sexta-feira, 29 de maio de 2015

Mote do encontro (09/06/15)

Texto lido por Igor Dias


Dinamarca



Couvert

A esquina da Rio Branco com Ouvidor é algo que saiu da rotina de Renata.
Renata tem 23 anos, faz faculdade de arquitetura e mora em uma simpática casa de vila no carioquíssimo bairro das Laranjeiras. Saiu de um estágio no Centro e foi trabalhar na Barra da Tijuca. É morena, tem 1,73, 66 quilos. Perde-se em elucubrações estéticas sobre as formas arquitetônicas da cidade; prefere o art-decò ao art-nouveau, o Calatrava ao Niemeyer. Diferentemente de outras quase-arquitetas da cidade, Renata não se engana: sabe que vai trabalhar em uma construtora, muito provavelmente com projetos de habitação para a classe média baixa, dois-quartos com dependências, varanda, cozinha americana, portaria 24 h, vista indevassável para a Linha Amarela.
Renata se descobriu celíaca aos vinte e dois. Não pode comer glúten. Sob nenhuma hipótese. Teve de deixar para trás todos os tipos de pães, biscoitos e massas. Pizza, só se for de tapioca. Aveia, de jeito nenhum. A boa e velha cervejinha, só em pensamento.
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A esquina da Rio Branco com Ouvidor é algo que saiu da rotina de Manoel.
Manoel tem 55 anos, é divorciado e tem dois filhos. Conheceu uma mulher, de nome que não diremos, com a qual começou a se relacionar há dois meses.
Mora em um condomínio fechado no bairro de São Conrado, mas está contando os dias para se mudar. Não comprou apartamento quando pôde, e gasta muito dinheiro com aluguel. Sustenta um padrão de vida alto, sem grandes apertos, mas também sem folgas.
Trabalhou por muito tempo em um grande escritório de advocacia no Centro, especializado em ações contra construtoras e empreiteiras. Usou o dinheiro da herança de mamãe para abrir seu próprio escritório, no bairro da Gávea. Deve se mudar para a Barra da Tijuca no mês que vem.
Manoel se descobriu celíaco há quarenta anos. Eventualmente, toma uma cerveja com amigos: faz parte de um grupo de teste para um remédio novo que reduz os efeitos da ingestão do glúten.
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Em uma terça-feira insuspeita, Renata não foi trabalhar: era seu aniversário. Decidiu ir passear pelo Centro, sozinha. Almoçaria também sozinha, precisava pensar na vida; havia recusado, por telefone, o baião de dois que sua mãe lhe prometera.
Nesta mesma terça-feira, Manoel precisou ir ao Centro para assinar os últimos papéis pendentes que diziam respeito à sua demissão. Almoçaria sozinho, precisava pensar na vida; havia recusado, por telefone, o pernil de cordeiro que seu antigo chefe lhe prometera.
Entraram em um restaurante caro, sentaram em mesas contíguas. Não se olharam. Pela tela do celular, ela lia e respondia os recados de aniversário no Facebook, ele conversava por whatsapp com o filho.
O garçom achou esquisito quando cada um deles recusou, de forma cortês, o couvert que lhes era oferecido: uma farta cesta de pães. Quando voltava com as duas cestas intactas para a cozinha, pensou que, de alguma forma, o gerente deveria deixar mais claro para a clientela que o couvert não era cobrado à parte: era antes uma cortesia, um mimo da casa.


DIAS, Igor. Dinamarca. Rio de Janeiro: Editora Oito e meio, 2015.




Igor Dias nasceu no outono de 1987, na cidade do Rio de Janeiro. Participa dos coletivos literários "Clube da Leitura" e "Caneta, Lente & Pincel". É autor dos livros "Além dos Sonetos Breves" (poesia)  e "Dinamarca" (contos) ambos lançados pela Editora Oito e Meio em 2012 e 2015, respectivamente.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Eu não sou só uma mulher inteligente - Ana Claudia Calomeni




