida exata de seu objeto, que o ultrapassam e que, dessa forma, permitem à inteligência um trabalho suplementar, isto é, desinteressado. A partir do dia em que a inteligência, refletindo sobre seus procedimentos, percebe-se a si mesma como criadora de ideias, como faculdade de representação em geral, não há mais objeto do qual não queira ter a ideia, mesmo que este não tenha relação direta com a ação prática. Eis por que dizíamos que existem coisas que só a inteligência pode procurar. Com efeito, só ela se preocupa com teoria. E sua teoria gostaria de abarcar tudo, não só a matéria bruta, sobre a qual tem naturalmente domínio, mas também a vida e o pensamento.


Bergson, Henri. Memória e Vida (textos escolhidos). São Paulo: Martins Fontes, 2006.




O filósofo Henri Bergson defendeu ideias fundamentais para o desenvolvimento da filosofia moderna, as quais são amplamente absorvidas por todos, assumindo assim um caráter popular sem precedentes, quando Bergson ainda se encontrava vivo. Ele sobrepõe seu ponto de vista biológico à tradicional concepção materialista da Ciência e da Metafísica, encerrando desta forma o reinado da visão de Descartes. O desejo de Bergson é inserir nas esferas das Ciências Humanas e da Religião os elementos positivistas, utilizando para isso uma ferramenta essencial, a evolução. Ele defende que a realidade vivenciada pelo Homem é a duração real, a qual se desenrola na consciência, neste cenário em que se conectam a experiência e a intuição, esta representando o núcleo central da vivência genuína, a ação intensa que define a durabilidade do real. Bergson defende, assim, quatro conceitos básicos, a ‘intuição’, a ‘durée’, a memória e o élan vital, aqui descritos sucintamente.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Mote do encontro (16/ 02/ 16)


Mote lido por Walter Macedo Filho
 
História da Loucura



A Renascença despojou a miséria de sua positividade mística. E isto através de um duplo movimento do pensamento que retira à Pobreza seu sentido absoluto e à Caridade o valor que ela obtém dessa Pobreza socorrida. No mundo de Lutero, e sobretudo no de Calvino, as vontades particulares de Deus — esta "singular bondade de Deus para com cada um de nós" — não deixam à felicidade ou à infelicidade, à riqueza ou à pobreza, à glória ou à miséria o dom de falar por si mesmas. A miséria não é a Dama humilhada que o Esposo vem tirar da lama a fim de elevá-la; ela tem no mundo um lugar que lhe é próprio — lugar que não testemunha por Deus nem mais nem menos do que o faz a riqueza. Deus está tão presente, sem dúvida, sua mão generosa tão próxima da abundância quanto da miséria, conforme lhe aprouver "alimentar uma criança abundantemente ou escassamente"1.

A vontade singular de Deus, quando se dirige ao pobre, não lhe fala da glória prometida, mas sim de predestinação. Deus não exalta o pobre numa espécie de glorificação inversa: ele o humilha voluntariamente em sua cólera, em seu ódio — este ódio que ele tinha contra Esaú antes mesmo de ele nascer e em virtude do qual ele o despojou dos rebanhos que lhe cabiam pela primogenitura.

Pobreza designa castigo:
“É por ordem sua que o céu se endurece, que as frutas são comidas e consumidas pelas chuvas e outras corrupções; e todas as vezes que as vinhas, os campos e os prados forem batidos pelas geadas e tempestades, também isso seja testemunho de alguma punição especial que ele exerce”2.

“No mundo, pobreza e riqueza cantam o mesmo poder absoluto de Deus; mas o pobre só pode invocar o descontentamento do Senhor, pois sua existência traz o sinal de sua maldição. Do mesmo modo, é preciso exortaros pobres à paciência a fim de que aqueles que também não se satisfazem com o estado em que estão tratem, tanto quanto possam, de aliviar o jugo que lhes é imposto por Deus”3.

Quanto à obra de caridade, de onde retira seu valor? Nem da pobreza que ela socorre, pois esta não possui mais uma glória própria; nem daquele que a realiza, pois através de seu gesto é ainda uma vontade particular de Deus que surge à luz do dia. Não é a obra que justifica, mas a fé que a enraíza em Deus.

“Os homens não se podem justificar diante de Deus com seus esforços, seus méritos e suas obras, mas sim gratuitamente, por causa do Cristo e pela fé”4.


1 CALVINO, Institution chrétienne, I, Cap. XVI, ed. J. D. Benoit, p. 225.
2 CALVINO, op. cit., p. 229.

3 Idem, p. 231.

4 Confissão de Augsburgo.



FOUCAULT, Michel. História da Loucura. São Paulo: Editora Perspectiva, 1972,





Michel Foucault (1926-1989) foi um filósofo, teórico social, filólogo e crítico literário francês, um dos mais influentes e controversos filósofos do período pós-guerra. Em 1959 defende sua tese de doutorado na École Normale Supérieure com “História da Loucura da Idade Média”. Na obra, Foucault destrói a separação tradicional entre loucura e razão. A leitura da obra Primeira Meditação de Descartes levou Foucault a acusar o autor a duvidar de tudo, exceto de sua própria sanidade. Nesse mesmo ano, Foucault conhece Daniel Defert, um estudante de Filosofia, 10 anos mais novo que ele. Os dois tiveram um relacionamento que veio durar 25 anos. Entre os anos de 1960 e 1966, leciona na Universidade de Clemont-Ferrand, na França. Sua obra “A Ordem das Coisas” (1966) destacou Foucault como um pensador original e controverso. Em 1969 publica “A Arqueologia do Saber”. Em 1975, Michel Foucault publica “Vigiar e Punir: o Nascimento da Prisão”, uma monografia, em que critica a prisão moderna. O filósofo também criticava a Psiquiatria e a Psicanálise tradicional, segundo ele, instrumentos de controle e dominação ideológica. Faleceu em Paris, na França, no dia 25 de junho de 1984, vitimado pela AIDS.