quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Rola alheia - Igor Dias



Rola alheia
                                                
(A cena é protagonizada por Cadu e Celina, durante um café da manhã. Ao longo da cena, Celina passa de um estado tranquilo ao de uma preocupação verdadeira, com rompantes histéricos. Cadu sustenta durante a cena inteira uma postura dúbia, confundindo o espectador entre a seriedade e o sarcasmo. O diálogo, que deverá ser lido por duas pessoas, começa pela fala de Cadu)

- Celina, não vai tomar café hoje?
- Já vou, amor.
- Olha, eu pensei muito por esses dias no que você me disse. Acho que podemos negociar a rola alheia.
- Sério, Cadu?
- Sério. Tenho tentado me convencer de que a monogamia é só mais uma coisa culturalmente imposta pela sociedade opressora e blablablá.
- Nossa, Cadu. Obrigado, não sei nem o que dizer. Acho que eu não esperava por isso.
- Você agora tem a liberdade de procurar na rua a rola que você quiser. Pode escolher: rola grossa, rola fina, rola veiuda. Agora você é livre pra ter o seu próprio canavial de rola. Nada vai mudar entre a gente.
- Você tá me sacaneando?
- Claro que não. Eu tô tentando instituir com você esse novo passo na nossa relação, o acordo da rola alheia.
- Como assim? Nao vai ter nenhuma contrapartida? Você não quer liberdade também?
- Claro, ué! Nesse acordo que a gente tá fazendo, a rola alheia passa a ser um direito natural e inalienável de cada um dos membros do casal. Portanto, eu também passo a ter acesso a todas as rola alheias que eu quiser.
- Rarrarrá!
- O que foi?
- Você não gosta de rola, Carlos. Ou gosta?
- Ué, não sei. Nunca experimentei.
- E você pretende experimentar?
- Mas é claro! Por que não? É um direito meu. Aliás, um direito nosso.
- Carlos Eduardo, não estou gostando desse acordo. Não consigo imaginar o meu marido por aí na rua com outro homem, isso é uma estupidez. Não quero negociar mais isso. Eu achei que você fosse querer negociar transar com outras mulheres.
- Não, Celina. Esse não é o acordo do casamento aberto que você viu naquele encontro do poliamor, nem aquele outro que a Kátia fez com o Tiago. Esse é um acordo da nossa relação, particular, só da gente. É o acordo da rola alheia, do jeito que você quis.
- Eu não quis isso.
- Claro que quis. Você falou da liberdade de ter a rola que você quiser. Só estou estendendo essa liberdade a todos os membros do casal.
- Cara, você tá louco.
- E você, não?
- Eu não. Eu só queria a rola de outras pessoas.
- E você acha que aceitar esse tipo de acordo é fácil pra mim?
- Ué, sei lá. A gente pergunta, né...
- Celina, eu preciso ir trabalhar. Não tenho mais tempo pra ficar te ouvindo. Vai correr atrás das suas rolas que eu vou correr atrás das minhas.
- Cadu, não faz isso.
- Isso o que?
- Correr atrás de rola.
- Traz pra casa o cara que você pegar.
- Oi?
- Isso, traz pra casa. Viu na rua e achou legal, se tem uma rola bonita, maneira, traz pra casa.
- Hã?
- Isso, a gente pega o cara junto.
- Cadu, para com essa merda!
- Você que começou.
-  Não vai ter acordo nenhum!
- Mas, Celina? E aquele papo que a gente estava tendo? A gente estava evoluindo tão bem... Olha, são três bilhões e meio de rolas no mundo. Se a gente dividir entre a gente, sem pegar a  rola que o outro pegou, dá pouco mais de um bilhão e meio de rolas pra cada um. Dá pra ficar tudo certo entre a gente, sem ciúmes.
- Não quero bilhões de rola, seu bobão, eu quero uma só.
- Eu também quero uma só. Pra começar de leve, sabe. Só ainda não decidi a de quem. Você tem alguma sugestão de rola alheia pra me dar?


Conto escrito para o encontro de 09/11/2015
  



Igor Dias nasceu no outono de 1987, na cidade do Rio de Janeiro. Participa dos coletivos literários "Clube da Leitura" e "Caneta, Lente & Pincel". É autor dos livros "Além dos Sonetos Breves" (poesia)  e "Dinamarca" (contos) ambos lançados pela Editora Oito e Meio em 2012 e 2015, respectivamente.

domingo, 15 de novembro de 2015

Mote do encontro (28/ 11/ 15)



Mote lido por Walter Macedo Filho
 

Carta de Graciliano Ramos para a irmã Marili


Rio, 23 de novembro de 1949.