Eu não sou só uma mulher inteligente


Porque uma mulher inteligente é somente uma mulher inteligente. Eu sou gostosa também!! Eu malho, gente! Procuro manter as medidas de um corpo perfeito, sigo direitinho a Tabela de Medidas Padrão (TMP, o que me garante ataques de TPM eventuais, mas isso é o preço que se paga). Tenho medidas perfeitas para o manequim 40: 90/74/96. Meu IMC é 22,0. Mas vocês acham que alguém nota? Nããããããoooo!! Nem meus peitos de silicone, nem eles, coitados, adquiridos a custa de muita palestra sobre a situação político-econômica mundial, nem eles merecem qualquer atenção. Vocês acham que alguém olha pra eles? Pessoal só me olha do pescoço pra cima. O que mais admiram em mim, depois do cérebro, é a boca. Não porque ela seja carnuda. O que de fato  passou a ser depois da dica da injeção de preenchimento que peguei no site Patricinha Esperta. “Como conseguir um efeito Bocão”, recomendava a tal da patricinha, Bocão com letra maiúscula: letra grande, boca grande, forma e conteúdo. Apelei! Tudo pelo reconhecimento de que sou, além de inteligente, uma linda. Uma goshhhhhhtosa com uma boca carnuda que pode fazer mais, muito mais, do que apenas sair por aí falando coisas geniais. Que sou também um corpinho bonito, gente!!! É pedir demais? E minhas pernas? Vocês não fazem i-dei-a... são duas horas diárias malhando ferro, fazendo exercícios aeróbicos, é panturrilha pra cá, posterior pra lá, glúteos, extensão, abdução. Até o joelho eu malho gente!!! Mas alguém nota? Quando vou a uma festa com meu tubinho preto decotado, pessoal só quer saber a minha opinião sobre a reforma política, sobre a redução da maioridade penal, sobre a situação dos desabrigados do Nepal. Eu começo o papo dizendo que opinião é que nem bunda, cada um tem a sua, pra ver se a galera se toca e olha pra minha. Mas alguém percebe? Nada! Pessoal só quer é a minha opinião mesmo... E a alimentação? Balanceadíssima! Só como proteína e folha. Meu percentual de gordura é de atleta. Tenho uns ataques de vez em quando, desconfio ser falta de carboidrato, mas permaneço firme. Dieta “zero carb”. Uma amiga disse que fica triste sem carboidrato. Deve ser por isso que ando tendo crises de depressão, mas eu nem ligo. Não desistirei jamais!! Morro, mas provo que sou mais, muito mais, do que somente uma cabecinha cheia de teorias inteligentes.

Conto escrito para o encontro de 12/05/2015


Ana Claudia é carioca e acredita na força das formigas. E dos ventos. E das coisas que não se veem.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Uma Confraria de Tolos - John Kennedy Toole



Recomendação de leitura por Márcio Couto
Apesar da erudição prematura e uma carreira acadêmica despontada já nos idos da adolescência, John Kennedy Toole não viu sua magnus opus ser lançada. Foi um homem solitário, rejeitado tanto literariamente quanto socialmente, e que cresceu sob o cabresto da mãe – mesmo esta sendo sua maior incentivadora intelectual.
Escreveu apenas dois livros, o primeiro com 16 anos e se chamava ‘Neon Bible’, ele o enviou inúmeras vezes a alguns dos mais importantes editores dos EUA, no entanto fora sumariamente ignorado, a história se repetiu quanto ao segundo. Aos 31 anos, Toole cometeu suicídio por asfixia, utilizando-se de uma mangueira de jardim conectada ao escapamento de seu carro e atravessada à janela do motorista, ele sofria de depressão e paranoia.
Após travar uma batalha de dois anos contra a depressão, Thelma Toole, sua mãe, que encarava os manuscritos originais do filho sobre a estante da sala diariamente, decidiu provar o talento de Kennedy continuando sua epopeia de publicação. Thelma o reenviou a sete editores e todos a rejeitaram; ela sofreu muito, alegando inclusive que ‘a cada porta que se fechava morria um pouco por dentro’, mas insistiu bravamente – muito para manter acesa a memória do filho.
Foi quando soube que Walker Percy – autor de um aclamado livro nos EUA chamado ‘The Moviegoer’ – tornara-se membro da faculdade de Loyola, em New Orleans (onde a família Toole morava), e então iniciou uma campanha de telefonemas e cartas persistentes, para não dizer inconvenientes (ele inclusive havia mencionado à esposa sobre as ligações de uma senhorinha chata que não o deixava em paz), insistindo para que Walker lesse o livro de Kennedy. Após meses de telefonemas semi-psicóticos, o pobre homem foi surpreendido pela Sra. Toole em seu escritório, e dando-se por vencido prometeu ler o material.
Em relato à imprensa, ele descreveu a impressão das primeiras páginas de ‘Uma Confraria de Tolos’ como algo que ‘não é tão ruim a ponto de ser ignorável’, já no meio do livro mudou para ‘até que despertou meu interesse’, passando por ‘eu não consigo parar de ler’, e concluindo incrédulo em ‘não é possível que seja assim tão bom’; para ter certeza Walker, exultante com o material que tinha em mãos, decidiu reler algumas vezes, e passou a acreditar que era sim bastante possível.
O livro foi publicado em 1980 e ganhou o Pulitzer.

