segunda-feira, 31 de agosto de 2015

eutanásia - André Salviano



eutanásia

estava triste. ensimesmada. lembrou de quando ia na casa da vó ceiça e era recebida com aquele delicioso feijão caudaloso, ovo frito na banha e arroz. ou da mãe ligando pra saber se estava tudo bem, e de como estava a terapia. sentia-se fraca. pensou tanto sobre qual seria a melhor opção e só uma se mostrava eficaz. o que os amigos iam pensar, e a família, vó ceiça não passaria por isso, não está mais entre nós, mas e o tio augusto. meses se passaram desde que começou a ler artigos sobre o assunto. cada vez mais abatida. seu pai talvez sequer ligasse quando recebesse a notícia, os primos iam tentar convencê-la do contrário. o prazo. decidiu que trabalharia em cima de um, e de que não arredaria o pé, era a vida dela, porra. aliás, quantas vidas né. essa era uma das angústias, a falta de unidade, ser tão fractal, identidade se perdendo. não tinha mais como viver assim. por isso foi preparando o terreno gradativamente, desde que leu o artigo que sanou todas as suas dúvidas. faria. seria doloroso, mas não voltaria atrás. esperava pelo melhor momento pra anunciar. a quem primeiro. mãe, irmão, primos, namorado, amigos, tio augusto. não sabia, será que anunciava a todos de uma vez só. sorriu de nervoso.

foi como imaginara, chiadeira de tudo quanto foi lado, pediram para que não fizesse isso, mas estava dentro do cronograma, foi um comunicado, não um pedido de permissão ou uma pesquisa, tudo ocorreria dentro do prazo estabelecido. ponto final. só a ana, amiga do trabalho, entendeu e deu força. a mãe estava desconsolada. o pai não disse nada. os primos não sabiam o que dizer pra dissuadi-la. o namorado a abraçou bem forte e mesmo com dificuldades, concordou. já o tio augusto de tão gente boa que era, apenas perguntou a ela se tinha certeza.

o dia chegou. dezoito de agosto de dois mil e quinze. acordou se sentindo uma nova pessoa. ia poder ser mais livre, pensou. e tomou o café da manhã repetindo o pão francês, que quentinho derretia a manteiga. no demorado banho, cantava apesar de você aos berros. pegou as chaves, entrou no carro e dirigiu até a clínica. passou pela recepção sem falar com ninguém, já na sala, suspirou. é agora, repetiu em voz alta, as mãos trêmulas. se encaminhou até a mesa, sentou, olhou para tela do notebook.

vamos começar por onde tudo começou, disse. colocou sua arroba, a senha, foi até o canto superior direito da tela, clicou na foto em miniatura, depois em configurações, no final da tela um link, desativar a minha conta, clicou. foi levada a outra tela,

Isso é um adeus?
Tem certeza de que não quer reconsiderar esta decisão? Foi algo que nós dissemos?

depois de ler que sua conta ainda poderá ser reativada no período de trinta dias, apertou convicta o botão de desativar. passou ao instagram, foursquare, swarm, google plus, snapchat, o tinder fora excluído meses antes. deixou o mais doloroso para o fim, excluir a conta do facebook.

Se achar que não vai usar o Facebook novamente e desejar excluir sua conta, cuidaremos disso para você. Lembre-se que você não poderá reativar sua conta ou recuperar o conteúdo ou as informações adicionadas.

clicou em excluir minha conta, não seria uma simples desativação. ela estava se desligando do mundo das redes sociais.

leve.

fechou a tampa do notebook pessoal, abriu o de trabalho, ligou para a secretária e disse serena, ana, pode mandar entrar o paciente das dez.

