quinta-feira, 29 de outubro de 2015

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Rodada (10/ 11/ 15)

Motes

(primeira rodada)

 


 



 



 


 

 

Escritor convidado Bolívar Torres fala de seu novo livro, "Não muito".

 


 

 



 



  



 

 

 


 

 



 

 


 


 



 



 



 



 



 



 





 


 


Contos

(segunda rodada)

 


 


 

 

 

 













 

 

Fotos por Luiz Alberto Benevides



terça-feira, 27 de outubro de 2015

Cem anos de solidão - Gabriel Gárcia Marquéz



Cem anos de solidão


Recomendação de leitura por Claudio PS


Numa noite de dezembro de 2013 fui presenteado com um exemplar. Muitas vezes fugi do livro, temendo me apaixonar e viver o luto do término da leitura, leitura essa que previ ser difícil por que as sequencias de aparecimentos de novos personagens me confundiam, desde os primeiros capítulos.

Uma amiga falou de uma genealogia disponível na Internet. Recusei silenciosamente. Milhões de leitores não a usaram, por que eu usaria? Não era presunção, mas eu queria testar a mim mesmo, passar pelo batismo de fogo.

Enquanto dirigia numa estrada mexicana, foi que Gabriel Gárcia Marquéz, vislumbrou a frase de abertura de “Cem anos de solidão”: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. Cien años de Soledad, mil novecentos e sessenta e sete. América Latina envolta em anos de chumbo. Era difícil sonhar. Marquéz sonhava e contava seus sonhos febris.

 A saga dos Buendía, por sete gerações, na qual o autor parece se divertir com nomes repetidos, uma narrativa repleta de personagens e situações fantásticas: José Arcadio, Úrsula Iguarán, a mulher que vive mais de 115 anos; José Arcadio Segundo, Maurício Babilônia, o mecânico, sempre envolto em uma nuvem de borboletas amarelas; ou o cigano Melquíades, com mãos de pardal.

O poderoso imã, xarope da invisibilidade, gelo fantástico, um navio abandonado, ciganos. Uma louca história. Ou várias histórias loucas?

O livro parecia me contaminar, numa febre insone. Não era como outros livros que se lê em duas semanas, aos poucos.

“- Quero ficar sozinho com você – dizia ele. – Um dia destes, conto tudo a todo mundo e se acabam os segredos.”
Ela não tentou apaziguá-lo:
“-Seria ótimo – disse. – Se estivermos sozinhos, deixamos a luz acesa para nos vermos bem, e eu posso gritar tudo o que quiser sem que ninguém tenha que se meter, e você me diz no ouvido todas as porcarias que lhe vierem à cabeça.”

E a febre seguia: Amaranta, Rebeca, Remedios, “Coronel” Aureliano, guerra, Aureliano Segundo, Fernanda, Petra, Meme, Amaranta Úrsula, sem se falar nos outros tantos não membros da família, a chuva de quatro anos, onze meses e dois dias, pergaminhos...

Mas a febre chegaria ao fim, depois de tantas lutas, histórias fantásticas, amores, desilusões, vivos e mortos.

E entrei em luto. Mas não para sempre.



sábado, 24 de outubro de 2015

O estranho - Walter Macedo Filho



O estranho

Tem gente que diz que eu sou um cara simplório. Esse pessoal acha que, na minha cabeça, só passam coisas do tipo “bom e mau”, “belo e feio”, “útil e inútil”, “rentável e não-rentável”. Não é bem assim. Na minha cabeça não existe tanta confusão. As coisas comigo são mais extremas. Estão divididas entre amigos e inimigos. Dou um exemplo: esse homem que apareceu na redondeza, faz pouco tempo; ele abriu um negócio aqui perto e eu não vejo problema. No fundo, o fato dele chegar por aqui está sendo vantajoso para mim. Já fiz bons negócios com o sujeito. Mas é meu inimigo.