Obviamente que a lenda por detrás de ‘Uma Confraria de Tolos’ é amplamente conhecida, o que não reduz a genialidade da obra em si, quem se sustenta perfeitamente sem que o leitor conheça sua provenánce. A história é ambientada na mesma Nova Orleans de Toole e conta o dia-a-dia de Ignatius Reilly, um glutão obeso cujo autor define logo de início como sendo um ‘Dom Quixote moderno: idealista, inventivo, excêntrico, e ingênuo’; essa ideia se mantém até o final do livro. Ignatius vive com sua mãe protetora e amorosa numa casa de subúrbio mas a destrata e a ignora compulsivamente, preferindo isolar-se no quarto e escrever calhamaços de reflexões filosóficas – muitas vezes inúteis – baseadas em ideais político-sociais um tanto próprios e que constantemente considera inovadores, Ignatius encara a si mesmo como o líder intelectual de uma revolução aguardando por eclodir.
Sua rotina vira do avesso após um acidente de carro desencadear uma série de eventos que o forçam a travar um embate contra a realidade; Ignatius se vê forçado pela mãe a ter de trabalhar, de início numa barraquinha de cachorros-quentes e depois num escritório, e aprende a encarar a medida e o valor dos próprios atos, tendo de lidar com o rudimentar sistema da justiça e com as engregagens enferrujadas da burocracia e das leis trabalhistas que só atrapalham os meios de manifestação popular. Tudo isso, naturalmente, da pior maneira possível, e sempre com Ignatius atrapalhando muito mais do que ajudando, sendo muitas vezes o pivô dos próprios problemas que tenta consertar, mas sem jamais considerar-se culpado, e sim vítima.
Uma das melhores passagens do livro é quando ele lidera a revolta dos funcionários da fábrica onde trabalha, sendo erguido com muita dificuldade – pois seu peso só faz aumentar – numa cadeira e guiando a turba até o escritório da administração, mas as coisas naturalmente não terminam como pretendia. O livro é realmente hilário, uma arma poderosa anti-tédio e que paradoxalmente parte dele para desenvolver uma narrativa impecável, com personagens facilmente dimensionáveis, e sem tirar o pé do deboche. Não dá pra acreditar que tantos editores o tenham rejeitado, prefiro pensar que eles sequer o leram, algo que por si só nem de longe é um ponto de vista mais positivo.
Pessoalmente sempre vi coincidências entre Ignatius Reilly e o jovem Holden Caulfield, de ‘O Apanhador do Campo de Centeio’: ambos são (muito) mal-humorados, idealistas, sonhadores, andarilhos solitários, reclamões, e até se vestem de maneira mais ou menos semelhante: cachecol, casaco grosso, e um chapéu de caçador, no entanto, o de Ignatius é amarrotado, velho e ridículo, ao passo que o de Holden é bonito e recém-comprado. Talvez Kennedy tinha isso em mente ao desenvolver um personagem que, em suma, é uma sátira de si mesmo, talvez ele tenha pensado em Salinger e se equiparado a Caulfield, ou talvez quisesse apenas tirar sarro de tudo, pois ao mesmo tempo que o livro é bonachão, em igual medida é ácido e desesperançoso.
A meu ver Toole tinha plena noção da magnitude de sua obra e apostou nela até a última gota de suor, até perder a vontade de seguir em frente; fico pensando quantas histórias como a dele se repetiram no universo literário... Mesmo com todo drama por detrás da publicação, a saga de Kennedy & Ignatius obteve um final feliz e trágico ao mesmo tempo: foi premiado sim, é um clássico moderno sem dúvida, mas em troca de uma vida, justamente a de seu próprio criador; quantos autores brilhantes simplesmente desistiram não pela fé que possuíam em si, mas pelo cinismo dos demais? Em outras palavras, quantos ‘Uma Confraria de Tolos’ não foram lançados por falta de visão? Para um mercado cujos representantes supostamente são considerados mais esclarecidos intelectualmente, o mundo da literatura muitas vezes soa como justo oposto: de fato, um mundo de tolos.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Vou ser fumante agora - Vivian Pizzinga



