sábado, 30 de janeiro de 2016

A regra - Daniel Russell Ribas



A regra


Ela sempre foi clara e inviolável. Nunca mijar fora do vaso. “Isto é nojento!”, esbravejava. Então, com toda boa vontade, mirava na água. Ainda assim, acidentes ocorriam. E a quantidade não importava. Apenas uma gota era o necessário para a tempestade vir. “Porra! Tenho cara de doméstica? Gosto da casa limpa, tudo arrumado no seu lugar, aí você chega e emporcalha tudo!” A porrada comia, esta parecia ser a regra real.

Tudo no seu lugar, bem ajustado: gota fora, cacete adentro. 

Anos e a regra, que não era dita, era tão clara quanto aquele xixi depois de beber muita água.

Uma noite, cheguei bêbado. Tava puto e tomei todas. Da branquinha, desceu bem e queimando. “Porra, tá fedendo a cachaça!”, escutava na cabeça num contínuo monótono e agudo.

Encarei a privada e saquei minha pistola, como um caubói de faroeste italiano. E girei o bicho em alta velocidade. Mijei a porra do banheiro todo. Gargalhei alto, como um cientista louco. Ela chegou à porta, de boca aberta. Olhei fundo e sério. Declarei:

- Agora, a regra não é clara. É amarela!


Conto escrito para o encontro de 19/01/2016


 

Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura” (http://clubedaleiturarj.blogspot.com.br), que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Publica crônicas quinzenalmente na revista “Rubem” (https://rubem.wordpress.com). 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Recordar - André Salviano



Recordar

Minha memória é baú velho, empoeirado. Às vezes dá vontade de abrir e brincar com o que tem dentro, noutras apenas o esqueço em um dos cantos da casa por dias, meses. Minha avó dizia pra eu só voltar ao passado se necessário, era uma mulher pragmática, que tanto me ensinou. Às vezes é preciso abrir a tampa para enfiar algumas coisas lá dentro, e nessas horas, mesmo que eu queira recordar, evito remexer no que já lá está. Foram tantas as dores na infância: de dente, ouvido, queimaduras, ralados, da solidão, o medo do escuro. Voltar nunca é tão bom, voltar é complicado, ainda mais agora, mas também é, como diz o mestre Paulinho da Viola, quase sempre partir para um outro lugar. E de que lugar eu falo agora? Será que tudo que se acumulou nesse baú ao longo dos anos me define, ou tenha me formado? Eu falo pra mim? Pra quem já me deixou? Pra algum dos espelhos que se espalham por onde passo e me reflete? As dores de cabeça eram curadas com rodelas de batatas inglesas, que ficavam pretas depois de um tempo, eu achava estranho passar minha dor para um legume, mas minha mãe apenas dizia para deitar na cama e relaxar, quarto a meia-luz, o dimmer controlando a escuridão. Assim que a dor passava, eu gostava de ficar olhando pras telhas de cerâmica que se espalhavam apoiadas em madeiras, lendo o que estava escrito nelas: o nome da olaria, o ano de fabricação da telha, de que cidade vinham — geralmente de Itaboraí. As casas dos meus amigos eram feitas com laje, e eu ficava com pena deles, porque ao se deitarem, seus tetos não lhe contavam história alguma. De todas as feitiçarias que minha mãe fazia pra me curar de minhas dores, a que mais me marcou foi quando tive dor de ouvido. Penso que a dor de ouvido só perde para a de dente. Eu chorava, não conseguia falar sem doer, tinha menos de onze anos, acho, minha mãe me olhava com ternura, sentia pena de mim, mas não se abalava com meus gritos e lamúrias, ela sabia o que precisava ser feito, dizia serena: “Deita, filho, mamãe já vai fazer essa dor passar, fica quietinho, já volto”, ia até a cozinha e retornava com um chumaço de algodão meio amarelado, e enfiava no meu ouvido, morno e molhado, era o que eu sentia, passavam-se uns minutinhos e meu suplício perdia toda a dimensão de antes, a dor se reduzia a quase nada e eu acabava adormecendo com os afagos da minha mãe em meus cabelos, que cantarolava algo baixinho, mas do mantra que se repetia a única palavra que consigo lembrar até hoje é azeite.

Meu baú carcomido pelo tempo também tem outras palavras, outros sabores. Ainda assim fico dias sem abri-lo, ou mesmo passar por ele.

─ Senhor, sua Salada Niçoise.