Marili: mando-lhe alguns números do jornal que publicou o seu conto. Retardei a publicação: andei muito ocupado estive alguns dias de cama, a cabeça rebentada, sem poder ler. Quando me levantei, pedi a Ricardo que datilografasse a Mariana e dei-a ao Álvaro Lins. Não quis metê-la numa revista: essas revistinhas vagabundas inutilizam um principiante. Mariana saiu num suplemento que a recomenda. Veja a companhia. Há uns cretinos, mas há sujeitos importantes. Adiante. Aqui em casa gostaram muito do conto, foram excessivos. Não vou tão longe. Achei-o apresentável, mas, em vez de elogiá-lo, acho melhor exibir os defeitos dele. Julgo que você entrou num mau caminho. Expôs uma criatura simples, que lava roupa e faz renda, com as complicações interiores de menina habituada aos romances e ao colégio. As caboclas da nossa terra são meio selvagens, quase inteiramente selvagens. Como pode você adivinhar o que se passa na alma delas? Você não bate bilros nem lava roupas. Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne. Além disso não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos. E você não é Mariana, não é da classe dela. Fique na sua classe, apresente-se como é, nua, sem ocultar nada. Arte é isso. A técnica é necessária, é claro. Mas se lhe faltar técnica, seja ao menos sincera. Diga o que é, mostre o que é. Você tem experiência e está na idade de começar. A literatura é uma horrível profissão, em que só podemos principiar tarde; indispensável muita observação. Precocidade em literatura é impossível: isto não é música, não temos gênios de dez anos. Você teve um colégio, trabalhou, observou, deve ter se amolado em excesso. Por que não se fixa aí, não tenta um livro sério, onde ponha as suas ilusões e os seus desenganos? Em Mariana você mostrou umas coisinhas suas. Mas – repito – você não é Mariana. E – com o perdão da palavra – essas mijadas curtas não adiantam. Revele-se toda. A sua personagem deve ser você mesma. Adeus, querida Marili. Muitos abraços para você.
Graciliano.

P.S.: Você com certeza acha difícil ler isso. Estou escrevendo sentado num banco, no fundo da livraria, muita gente em redor me chateando.
                            



Graciliano Ramos nasceu na cidade de Quebrângulo, Alagoas, no dia 27 de outubro de 1892. O romance "Vidas Secas" foi sua obra de maior destaque. Suas obras embora tratem de problemas sociais do Nordeste brasileiro, apresentam uma visão crítica das relações humanas, que as tornam de interesse universal. Morreu no Rio de Janeiro, no dia 20 de março de 1953.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Terça em dobro - Poliana Paiva



Terça em dobro


Ele era aquele tipo que dá um suadouro só de olhar. Um sorriso, umas  mãos enormes, uma pegada rústica. Não sei se o bofe era tão magia assim ou se o encantamento tinha a ver com o último dia de carnaval. Só sei que tudo nele exalava  luxúria e purpurina. Se desse mole, ele tinha purpurina até no cu. Eu não me importava com nada. Ele era todo dourado, todo suado, todo enamorado de minha pessoa. Volta e meia, entre uma pirocada e outra, lembrava de uma amiga que sempre me falou pra passar carnaval na Bahia, mas eu não perdia por esperar. Não tinha noção do que vinha pela frente. Ou melhor, do que vinha por trás.

Fui precisa, escolhi um cara que era praticamente um profissional da alegria: aquela boca, quando não estava me beijando, só sorria. Um sorriso com tantos dentes que me fazia pensar apenas em mordidas. Eu estava que era pura libido. Meu lindo lago do amor já tinha virado bacia hidrográfica de tanto que eu estava animada. Uma hora, não sei se por efeito do capeta que tinha tomado em doses industriais, tive a impressão de ter visto um cara igualzinho ao meu ébano-maravilha bem do nosso lado. “-Esse é meu irmão gêmeo”, ele disse, com aquele sotaque de amolecer manteiga. Na hora tentei disfarçar minha alegria, mas o baiano sacou e não perdeu a oportunidade de me provocar: “-Ele tá louco pra lhe conhecer.”

Nessa hora entendi que perderia meu cu. Nasci na Tijuca, sou contra desperdício. Como dispensar dois irmão gêmeos? Não dispensei. Apenas pedi que parássemos numa farmácia para comprar KY, pois, pelas leis da genética, eu estava prestes a pegar outra lapa de tabasca com a espessura de uma lata de cerveja. Não vou agora dizer que não tive medo: “-Meu cu é virgem e só de imaginar me dá vertigem”, disse a eles a caminho do motel. Sensibilizados, me arrumaram um cigarrinho de artista, pra que eu pudesse relaxar. Relaxada, deixei os dois irmãos fazerem de mim túnel. Abri passagem. E, definitivamente, não perdi a viagem.