Vou ser fumante agora

Uma vez que se olhou no espelho, e era à tarde, e era sábado, e ninguém havia ligado, e ninguém havia respondido aos e-mails, nem ao whatsapp, e o silêncio era uma redoma espessa, uma vez que se olhou no espelho em pleno sábado e se sentiu morta, e se sentiu torta, e se sentiu porta, e teve a certeza de que não, não, definitivamente não era linda, definitivamente não era gostosa, definitivamente nem bonitinha era, e tinha espinhas, apesar de não ser adolescente, e tinha uma barriga que não podia ser descrita no diminutivo, uma vez que seus olhos não eram lânguidos tampouco penetrantes, seus lábios não eram carnudos, suas maçãs do rosto não eram salientes, e uma vez que desconfiava seriamente de que seu rosto não tinha maçãs, pensou: vou fumar um cigarro. Preciso fumar um cigarro.
Uma vez que não fumava, que não tinha cigarros em casa, que não sabia nada a respeito de marcas de cigarro, que se deu conta de que a fumaça de cigarro às vezes a incomodava, sobretudo em ambientes fechados, pensou que era uma inauguração sem banda o que acontecia em sua vida: a decisão, muito bem delimitada, de que começaria a fumar. E mais, sua decisão era indeterminada, ainda que bem delimitada. Não havia decidido fumar apenas um cigarro, não havia decidido experimentar essa coisa inteiramente nova e inteiramente velha que é fumar um cigarro e ver como se sente, emitir opiniões para si mesma, tossir ou não tossir, sentir arder a garganta ou não, sujar o sofá com a cinza. Era mais. Era muito mais. Era sem comparação: vou ser fumante agora, ela pensou.
Então resolveu que o sábado podia ser outro, que o sábado, por ser sábado, era a pista livre para inaugurações inauditas, aquela casa vazia, aquela falta de respostas, aquele reflexo insípido no espelho oval do banheiro, e calçou o chinelo, pegou a chave e meteu umas quantas notas de dinheiro no bolso. Fechou a porta de casa atrás de si, desceu os dois andares de escada para habituar-se a um exercício qualquer sem propósito e foi à rua. No jornaleiro que havia quase na esquina ela viu que havia vários cigarros. Qual escolheria, qual maço, qual dentre todas as ofertas exibidas na banca?
“Boa tarde, o senhor tem aquele Free?”, perguntou, insegura. “Saiu de linha”, disse o seu Jair, o jornaleiro de anos, que sempre vendeu figurinhas, depois revistas Capricho, depois coleções de clássicos da literatura e alguns filmes, depois revistas de esquerda. Quanto a ele, nenhum espanto, era como se ela sempre comprasse Free. “Como saiu de linha?”, fez ela, como se sempre comprasse Free. “Aí não me pergunte, não sei como foi, sei que saiu”. E, então, desapontada, quase pensando em desistir de sua inauguração, lembrou-se que podia pedir outro. “E Charm? Tem Charm?” Mas seu Jair, agora mirando-a de relance, o que não tinha feito antes, disse: “Ih, esse saiu de linha também”. “Também???”, fez ela, incrédula. “Também”, ele confirmou, com aquela cara de resignação que só os jornaleiros com mais de sessenta anos fazem, sabe qual? Essa mesmo.
O que você tem aí então que não tenha saído de linha, seu Jair?
Dunhill, Malboro, Derby, Hollywood, Luckystrike, Vogue...
Esse Vogue é bonito, hein, deixa ver.
Qual cor?
Vai o lilás mesmo.
O jornaleiro passou a caixa fina de Vogue e ela a examinou, evitando olhar o verso e aquelas fotos pavorosas, nada estimulantes para quem havia se descoberto feia, sem programas no sábado, sem maçãs no rosto e com a decisão periclitante de que seria fumante agora.
“Gostei, vou levar”. “Um só?”, perguntou o jornaleiro. “Sim, quanto é?” “8,75”. “Como é que é, seu Jair!?” “8,75”. “Mas está caríssimo esse cigarro, seu Jair, surreal, onde é que a gente vai parar?!” “O preço é tabelado”. “Tem algum mais barato aí?” “Bom, tem o Derby e também o Dunhill”. Ela ficou na dúvida, Derby, Dunhill, Derby, Dunhill. “Você acha que eu devo levar qual, seu Jair?” “Olha, o Vogue pode até ser mais caro, mas é mais fraco, então, se o barato sai caro, leva o Vogue”. Ela achou que era isso mesmo, que seu Jair estava coberto de razão, que o barato sai caro, que o sábado merecia uma extravagância qualquer, que toda inauguração tem um custo, que é melhor que o custo seja no bolso e não nos pulmões, e que se os pulmões tivessem que pagar algum preço, que pudesse ser minimizado, e, sem mais delongas mas piscando muito, um tique inteiramente novo, pegou uma nota de dez, entregou ao jornaleiro, recebeu o cigarro e o troco, voltou para casa, abriu o cigarro, estranhou que fosse tão fino, tão delgado, tão frágil, e, quando o colocou na boca, pensou: hum, não tem fósforo em casa e esqueci de comprar o isqueiro.         