─ Por favor, não esqueça meu azeite predileto.

─ O Venta del Baron, senhor?

─ Sim.

─ Trago agora mesmo.

─ Obrigado.


Conto escrito para o encontro de 19/01/2016





André Salviano é formado em Letras pela UFRJ. Já participou de algumas antologias, prosa e poesia, mídia impressa e eletrônica, como o Prêmio UFF de Literatura 2009, categoria conto, e o e-book Não é só por 20 contos (http://www.skoob.com.br/files/ebooks/20-contos.pdf). É um dos fundadores do blogue Confraria dos Trouxas (confrariadostrouxas.com.br), onde escreve todas as terças desde 2010. Admirador da alma feminina. Torcedor do Flamengo. Sempre que pode bate ponto no Maraca. Gosta de suco de melancia e do pôr do sol no Arpoador. Não dispensa um chopinho regado a bom papo. Mora em Laranjeiras, mas vive na Lapa.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Nascimento - Walter Macedo Filho



Nascimento


Assustei quando minha tia perguntou o que eu fazia sentada com as duas mãos entre as coxas, as palmas abertas e viradas para fora a massagear minhas virilhas num vai-e-vem automático, desce-e-sobe ritmado. Não era eu. Era meu corpo. A imagem congelou: ele tirava a camisa, o cinto frouxo fez a calça escorregar parando em diagonal, abaixo da cintura. O que eu não via, imaginava.

Saia daí. Deixe seu pai terminar de se arrumar.

De uma só vez descobri o desejo, o pecado e a culpa. Eu faria 12 anos dali a três meses. Ele olhou para o canto onde eu estava e lançou uma piscadela para mim. Nunca mais me foi possível ver o torso despido de um homem sem que aquela imagem viesse em relâmpago à minha cabeça.

No começo eu tentava reprimir de qualquer forma, fosse negando, fosse desfazendo relacionamentos que ainda estariam para se formar só porque tinham alguma relação com o que vi naquele momento. Passados os anos, cedi.

Na primeira semana que parei de resistir, os sonhos foram contínuos. Noite após noite, eu despertava assustada, suada e saciada. A cada novo sonho tudo se repetia, do princípio ao fim, em cenas variadas e ricas nos detalhes. Os odores e perfumes, sabores e sons eternizavam-se no ar abafado do quarto escuro por aqueles instantes longos e confusos em que eu tentava me localizar de volta neste mundo.

Roberto não se parecia em nada com meu pai. No mapa do meu desespero foi a trilha que escolhi para fugir de mim mesma. Condenei-me àquilo. Sair, comer alguma coisa, assistir um filme, eram momentos divertidos, suportáveis. O contato físico porém me destruía.

Quando ligaram da empresa onde ele trabalhava para me avisar o que tinha acontecido, foi um grande alívio. Já no hospital, tentei disfarçar o quanto pude a indiferença ao receber a notícia da sua morte. Apenas limitei-me a perguntar se ele havia sofrido, mas não me lembro da resposta.

Renata nunca tinha me abraçado daquele jeito. O fato de ser irmã de Roberto, e portanto, minha cunhada, fazia de nós parentes, quase irmãs. E eu a tratava dessa maneira, com a frieza habitual com que agimos com as pessoas mais próximas. O abraço de consolo que me deu ao saber da morte do irmão e da minha nova situação de viúva fresca rompeu a barreira da nossa indiferença mútua. Senti os seios mais volumosos que os meus espremendo-se em mim. Demoramos na conversa de corpos, que nunca havia acontecido. Tateei suas costas e fui correspondida. Empurrei-a contra mim e repousei meu nariz sobre seu ombro. Seu perfume fundia-se com o suor delicado. Um conforto percorreu minha nuca. Não entendi suas palavras, ditas no tom-sussurro que há nos votos de pêsames. Traduzi da maneira que me era conveniente. Fechei os olhos e suspirei fundo. Nascia o amor.