Porque antes de existir computador existia a tevê. Antes de existir a tevê, existia luz elétrica. Antes de existir luz elétrica, existia a D.P. Foi a primeira coisa que surgiu.

Um gemido que ninguém ouviu.


Conto escrito para o encontro de 27/ 10/ 2015




Poliana Paiva é formada em Cinema pela Uff e em Teatro pela Cal. Dirigiu e roteirizou 4 curtas, foi roteirista dos programas de auditório 'Esquenta' e 'Papo de Mallandro' e, no momento, escreve seu primeiro longa, uma série para tv e uma série pra web. Foi publicada em duas coletâneas de novos autores e selecionada no concurso 'Poema nos ônibus e nos trens', promovido pela prefeitura de Porto Alegre. Fora isso, integrou as exposições 'Liberte a literatura' (2012), no Centro Cultural da Justiça Federal e 'Caneta, Lente e pincel', no subsolo do Monumento a Estácio de Sá (2013) e no foyeur do MAM (2014). Sua página no facebook, www.facebook.com/romanticuzinhos, tem mais de 20 mil seguidores e a ideia é transformá-la em livro até 2016.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

A Cereja do Bolo - Gustavo de Souza



A Cereja do Bolo


- “Damião não tem no cú o que a periquita roa, minha filha” – ela disse, quando Nana de preparava para sair. – “Você arrumava coisa melhor”.

- “Você não sabe de nada, madrinha.” - respondeu Nana, mandando um beijo e fechando a porta. É verdade que Damião não tinha onde cair morto, nem ambição que pudesse modificar a sua situação no mundo. Só que Nana era mulher de um outro tempo. Jamais aceitaria ser sustentada por homem nenhum. Apesar de jovem, ela ganhava bem e parecia que iria atravessar a crise sem muitos sobressaltos. Fizera as escolhas certas. Gostava de dormir na casa de Damião, que na verdade era uma parte de casa em Santa Tereza. Aquele contraste da vida lenta do alto com o mundo corporativo lá embaixo onde ela passava seus dias, lhe fazia muito bem. Além disso, Damião era uma caixinha de surpresas. Quem o visse nas roupas alternativas que ele usava não conseguia imaginar o corpo que elas escondiam. Magrinho de dar dó, ele era na verdade um falso magro, com a musculatura definida pela Ioga, praticamente sem gordura, graças à macrobiótica. Fazia um sexo ótimo, bastante criativo e, a cereja do bolo, nunca tinha pedido pra bater bola atrás do gol. Sim, por que isso para Nana era fundamental. Era uma resolução de vida. Nunca se envolveria afetivamente com um homem que gostasse de cú. Para ela, homem que gosta de cú, mijou sentado e não é sapo, tá comendo. Cú é cú. As amigas riam muito e diziam que ela era louca. Não ligava. Era assim e pronto. Naquele sábado, depois do almoço com a madrinha, foi à casa de Damião e como ele não atendeu a porta, usou sua chave e entrou. Nenhum barulho. Foi até o quarto. A porta estava fechada. Abriu. O quarto estava escuro. Ouviu a respiração de Damião. Foi até a janela e abriu as cortinas. Damião estava só, dormindo de bruços, totalmente nu. O sol da tarde entrava enviesado no quarto e lhe iluminava em cheio, a bunda. Nana observou a cena por alguns instantes. Achou a bunda de Damião  tão linda, tão branquinha, tão lisinha, que parecia uma bundinha de menina. Ela sentiu vontade de ter um pau enorme para enrabar Damião bem ali, naquele momento e isso lhe deu um tesão que ela desconhecia. E um medo, quase um horror, não sabia bem do que, que fazia o tesão aumentar ainda mais.Ela estremeceu. Tirou a roupa e deitou-se sobre ele, que despertou sem sobressalto. Se amaram como nunca antes, pelo resto da tarde.

A relação com Damião não durou muito mais tempo. Ele achou que ela estava ficando coxinha demais e a trocou por uma dançarina burlesca moderninha que morava no Catumbi. Seguiu pela vida sem ter no cú o que a periquita roa, mas dentro do possível, feliz. Nana precisou de mais ou menos uns dez anos de análise para fazer sentido daquilo tudo que se misturava dentro dela. Mais precisamente, foi só quando conheceu Karina, que era divorciada e tinha dois filhos. Foram morar juntas e Nana sentiu-se finalmente feliz, sem medo.


Conto escrito para o encontro de 27/ 10/ 2015




Engenheiro de Produção, amante inconstante e infiel da literatura, publicou um conto numa coletanea organizada por concurso pelo Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro em 1999.