Meu inimigo não precisa ser moralmente mau ou esteticamente feio. Isso não. Seria preconceito da minha parte. O que pega mesmo é o fato dele ser o “outro”, o “desconhecido”. É por isso que eu acreditei que haveria conflito entre nós. Comentei minha percepção com um vizinho. Ele disse que poderia me ajudar, pois se considera uma pessoa  “imparcial”. Tive que explicar, com cuidado, que não dava para aceitar a tal ajuda. Esse tipo de assunto só pode ser resolvido pelos próprios envolvidos.

A diferença entre amigo e inimigo deve ser entendida num sentido concreto. Não dá para tratar coisa tão séria com metáforas, símbolos… coisas de poeta. Tudo fica meio frouxo se levarmos para o lado espiritual ou econômico: de um lado, ele seria um “adversário nas discussões” e, de outro, um “concorrente”. Só isso. Eu diria que dá até para fingir que os inimigos não existem. Mas, isso aqui não é ficção.

Posso odiar alguém por antipatia. Não significa que seja meu inimigo. É o seguinte: inimigos são as pessoas que você combate, mesmo que seja um combate eventual, esporádico. Um adversário privado, particular, não é seu inimigo. Inimigo é somente o inimigo público. Espero sinceramente que tais diferenças desapareçam um dia da Terra, uma vez que há problemas de ordem sagrada: a Bíblia registra que o apóstolo Lucas teria dito “Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam”; e Mateus tascou “Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem”. Mas eu estou falando do “diferente”, do “estranho”, gente que deve ser combatida a qualquer custo.

Não trato do combate puramente intelectual. Não é a “luta simbólica” pois, de algum modo, toda vida humana é uma “luta” e todo ser humano é um “lutador”. Eu falo de guerra; meu combate é guerra. E guerra decorre da inimizade, da negação desseoutro ser”, desse “diferente”. A guerra entre eu e ele vai ser a realização extrema dessa inimizade. Meu combate tem a ver com arma, e o essencial no conceito de arma é que se trata de um meio para a morte física de pessoas.

Não preciso achar nossa guerra algo “normal”, “ideal” oudesejável”. Mas nossa guerra tem que existir como possibilidade real. Ao longo da vida, descobri que as pessoas não têm que ser eternamente minhas amigas ou inimigas. Mas, imagine um mundo no qual não existisse a possibilidade de combate ao “outro”, ao “estranho”, ao “diferente”; um planeta definitivamente pacificado, como defendia aquele músico que, aliás, foi assassinado. Seria um mundo sem a distinção entre amigo e inimigo. Imagine se esse músico pacifista tivesse conseguido convencer tanta gente, e que sua posição se tornasse tão forte a ponto de levar os pacifistas a uma guerra contra os não-pacifistas, a uma “guerra contra a guerra”. Imagine! Os pacifistas teriam uma vontade tão forte de evitar a guerra a ponto de não mais temer a própria guerra. Mas o músico foi morto. Fazer o quê?

Estou aqui, de arma na mão, prestes a resolver a questão. Deixei o “diferente” ali no quarto, desacordado. Não dá para confiar em quem confia demais em você. Ele confiou demais em mim. Deve haver alguma coisa errada. Vivia concordando comigo, aceitando tudo o que eu dizia, o que eu falava, o que eu pensava. Dá para desconfiar. Nos dias de hoje, temos que tomar muito cuidado. Aprendi essas coisas em casa, com a minha mãe, que sempre me dizia: não converse com estranhos.


Conto escrito para o encontro de 13/ 10/ 2015




Walter Macedo Filho é dramaturgo, jornalista, roteirista, escritor e gestor cultural. Integrou o Círculo de Dramaturgia do Centro de Pesquisa Teatral, coordenado por Antunes Filho. Como gestor cultural, atuou no SESC São Paulo, Arena Carioca Dicró, Biblioteca Parque Estadual e Instituto Augusto Boal. Publicou seu primeiro livro de contos, Nebulosos, pela Editora 7Letras. Atualmente escreve o roteiro para o novo filme do diretor Paulo Thiago após ter desenvolvido o argumento.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Alfa - Marco Antonio Martire


Alfa


Assumir a relação era para ela um problema. Acreditava em morar livre e só nesta parte do mundo, compartilhando a rotina com um cachorro parceiro e amigo. Morava por aqui longe dos pais e do irmão. Tinha família grande, tios e tias e primos, moravam longe também. Cuidava de um carro novo, usava para trabalhar, só para o trabalho, gostava de ônibus e metrô.    
                       