 
Conto escrito para o encontro de 19/01/2016




Walter Macedo Filho é dramaturgo, jornalista, roteirista, escritor e gestor cultural. Integrou o Círculo de Dramaturgia do Centro de Pesquisa Teatral, coordenado por Antunes Filho. Como gestor cultural, atuou no SESC São Paulo, Arena Carioca Dicró, Biblioteca Parque Estadual e Instituto Augusto Boal. Publicou seu primeiro livro de contos, Nebulosos, pela Editora 7Letras. Atualmente escreve o roteiro para o novo filme do diretor Paulo Thiago após ter desenvolvido o argumento.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Colher de chá colher de sopa - Fernando Andrade



Colher de chá colher de sopa

Uma colher de sopa. Uma colher de chá. Entre elas uma xícara. Mãe e Pai duas colherinhas de azedume. Ali no ressonar das 10 da noite, boa, era só se eu e Manu se escovássemos os dentes. Era o critério das fadas, era o período dos mitos, uma correia serve à calça, mas também à corsa. E a correria por volta da mesa buscando uma colher de chá, vamos Manu às brincadeiras? Colher de pau esperando na sala de estar. Onomatopeia AU saindo da boca de nós duas. Chá de espera, pai pedindo, mãe suplicando, Manu no vaso fazendo plantas da casa. Arquiteta essa Manu! A sopa está vindo, e os sopapos vem atrás, A borda da cama, lugar do repique, A rebarba de mais um tempinho, a rebordosa do conhaque do pai, afetuoso este progenitor quando toma este seu pileque. Dia redivivo, escola tortuosa.

É dia de sábado ou domingo? Ler um pouco debaixo das cobertas, a ausência da presença do rosto da mãe, a palavra do pai numa oração substantivada. A quadratura dos tacos, a porta aberta do lavabo, ninfas no chuveiro, água do enxague da pasta de dente, som da TV sendo dizimado por um pio de pássaro, e rodopio de dança, Passo numérico, 1 e 2 são quatro, não é o quarto. Roupa no varal, dia chuvoso, vestes ensopadas, castelo trevoso, dia e noite de sonhos.

Bala de hortelã, estórias com elásticos, conta barba azul, conta cinderela, baita divisa entre os gêneros contos e poemas, assim como as pernas de Manu e Paulo. Início da partes pudendas, início dos adendos nos diálogos sobre namoro, falar dos meninos, são precipícios, vontade de ir fazer xixi, volta ao corredor assombrado, luz da cozinha, tudo é renitente e um pouco reticente. Ando de mãos dadas com Manu, Antuérpia é um lugar onde existem bandolins, linhas e trens.     


Conto escrito para o encontro de 19/01/2016




Fernando Andrade tem 46 anos, é jornalista e poeta. Trabalhou por 10 anos com livreiro e hoje trabalha na Biblioteca Parque Estadual. Participa de dois coletivos : Caneta Lente e Pincel e Clube da Leitura. Escreve para o site Ambrosia resenhas de Literatura. Tem dois livros de poemas lançados pela Editora Oito e meio, “Lacan por Câmeras Cinematográficas” e “Poemometria”.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Fatal Rendezvouz & consequência - Márcio Couto