 
Conto escrito para o encontro de 18/ 08/ 2015




André Salviano é formado em Letras pela UFRJ. Já participou de algumas antologias, prosa e poesia, mídia impressa e eletrônica, como o Prêmio UFF de Literatura 2009, categoria conto, e o e-book Não é só por 20 contos (http://www.skoob.com.br/files/ebooks/20-contos.pdf). É um dos fundadores do blogue Confraria dos Trouxas (confrariadostrouxas.com.br), onde escreve todas as terças desde 2010. Admirador da alma feminina. Torcedor do Flamengo. Sempre que pode bate ponto no Maraca. Gosta de suco de melancia e do pôr do sol no Arpoador. Não dispensa um chopinho regado a bom papo. Mora em Laranjeiras, mas vive na Lapa.

domingo, 30 de agosto de 2015

Trânsito - Daniel Russell Ribas



Trânsito


O relógio grita. Falta pouco. Precisaria de, pelo menos, meia hora. Não almocei. Puta merda, já tá na metade da tarde. Ainda não escrevi o texto pra noite. Não consigo pensar em algo digno de nota. O porteiro insiste em correr como um cracudo em abstinência. Vou no fast-food. Há quantos anos que não vou num desses troços mesmo? O que vai querer, senhor? Juventude e sabedoria eterna. Vai querer fritas por mais 30 centavos? Se me der mais 30 minutos aceito. Ai, meu estomago, tou passando mal. Agora me lembrei porque não costumo comer essas coisas. Tenho que ir ao banco. Quase no limite pra fechar. Que tipo de lugar esquecido pelo cosmos não tem uma agência por quarteirão? Continuar é necessário, pagar a conta mais ainda. Escrevo sobre um cara que precisa pagar uma conta? Sinto muito, senhor, deu o expediente. Como assim, eu tenho ainda 30 segundos! Só amanhã, senhor. 25 agora! Daqui a pouco, tenho curso. Mas antes preciso passar na casa de um amigo e pegar o livro que emprestei. Sem o livro, me fodi mais do que jornalista cobrindo manifestação. Aquela porrada doeu. Vou escrever um conto sobre jornalista que apanha em passeata. Não adianta, todo mundo odeia jornalista, vão me chamar de vendido. Para qual lado depende do gosto do freguês. Se, ao menos, alguém me comprasse não teria problema em pagar os juros da multa da conta atrasada. Como assim o cara não tá em casa? Eu preciso do livro para a porra da prova! Não, eu não posso esperar! E dai que o ônibus bateu num carro? Saio com os pneus arriados. Já sei, vou escrever sobre um cara que está literalmente cagando e andando e a merda cria vida, sai da bunda e bate num ônibus. Burroughs ficaria orgulhoso. O jornalista vai cobrir, apanha da merda e... o telefone toca. Merda, olha a hora! O curso começa em... Oi, mãe! Eu não sei onde tá o pai. Eu não moro aí há 4 anos, como vou... Eu também não sei onde tá a chave da porta de casa. Você perdeu e se trancou do lado de fora? Ora, espera o pai voltar, espera Godot, espera a morte da bezerra, espera chover canivete... Não, mãe, eu não matei uma bezerra com canivete. Desligo. 5 minutos. Tou ligadão. Acho que borrei as calças. Ouço Bezerra da Silva. Onde tem um canivete para cortar os pulsos? Não tem aula hoje? O professor não vem? Tá preso no trânsito? Um ônibus bateu no carro dele? Burroughs ri de mim no inferno. Já sei! Vou escrever sobre Burroughs conversando com Bezerra da Silva sobre funções intestinais. Um jornalista vai cobrir, mas é impedido por uma manifestação de xisburgueres. Brilhante! Pego o ônibus. Está engarrafado. Merda. Chego a tempo. Quem tem conto? Eu! Cadê? Não escrevi, não tive tempo. O celular toca. Vou ao bolso. Perdi as chaves de casa. Ouço uma risada.

Conto escrito para o encontro de 18/ 08/ 2015


 


Daniel Russell Ribas é membro do “Clube da Leitura” (http://clubedaleiturarj.blogspot.com.br), que organiza evento quinzenal. Escreve no blogue “Entre a rua e o meio fio” (http://multiconto.blogspot.com.br/), em parceria com o poeta Henrique Santos. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio).

sábado, 29 de agosto de 2015

Metaconto da realidade clubeana - Glória Celeste de Brito



Metaconto da realidade clubeana


Chegara ali pensando que era para aposentadoria. Até que a chefe (soubera que era assim pq fora amante de vários colegas de trabalho) durante este seu primeiro ano por alguns problemas gritara histericamente com a equipe inteira, depois com os outros que trabalhavam e tinham falhas bobas. E ainda com o diretor da instituição (seu atual amante, e casado!) Era época de eleição e o clima estava tenso, as armações e maracutaias de desvio de verbas poderiam ser expostos. Já começara a enviar currículos e esperava alguns retornos. O problema de trabalhar ali é que não havia sinal de celular decente. Precisava espairar.