Conto escrito para o encontro de 12/05/2015





Vivian Pizzinga é autora de “Dias Roucos e Vontades Absurdas”, pela Editora Oito e Meio. É também psicóloga. Tem um gato chamado Vuvu. No outono e no inverno, toma chá para esquentar as mãos.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Autopoiese - Guilherme Preger



Autopoiese


Os construtivistas acham que somos sistemas autopoiéticos que construímos a nossa própria realidade. Mas isso gera um enorme problema: há tantas “realidades” quanto sistemas autopoiéticos e então como podemos nos entender? A questão não é a de como podemos compartilhar visões de mundo essencialmente distintas, mas algo ainda mais profundo: como compartilhar mundos, sistemas construídos autopoieticamente diferentes, baseados em experiências radicalmente singulares.  Haveria no ambiente “lá fora” algo que fosse independente dos mundos autopoieticamente criados ao qual pudéssemos nos referir e orientar uma concordância? Mas esse algo pertenceria a qual realidade se apenas seres autopoiéticos constroem realidades? E o problema então retorna: como podemos comunicar o incomunicável, o que está “dentro” de cada realidade?

Pensei nisso enquanto me dirigia ao encontro com minha ex-mulher. O casamento havia sido desfeito porque vivíamos em “realidades” que se diferenciavam cada vez mais até se tornarem opacas ao outro. O que se dirá agora que estamos há cinco anos separados e não são apenas mundos diferentes os que habitamos, mas até mesmo universos paralelos aqueles em que vivemos. Haveria um “buraco de verme” para permitir alguma comunicação entre esses universos, que seguem suas próprias leis?

Por uns tempos, acreditamos que nosso filho poderia ser um canal de comunicação, mas nos enganamos enormemente. Pois nosso filho era ele mesmo um ser autopoiético que construía sua própria realidade, completamente diferente das nossas. E nosso filho acabou sofrendo com isso, adoeceu, repetiu de ano e precisou de terapia. E agora enquanto me dirigia à sessão com a terapeuta dele, onde iria me encontrar com sua mãe, tentava imaginar que novo canal de comunicação poderia ser aberto entre nós dois.

A terapeuta nos sugeriu voltar ao e-mail. Já havíamos tentado esse caminho antes, mas os resultados foram desastrosos. O problema dos e-mails é que eles dão chance a uma amplificação dos desentendimentos e não a seu controle. Se uma ofensa aparece, uma ofensa se seguirá, assim por diante até um dos dois simplesmente optar pelo silêncio. Já a comunicação pessoal havia desde muito se tornado impossível, pois cada encontro era um ajuste de contas e cada conversa era preenchida por ruídos crescentes até se tornar incompreensível o conteúdo do que se queria transmitir. Mas isso era apenas o resultado de que a realidade de cada um havia se tornado uma mera fonte de ruídos para o outro.

