quarta-feira, 29 de julho de 2015

Lançamento do livro "Clube da Leitura, volume III"



CLUBE DA LEITURA VOLUME III


O Clube da Leitura lança sua terceira antologia de contos, Clube da Leitura, Volume III, dia 30 de julho, na Editora Oito e meio (Travessa dos Tamoios, 32 C – Flamengo, Rio de Janeiro). O livro é organizado pelos autores Daniel Russell Ribas e Guilherme Preger. A capa é ilustrada pelo quadrinhista Johandson Rezende, autor de Cartoondelia (2015), lançado pela mesma editora.

Clube da Leitura, Volume III reúne 33 contos dos participantes mais ativos do coletivo nos últimos três anos. A coletânea 21 autores estreantes, enquanto 14 já têm livros publicados – sete com uma obra publicada e outros sete com mais de um livro lançado. São eles: Igor Dias (Para além dos sonetos breves, Oito e meio, 2013, e Dinamarca, Oito e meio, 2015), Vivian Pizzinga (Dias roucos e vontades absurdas, Oito e meio, 2013, e A primavera entra pelos pés, Oito e meio, 2015), Guilherme Preger (Capoeiragem, 7Letras, 2003; Extrema Lírica, Oito e meio, 2014) e Fernando Sousa Andrade (Lacan por Câmeras Cinematográficas, Oito e meio, 2013, e Poemometria, Oito e meio). Tiago Velasco (Prazer da carne; Petaluma, Oito e meio, 2014), Beatriz Moreira Lima (Tempos Férteis, 7Letras, 2008), Thiago Mourão (Java Jota, Patuá, 2015), Felipe Boaventura (A Cidade é um rim, TextoTerritório, 2015), Walter Macedo Filho (Nebulosos, 7Letras) e Danielle Schlossarek (Irene na multidão, Oito e Meio, 2013). 

Dos participantes, oito já haviam sido publicados na segunda antologia, de 2011. Outros participaram de coletâneas e/ou mantém colunas e blogs literários (ver minibiografias em anexo). Entre os integrantes, está o best-seller Raphael Montes (Suicidas, Benvirá; Dias Perfeitos, Companhia das Letras) e o elogiado Rafael Sperling (Festa na usina nuclear e Um homem burro morreu, Oito e meio). Tiago Velasco, um dos autores, ficou em quarto lugar no Prêmio Off Flip de Literatura deste ano, com o conto “Essas pessoas na sala de jantar”. Em 2013, Francisco Ohana foi o terceiro colocado na mesma premiação.

O que é o Clube da Leitura

 

O Clube da Leitura é um evento literário voltado à prosa criado em 2007 num sebo do Rio de Janeiro e que vem se mantendo ativo nestes oito anos. O encontro gerou duas antologias, uma em 2009, “Clube da Leitura: Modo de Usar” (edição independente), e em 2012, “Clube da Leitura, Volume II” (Editora Flâneur). 

No formato de roda de leitura e escrita, os integrantes se reúnem quinzenalmente às terças-feiras, à noite, num período aproximado de três horas. Com frequência média de 15 pessoas por noite, o evento é totalmente aberto ao público sem necessidade de inscrição. 

Os encontros seguem uma dinâmica de duas rodadas: a de motes e a de contos. Na primeira, são lidos textos já publicados. O gênero é livre – de trechos de conto ou romance a crônicas e reportagens, de artigo acadêmico ou científico a post de blog, desde que em prosa. Um deles será eleito mote para o próximo encontro. Na segunda rodada, os participantes leem de forma anônima contos baseados no mote do encontro anterior. Não há obrigatoriedade nem de leitura, nem de escritura. 

Serviço:

Clube da Leitura, Volume III
Horário: 19:00 – 22:00
Dia: 30 de julho
Endereço: Travessa dos Tamoios, 32 C – Flamengo, Rio de Janeiro 

CLUBE DA LEITURA

Quando: Quinzenalmente às terças-feiras.
Horário: 19:00-21:00
Endereço: Sebo Nova Baratos – Rua Paulino Fernandes, 15 – Botafogo, Rio de Janeiro

Ausência presente - Guido Brasil



Ausência presente

Uma breve explicação:

Não, eu não ando sonhando com você, mas confesso que sempre estou pensando em você ao deitar – aliás, eu não tenho feito outra coisa; durmo e acordo pensando em você. Mas tenho os sonhos como lugar de refúgio, nos meus sonhos você nunca aparece. Então, nem pense em esboçar meio sorriso. Quero somente explicar que na madrugada da última quarta-feira eu não estava sonhando com você quando acordei às três e tinta e sete pensando em você, apenas despertei com a possível solução para ignorar a sua existência. Uma ideia simples, quase boba: escrever esta carta. Uma carta que jamais será entregue, que nunca será lida, mas que me servirá como exorcismo.

A carta:                
                                 