Fatal Rendezvouz & consequência


Deram-me o nome de Euríale, nome de medusa, aquela que vive ao largo, que ao largo se embriaga, ao centro se atravessa, residindo na fronteira de si, evitando a córnea de oblívio onde um dia se extinguirá, e Euríale sou desde então, perdida no outono de meus pesadelos, e desregrada envergonhei mamãe, quem se chamava Atena, quem achou engraçado dar à filha o nome da terceira das górgonas, cuja beleza a deusa da sabedoria amaldiçoou por não suportar a enorme semelhança que partilhavam, e mamãe me detestava por minha curiosidade de cortesã, e me limpava a baba de creme de abóbora por obrigação, vendia as roupas do corpo por fraldas não por amor mas porque via em minhas pernas borradas de merda o crime pelo qual jamais receberia indulto, quando me enlaçava os cachos e me despejava cânfora na nuca não era para me ver livre da febre e ranho mas para sentir-se no controle de algo, tornei-me livre assim que soube como amarrar os sapatos, como deslizar de prancha na areia molhada, como fazer das misturas de shampoo e condicionador um elixir da juventude, como defender minhas onze fazendas de doces e sabonetes no reino dos meus sonhos, e hoje frente outra vez a estas paredes de tinta descascada ainda enxergo contornos de arranha-céus e cordilheiras cisalpinas, e hoje superada esta casa ainda guardo o dia em que beijei Eulália na virilha para sentir o sumo azedo de sua menstruação vencida, foi horrível, foi maravilhoso, sobretudo ao me contorcer com seus dedos ágeis me acariciando os intestinos e rodopiando em minha alma como fadas de fogo no epicentro de um furacão, e vivi três anos entre Pothos e Himeros e sobrevivi a cada acesso de orgulho de um e histeria do outro, e os abracei e fiz deles um adendo de meu coração, como um apêndice dourado enroscado ao pescoço, sufocando até o oxigênio explodir as vísceras, quando adulta meus buracos de agulha abriam e fechavam para o próximo pico, ávidos por um segundo idêntico a quando na adolescência os alimentava com fenilciclidina e fenobarbital dissolvidas num lago dourado, amparadas na concavidade de uma colher, a sopa de néctar abria caminho pelas veias levando a palavra do messias Nosso-Senhor-Jesus-Cristo-dos-Bastardos-Sem-Pai-Nem-Mãe-Tampouco-Consciência aos mil cavalos das sombras vagindo demolidos em meus pulmões, os pés distantes do chão e calibrados por um mosaico de penas de Estínfalo, e esfregava a língua seca no teto da igreja para sentir-me novamente parte do plano divino, e a igreja tremia de gozo onde quer que minha língua tocasse, gozava com os anjos e as freiras e os trezentos milhões oitocentos mil quinhentos e setenta e quatro apóstolos mortos na sacristia, um para cada vez que o padre me arrastou ao confessionário, e mamãe esqueceu de meu décimo nono aniversário pois tinha de deslocar as estantes com porcelana germânica da antessala do escritório até o vestíbulo, isso porque lá a luz do sol não esturricava a tinta dos quatorze pratos seculares, e o vidro não superaquecia correndo o risco de rachar, só que nossa casa era tremendamente fria, da glacialidade das mãos de um homem santo, às vezes da clarabóia do meu quarto dava pra ver as estrelas durante o verão ou equinócio, mas nem sempre, pois havia meses em que as nuvens se fechavam numa treliça de gás púrpura, era bonito mas assassinava a visão do estrelário norte, do Quadrante de Virgem, de Cassiopéia e das bilhões de anãs e nebulosas emboscando Andrômeda no regaço escuro onde se esconde o massivo buraco negro que a sugará um dia, por que acha que o botão vai pular, Adonis? não é assim tão difícil vai, ah! mas cê é muito teimosa, Euríale! falei que cê tava gordinha e tudo, por que nunca me ouve? para de bobagem, não sou gordinha, sou saudável, né mamãe? mamãe? onde será que pus minha camisola de seda? manhê! o que? ah! o que você quer, Euríale? a senhora me acha gordinha? ah! tanto faz, menina! vuuuussshhh!!! fazia o vento sob o vestido nos cultos dominicais de inverno, os garotos viam minhas pernas roliças e babavam, mas eu só queria Eulália, e quando mamãe Atena descobriu, foi um pega-pra-capar correndo solto nas cercanias de meudeusdocéuláondeeumoravaesquinacomfazdeconta, e me viravam de ponta a cabeça e me penduravam no galho do álamo da varanda e me rasgavam o couro com vara de marmelo e só depois que minhas coxas desenhavam uma zebra de sangue o padre me tirava da forquilha, daí eu voltava pra casa e me trancava com algum menino estúpido no quarto e o exibia meus lábios internos e ele vomitava uma gosma ocre rajada de violeta que espargia por meus tornozelos, minhas canelas, e por cada centímetro cúbico do azulejo de porcelanato do quarto, então a senhora-minha-mãe-deusa-de-todas-as-porcelanas-e-odiadora-de-todas-as-górgonas me enfiava o cacete duas vezes, uma pela imundície no chão e outra pela imundície entre minhas pernas, então meus desejos recuavam às frestas do guarda-roupa, ofendidos e esquálidos, mas hoje destas mesmas paredes só escorrem sonhos, mamãe me estendeu a mão há duas horas me olhando fundo com seus olhos de miosótis e dragão, entrevada num resto de esponja e mola, como se fosse um monolito de medo, e contraiu os lábios pedindo para que eu a limpasse a urina, secasse sua baba, lavasse sua merda, banhasse suas costas... Um tumor de silêncio floresceu entre nossos lábios, daí lembrei de sua frase favorita: ‘a vida é um osso na garganta: e arranha porque a gente engole seco’. Por fim, Atena me segurou a mão e disse: filha minha, górgona de meu ventre, olhe para mim e faça-me pedra.

Conto escrito para o encontro de 19/01/2016



Márcio Couto faz livro, arrisca poesia, e vez ou outra é pintor. No Rio nasceu e se desfolhou feito planta, só que diferente.