Passeava com o cachorro quando conheceu o Vitor. Conversou com o rapaz primeiro por quinze minutos, na calçada do meio de semana, o tráfego muito intenso, som de tráfego e canto de cigarras. Não resistiu, ele pediu e ela aceitou sua amizade no facebook. Conversaram muito online, à tarde e à noite e pela manhã. Descobriram preferências de um e outro devagar, havia um clima de romance no ar, mas ela foi levando com calma. Havia livros e séries de tevê, havia celulares e tablets, havia os amigos da vida e da internet.

Vitor era sem dúvida seu amigo da internet. Os dois brincavam muito pela rede, o cachorro dela junto da cama quando ela dava risada. Começou a reencontrar Vitor pessoalmente na rua, por acaso repetiam bastante o mesmo encontro da primeira vez, o passeio com os respectivos cães de estimação. Ela com o macho e ele com uma fêmea. Sem timidez. O passeio era bonito. 

Mas o tempo passou e a relação dos dois não avançou, permaneceu a mesma. Quando questionada, ela respondeu que achava aquela relação muito natural. Óbvio que pela internet se falassem mais, à distância se entendiam melhor, ela estava na casa dela, deitada na cama dela. Não podia simplesmente enfiar a cama no meio da rua.

Não é verdade que fosse dessas que se trancam em casa, não era dessas. Tinha boas amigas, saía à noite, se divertia, ficava com os carinhas, transava. Sempre em motéis, ainda que os lençóis não fossem os da sua cama. Sua vida era de uma cordialidade branda: cumprimentava conhecidos na rua, cumprimentava o porteiro. O porteiro já fizera inclusive serviços preciosos em seu apartamento.

Mas Vitor fazia questão de ser um problema.

Ela não sabia o quanto deveria ceder.

Já moravam no mesmo bairro, eram vizinhos. Vitor precisava de muito mais que uma caminhada com os cães, precisava ser homem também ao lado dela, certamente queria entrar na casa dela, estar na cama dela. Era uma ideia que a aborrecia. Em sua casa tinha apenas um banheiro e a ideia de compartilhá-lo com um homem não lhe agradava. Compartilhar a senha de sua rede wi-fi também não. Compartilhar cozinha, compartilhar cama e tevê também não.
Liberdade é um lance bom. Ela decidia por si o que jantar, o que assistir na tevê, quando sair, que postagem curtir. Vitor vinha e mandava nessa liberdade toda, precisava demais de muito, queria invadir e conquistar o seu território. Ela decidiu dar uma chance ao rapaz. Deu para ele. No apê dele, a cadela latindo horrores, foi uma loucura legal. Gastaram umas semanas compartilhando aquele espaço, transaram muito naquele apê, o que a fez acreditar que a relação tinha jeito.
Foi engano.

Ela sempre ia embora quando queria, o cachorro a esperava em casa e Vitor bancava o chato, sempre reclamava. Precisava que ela e o cachorro se mudassem para o seu apartamento. Precisava. Precisava. Ela detestou a proposta, não desistiria de um lar que era tão seu. Nem por causa de sexo bom entre quatro paredes.

Resolveu: parou de compartilhar. Parou de compartilhar onde trepavam, parou de compartilhar o apê dele, parou enfim pelo celular. Não respondeu a qualquer mensagem. Ele também parecia não estar mais tão a fim. Talvez ela transasse mal.

Não se viram de novo. Pela internet se estranharam em algumas postagens. Nada que rendesse um bloqueio. Ela passou a passear com o cachorro em outra rua.


Conto escrito para o encontro de 13/ 10/ 2015



Marco Antonio Martire é carioca, formado em Comunicação pela UFRJ. Já publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar” e a novela “Cara preta no mato”, esta em ebook pela Saraiva. Escreve crônicas para a Rubem (www.rubem.wordpress.com) e resenhas para o Cabana do Leitor (www.cabanadoleitor.com.br). É fã do Clube da Leitura.