A empresa é uma grande máfia onde todas as pessoas são filhos, netos ou primos, sobrinhos, cunhados das pessoas que não saíram de lá no início de tudo e, por conta de todas aquelas baboseiras sobre seleção natural e genes recessivos, isso significa que todas as pessoas que estão agora ou são fanáticos ou completos imbecis ou ― o que é cada vez mais frequente ― ambas as coisas. A espiral de corrupção crescia a olhos vistos.

Na hora do almoço começou a pensar sobre o assunto. Não costumava fazer isto frequentemente, mas depois da insistência do Maurício ia levar alguma coisa. Por isso não gostava muito de escrever. Ficava tomada por isso, durante dois dias pareceu um autômato. Depois de fechar a sala e arrumar as coisas, sentou e foi tomada. Parecia que mais nada existia: ela mesma cronometrou e o texto com os vários erros foi escrito em 15 minutos. Esse tipo de entrega era cansativa, por isso não gostava muito disso. Todo êxtase, mesmo que literário que de alguma forma coloque em contato com o divino tem seu preço.

Chegou um pouco atrasada, mas o pessoal como sempre tinha atrasado. Que sorte... O MC ainda não estava tomado por delírios bacantes, mas já tentava do seu jeito atabalhoado organizar a conversa que não parava: vamos, começa logo essa porra!!

As leituras para escolha de mote começaram... o pessoal trouxe poucos e a escolha foi fácil: um texto que falava de sexo. Sempre que sai um desses na próxima rodada se inunda de crôncias sensuais. Cadê a fulana? Nunca mais apareceu? Estou com saudades dela, com  aquele jeitinho mas com contos de arrepiar... e sempre torço para que uma nova figura venha mais vezes... mas é fácil se assustar com essa balbúrdia desordenada e com alguns palavrões sendo emitidos vez por outra.

O sicrano escreveu mais uma vez aquele conto que todos sabem que é, com nomes escalafobéticos... e sempre a discussão: o estilo marcado é mais importante, ou a reinvenção a ponto de não ser reconhecido, copiar o estilo de outro para se camuflar: Alguns filosofam, atrasando mais uma vez a rodada. TEMPO!! Cerveja, em excesso para alguns e pastéis para outros (agora pizza). Chegam X, que agora casada está mais para establishmment que para contra-cultura, os “autores profissionais” temperamental Y e o homem-networking Z, hoje os turistas A e B apareceram. Continuando a leitura, a conversa lá no fundo fica alta demais, MC começa a ultrapassar a cota das cervejas e tenta conversar com C, que não fala baixo... e PAAREEMMM!!! Alguém escuta alguma coisa??? Recomeço mais tranqüilo da rodada. Votam em algo que não ouviram e nem sempre ganha o melhor trecho, mas o que foi melhor lido ou pela simpatia de quem trouxe, pois nem todos que votam ouvem o que é lido.

Rodada de contos: QUEM TROUXE ESSE DE 10 folhas??? Porra, C!! Y reclama, Z fala que não será aceito da próxima vez e o conto é lido. A lê o último e enquanto muita gente entra e sai, quem ouviu todos os contos não vota, pois está do lado de fora tomando cerveja, e quem chegou depois vota nos dois que conseguiu ouvir. E assim, la nave louca vá! 


Conto escrito para um encontro em 2015




Glória Celeste trabalha na área administrativa e com pesquisadores; como redatora escreveu projetos culturais e institucionais, também para mídias sociais. Já cantou, produziu artistas de MPB e eventos culturais. Formada em alemão na UFSC, fez parte do corpo editorial da revista cultural Poité e participa do Clube da Leitura desde os primeiros encontros - teve um conto publicado na primeira antologia.  