Rio de Janeiro, 10 de abril de 2015

Nunca fui de muitos arrependimentos. Posso contar nos dedos as atitudes estúpidas e desnecessárias que tive na vida. E digo com toda certeza que ter sucumbido ao seu charme foi uma delas. Você se foi e eu fiquei com a ausência de qualquer possibilidade romântica entre nós somada aos suspiros que passei a dar ao pensar em você.  A carência nos expõe ao ridículo. Odeio me ver assim, com as cores da cafonice estampada na cara. Culpa desse coração Latino. Coração Belchior. Não vivi com você nada que já não tivesse vivido antes. Nenhuma novidade em acordar numa cama desconhecida após uma festa qualquer. Mas ainda tenho dúvidas sobre o que aconteceu naquela noite. Talvez um alinhamento entre estrelas erradas. Talvez eu tenha mudado. Não sei. No entanto, hoje não consigo trabalhar direito porque desempenho o ridículo papel de passar o dia olhando discretamente, de canto de olho, sabe?, para o celular na esperança de encontrar aquela luzinha piscando, sinalizando que tenho uma mensagem, uma notícia sua me dizendo que você está voltando, que a ideia de morar em outro país não existe mais, porque você percebeu que nada vai fazer sentido se for vivido longe de mim. Entendeu o nível da maluquice e da histeria? Será culpa da idade? Eu aceitaria qualquer manifestação de carinho. Uma curtida numa foto minha antiga no Facebook, um chaveiro, “Estive em Pindamonhangaba e lembrei de você”, talhado em madeira. Qualquer coisa, menos esse silêncio. Um silêncio absolutamente natural. Não existe nenhum motivo para que tenhamos contato. Nos conhecemos quando você já estava de malas prontas. Mas a sua maldita gargalhada adorável não sai da minha cabeça. Já tentei de tudo: alinhamento energético, Ho’oponopono, meditação... só não tentei regressão porque fiquei com medo de encontrar você por lá, numa outra vida, e não querer voltar. Estou um tédio. Então, venho por meio desta pedir sossego. Não sei a quem peço, mas imploro para não continuar com a sua presença. Queria voltar no tempo. Mas sempre fico na dúvida se volto para não ir àquela festa ou se volto alguns anos antes para te encontrar e fazer parte do seu futuro. 

Talvez eu esteja precisando de uma despedida. Talvez hoje eu sonhe com você.


Conto escrito para o encontro de 21/ 07/ 2015



Guido Brasil é autor do romance "Bizarros e Solitários", lançado em 2014. Ator e roteirista da web-série "As Ideias de Sr. & Sra. Alguém". Diretor e roteirista do curta "O Namorado". 

terça-feira, 28 de julho de 2015

Solidão a cores - Daniela Ribeiro



SOLIDÃO
A CORES



“E as meninas da ginástica olímpica deram um show ontem em Toronto, a Flavinha Sampaio melhorou sua nota nas paralelas, etc. e tal....”
- Ué, bom dia. Dormiu aí?
- Ã, oi...? Que horas são? Seis e meia... Você vai trabalhar?
- Vou. Hoje tem aula da Carol, aquela menina que os pais levam para o Havaí nas férias, sabe?
- Ah, sei. Então peraí que eu vou fazer o café...
- Ih, mãe, ‘brigada, mas nem esquenta. Se eu tomar café vou me atrasar. Como qualquer coisa por lá mesmo. Vou só tomar meu remédio.
- Então vou ficar aqui mais um pouquinho vendo essa luta olímpica. Você sabia que o Brasil ganhou medalha de bronze na luta olímpica?
- Não, não sabia!
- Eu achei que a luta olímpica fosse tipo boxe, mas não, parece mais sumô, sabe? Antigamente se chamava luta greco-romana, agora é luta olímpica.
- Legal, mãe. Agora deixa eu ir que senão eu não consigo pegar o ônibus a tempo!
- Tchau, minha filha. Ogum te leve, Ogum te traga!
- Beijo!!!
Blam.
Cri-cri-cri.
- Olá, ô de casa!!!
- Oi, é você?
- Sim!!! Mas peraí que eu estou apertada, já volto!!!!
...
- Oi, mãe. Já cheguei e já estou saindo.
- Mas, assim? Vais pra onde?
- Vou para a análise e depois fiquei de passar na casa do Dôdo, que ele quebrou o pé. Quer alguma coisa da rua?
- Não, eu vou com seu pai ao supermercado amanhã. Estou vendo esse CSI aqui até dar a hora de buscar a Cecília no colégio.
- Cadê ele?
- Está lá dentro, no computador.
- Não tá vendo o Pan?
- Não. Brigou com o cara do mármore. Seu pai agora só pensa em reforma, eu já estou me estressando com ele. Não me deixa dar palpite em nada, tudo ele é quem sabe, já estou puta com ele.
- Mas chama ele para ver um jogo, ele relaxa.
- Não, ele está bebendo uísque, lá. Daqui a pouco está de porre, já estou vendo logo. Um inferno, isso.
- O que está passando agora?
- A semifinal de badminton, Costa do Marfim e Inglaterra. As meninas da Costa do Marfim estão dando um banho na Inglaterra! Estou vendo os dois, mas agora vou sair. Quando eu voltar, às 18 tem um jogo de vôlei imperdível. Semifinais, Sérvia e Cuba. Quem ganhar enfrenta o Brasil na final. Tem uma jogadora sérvia que mede 2,15m, a garota parece uma gigante. A Natália foi cortar mas ela fez um paredão que parecia um prédio de cinco andares. Apareceu ela com a irmã mais velha, que tem 2,2m, e a mãe, que tem 2,0m...
- Então está bem, mãe. Vou indo que já estou quase atrasada.
- Vem dormir em casa?
- Acho que sim, mas não tenho certeza.
- Depois telefona pra dizer, pra gente não ficar preocupada.
- Te mando um whatsapp, tá bem assim?
- Bom, bom, não está, mas está bem.
“Detective Benson, this is Dr. House.” “E o Thiago Silva vai disputer a prata na raia 5…”
- O elevador chegou. Beijo!!!
- Tchau, minha filha! Ogum te leve e Ogum te traga!
Cri-cri-cri




Conto escrito para o encontro de 21/ 07/ 2015




Daniela Ribeiro é jornalista, trabalhou nas indústrias fonográfica e cinematográfica e atualmente é mestranda em Teoria Literária e Literatura Comparada na UERJ. Frequenta o Clube da Leitura desde junho de 2013.