A terapeuta argumentou que a vantagem do e-mail era de que a mensagem poderia ser reescrita se ela não estivesse “de acordo”. Assim, cada mensagem enviada teria em anexo, subentendida, a seguinte pergunta: “esta mensagem está de acordo?”. Caso não estivesse, o retorno deveria vir assim escrito: “sua mensagem anterior não está conforme. Você poderia, por gentileza, reescrevê-la?”.

Embora para mim retornar à era dos e-mails fosse um enorme retrocesso em nossa relação e eu, em nome da sanidade de nosso filho, queria avançar e estava disposto a qualquer solução, acabei por achar boa a ideia da terapeuta. Assim, mensagens-comando do tipo “Compre o remédio para nosso filho” poderia ser “refraseada” como: “Nosso filho está precisando de um remédio tal, estou sem dinheiro, você poderia me ajudar a comprá-lo?”.

Os mais céticos dirão que tudo não passa na verdade de criar eufemismos, de dizer o mesmo usando outras palavras, de suavizar a expressão. Mas fiquei pensando que há realmente uma grande diferença entre escrever uma ordem ou escrever um pedido de gentileza. Entre fazer uma pergunta ou passar uma instrução. Aqui a escolha importa decididamente.  Pois, no exemplo, o conteúdo, o fato de que nosso filho precisa do remédio, é algo que nós podemos concordar, que não está realmente em questão. O que está “realmente” em questão é a “forma” da mensagem.

Saí do consultório mais aliviado achando que a conversa conjunta com a terapeuta tinha sido produtiva. Trocamos uma despedida gentil e seguimos caminhos opostos na rua, cada um na direção de sua própria realidade. Como era estranha aquela situação para quem havia passado mais de uma década convivendo junto. 

Já no ônibus, voltei a pensar nos sistemas autopoiéticos.  Sem querer, a terapeuta me havia ajudado a esclarecer a questão que me atormentava. Pois o problema dos sistemas que se diferenciam semanticamente, dos universos paralelos de sentido, não era de que cada mundo formado por um sistema fosse incomunicável para outro sistema. Que afinal cada realidade fosse incognoscível e assim nenhuma descrição seria capaz de representá-lo a outro sistema cognitivo. Percebi, num lampejo súbito, que a função de cada descrição não era a de representar a realidade interna de um sistema a outro. Uma palavra, uma frase, uma sentença não eram a representação de qualquer realidade. Cada palavra era uma seta de orientação, cada frase era um corrimão onde se segurar e se equilibrar. Cada sentença era uma via, um caminho. Cada texto era um pedido de “venha comigo”.

E chegando em casa me lembrei que, afinal, a lição maior dos construtivistas era de que nenhuma realidade está feita e pronta para ser comunicada. Cada realidade está sempre por se fazer, sendo “construída” continuamente e que autopoiese não era o mesmo que egoísmo, idiossincrasia, solipsismo ou solidão.  Autopoiese era justamente nossa capacidade de construir realidades novas. E de que cada palavra gerada nesse sistema não era a descrição de sua realidade, mas era uma ponte lançada a outro sistema e a outra realidade. Não para que as realidades se comuniquem, mas para que atravessem juntamente a ponte. E enfim o desejo não deve ser de compartilhar as mesmas realidades, de fazer de dois mundos um único mundo,  mas o de ajustar realidades para que caminhem juntas ou, ao menos,  paralelamente. 

E assim concluí que refrasear uma sentença não é só uma questão de torná-la mais agradável ou bonita, mas de encontrar o melhor ajuste, a melhor via para se percorrer. E que há uma diferença entre bem dizer e mal dizer. É como uma bifurcação, uma encruzilhada, a diferença entre um bom caminho que leva a muitos lugares ou um mau caminho que só leva a becos sem saída, a lugar algum.

E fui dormir pensando no primeiro e-mail que iria escrever na manhã seguinte. Pois afinal, tantas as pontes fossem queimadas ou derrubadas, tantas ainda estavam por ser construídas.

Conto escrito para o encontro de 12/05/2015



Guilherme Preger é escritor e engenheiro, autor de "Capoeiragem" (7Letras) e "Extrema Lírica" (Oitoemeio) e está no Clube da Leitura desde sua fundação.