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O inusitado encontro de Maria e João - Morena Madureira




O inusitado encontro de Maria e João


Maria era uma mulher problemática. Nasceu com uma disfunção genética que a fazia sentir todas as dores doídas nas pessoas à sua volta, em um raio de 100 metros. Não só dores do corpo, como torcicolo, cefaleia, cãimbra, dor de dente, de barriga, de garganta, de cabeça, de coluna, de ouvido, mas também as dores da alma, como luto, medo, arrependimento, melancolia, desespero, saudade aguda, dor de cotovelo e todas as outras.

Por saber de sua condição, Maria evitava passar perto de locais notadamente repletos de pessoas doloridas, como hospitais, farmácias, casas de repouso e cemitérios, e buscava ficar sempre por perto de crianças e suas dores primárias e passageiras. Por isso escolheu ser monitora em uma creche.

Mesmo convivendo durante o dia com os pequenos e suas dores toleráveis, como dor de estômago, gripe e joelho ralado, a escolha não a impedia de vir a sentir dores mais complexas no cair da tarde, quando pegava o ônibus lotado de volta para sua casa. Era no aperto do coletivo que o tormento de Maria começava, pois ali sentia cólicas, tonturas, azias, enjoos, pontadas, artrites, além, é claro, das tristezas das mais variadas intensidades.

Mas, por ironia do destino, esse danado, foi justamente nesse local que mais sofrimento causava ao corpo e à mente doídos, mas já um tanto calejados de Maria que ela encontrou, literalmente, sua cara metade. Seu nome era João, e uma certa noite, em meio ao trânsito inebriante da metrópole cinzenta em que moravam, sentou-se ao lado de Maria no ônibus.

Ela, sensível como era, não estranhou apenas a ausência de dores que emanava da presença daquele homem, mas também o fato de ele estar constantemente com um sorriso no rosto que parecia fixado ali, na mesma posição. Intrigada, observou-o por um longo instante e notou que a cada vez que um outro passageiro ria ou parecia alegre por algum motivo, ele sorria ainda mais, às vezes chegando a soltar algumas gargalhadas.

Sim, João era seu contrário. Sentia todas as alegrias do mundo. Felicidades pequenas ou grandes num raio de 100 metros, como por conseguir uma promoção, arrumar um namorado, ouvir uma piada, um galanteio, receber um aumento, um prêmio, um presente, todas essas sensações eram sentidas pelo homem, que de tão feliz não sabia o que era tristeza e, portanto, não se emocionava mais com nenhum dos sentimentos positivos que recebia.

Às vezes, em algumas ocasiões do ano, seu rosto doía de tanto sorrir, e por essa razão ele odiava carnaval, Natal, réveillon, Dia das Crianças e dos Namorados. E, ao contrário de Maria, achava os cemitérios uma zona de conforto para sua existência, um local ideal para descansar do peso das felicidades alheias, e por essa razão escolheu ser coveiro.

Naquela noite, ao encontrar Maria, ele também sentiu algo estranho vindo do corpo dela, uma sensação de que algo se neutralizava, encontrava seu balanço, e por alguns instantes, ao olhar para ela e vê-la tão sisuda, tensa das dores que sentia, encontrou o alívio que precisava para deixar de sorrir por um minuto ou dois.

Inicialmente sem trocar muitas palavras, os dois passaram a se procurar diariamente entre os rostos anônimos do coletivo, e depois de ficarem amigos, ficaram mais que amigos, namorados, noivos, e finalmente se casaram, sem festas (ele não toleraria), nem cartórios (ela não suportaria). Viveram juntos até o fim de seus dias, nem sempre felizes, nem de todo tristes, como a vida costuma ser.


Conto escrito para o encontro de 18/ 08/ 2015


 


Morena Madureira é daquelas que escolheu o jornalismo e hoje não entende ao certo por quê. Em meio às impermanências da vida, tem certeza apenas da devoção às palavras, sejam elas lidas, escritas ou pronunciadas. Ainda não publicou nenhum livro. Mas também não teve filho nem plantou árvore. Ela acredita que tem muito chão pela frente.