segunda-feira, 13 de abril de 2015

Mote do encontro 28/04



Texto lido por Márcio Couto

Fluxo-Floema



Calma, calma, também tudo não é assim escuridão e morte. Calma. Não é assim? Uma vez um menininho foi colher crisântemos perto da fonte, numa manhã de sol. Crisântemos? É, esses polpudos amarelos. Perto da fonte havia um rio escuro, dentro do rio havia um bicho medonho. Aí o menininho viu um crisântemo partido, falou ai o pobrezinho está se quebrando todo, ai caiu dentro da fonte, ai vai andando pro rio, ai ai ai caiu no rio, eu vou rezar, ele vem até a margem, aí eu pego ele. Acontece que o bicho medonho estava espiando e pensou oi, o menininho vai pegar o crisântemo, oi que bom vai cair dentro da fonte, oi ainda não caiu, oi vem andando pela margem do rio, oi que bom vou matar a minha fome, oi é agora, eu vou rezar e o menininho vem pra minha boca. Oi veio. Mastigo, mastigo. Mas pensa, se você é o bicho medonho só tem que esperar menininhos nas margens do teu rio e devorá-los, se você é o crisântemo polpudo e amarelo só pode esperar ser colhido, se você é o meninho tem que ir sempre à procura do crisântemo e correr o risco. De ser devorado. Não há salvação.Calma, vai chupando o teu pirulito. Eu queria ser filho de um tubo. No dia dos pais eu comprava uma fita vermelha, dava um laço no tubo e diria: meu tubo, você é bom porque não me incomoda, você é bom porque é apenas um tubo e posso te olhar bem descansado, posso urinar minha urina cristalina dentro de ti e repetir como um possesso: meu tubo, meu querido tubo, posso até te enfiar lá dentro que não dirás nada. As doces, primaveris, encantadoras manhãs do campo. As ervinhas, as graminhas, os carrapichos, o sol dourado, e os humanos cagando e mijando sobre as ervinhas, as graminhas, os carrapichos e sob o sol dourado. Meu filho, não seja assim, fale um pouco comigo, eu quero tanto que você fale comigo, você vê, meu filho, eu preciso escrever, eu só sei escrever as coisas de dentro, e essas coisas de dentros são complicadíssimas mas são... as coisas de dentro. E ai de quem reclamar.

HILST, Hilda. Fluxo-Floema. São Paulo. Editora Perspectiva, 1970.


Hilda Hilst nasceu em 21 de abril de 1930. Entre 1955 e 1962, publicou diversas obras de poesia, entre elas Balada do festival e Ode fragmentária. Em 1999, ganhou uma página na Internet inteiramente dedicada à exposição de seu trabalho (http://www.hildahilst.cjb.net). Dentre as diversas obras da autora, destacam-se A obscena senhora D, de 1982, adaptada para o teatro em 1993 e traduzida para o francês em 1997; Bufólicas, poesias satíricas lançadas em 1992; Fluxo-floema, seu primeiro livro de ficção, publicado em 1970; e a trilogia obscena composta pelos títulos O caderno rosa de Lori Lamby, Contos d'escárnio. Textos grotescos e Cartas de um sedutor, publicada entre 1990 e 1991. Além do Prêmio Moinho Santista pelo conjunto da obra poética, recebido em 2002, Hilda Hilst foi agraciada com o Prêmio Anchieta de Teatro pela peça O verdugo, em 1969; com o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) na categoria "Melhor livro do ano" em 1977, por Ficções; com o Grande Prêmio da Crítica pelo conjunto da obra, também da APCA, em 1981; e ainda com o Prêmio Jabuti por Rútilo nada, em 1994, entre outros. Hilda Hilst faleceu em 4 de fevereiro de 2004, em Campinas, de falência múltipla de órgãos.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Atire a primeira pedra - Fernando Andrade



Atire a primeira pedra

Atire a primeira pedra quem nunca se jogou no rio. Sim, disse o monge, uma pedra afunda devido à seu peso, sua ausência de espaço interno. Ela não tem cavidade, não é uma casa, por isso por ter excesso de bagagem, afunda. Mas senhor, o suicidas também afundam. Sim. Eles afundam por excesso de peso, a alma está compactada num estágio que chamamos de Alma leve. Mas a alma leve não deveria boiar? Não, a alma cheia é que boia. Chamamos os estágios do pertencimento de intens. In é o de dentro, tens é o que carrega em ti. Mas não é assim que se escreve a palavra. N faz parte da negação; fundamental para o crescimento. Porque a pedra é tão cheio de massa? Por que ela não amassa, não deforma, seu visual é mais curioso que se possa conceber, tende a ser esférica, mas encontramos outro dia uma retangular. Naquela célebre cena em que se joga a pedra sobre o rio e ela segue um movimento paralelo à superfície da água, como se explica mestre que ela por ser tão cheia continue o movimento paralelo à superfície? Um homem quando quer nadar, não afunda, sua ação é prenhe de certeza, ele pode atravessar um canal apenas mexendo os braços e as pernas. Quando alguém joga uma pedra assim, ela quer uma duração, quer uma viagem contínua, a pedra atrita com a superfície mas continua com a sua jornada.
Atire a primeira pedra quem nunca errou.
Neste caso, há uma exploração da existência pedra. Não é a pedra quem ataca, mas a linha do destino que tens na mão, se reparar que a linha é extremamente envolta sobre o seu núcleo, a mão será uma espécie de catapulta. A pedra se aferra a sua preguiça. Toda pedra sofre de fadiga. Você já viu alguma fazer ginástica? Confesso mestre que nunca vi uma numa academia. Da boca do mestre, abriu-se um sorriso. Por que sorri? Mestre. A palavra junta dois espectros da constituição: o corpo e a gnose.
Errar vem do errático. Aquele que se move, mas sem uma causa ou vontade própria. (Feito a pedra no rio). Lembre-se que eu falei antes a pedra só afunda, se ela parar, ausentar-se de movimento. Errar é quase como manter a ação na superfície. O suicida não consegue ver isso por isso afunda. 

Conto escrito para o encontro de 24/03/2015





Fernando Andrade tem 46 anos, é jornalista e poeta. Trabalhou por 10 anos com livreiro e hoje trabalha na Biblioteca Parque Estadual. Participa de dois coletivos : Caneta Lente e Pincel e Clube da Leitura. Escreve para o site Ambrosia resenhas de Literatura. Tem dois livros de poemas lançados pela Editora Oito e meio, “Lacan por Câmeras Cinematográficas” e “Poemometria”.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O homem ao lado - Maiara Líbano



O homem ao lado

 

Fim de semana de visitar meus pais. Visito-os uma vez por mês. Vivo no Rio de Janeiro, e eles em Nova Friburgo, no interior do estado. Saí de casa há 12 anos. Terminei minha graduação, agora continuo minha pesquisa no mestrado, em Literatura, cultura e contemporaneidade na Puc.
Chego na rodoviária, desta vez com alguns minutos de antecedência. Um tempo para um café e um cigarro. Chega o ônibus. Apanho o bilhete.
Meu assento, sempre o mesmo. Número 2. De acordo com uma pesquisa que li, que não interessa reproduzir aqui, trata-se do assento mais seguro, de menor possibilidade de acidentes fatais.
Mas ele tem uma contrapartida fundamental, um grande ponto negativo: o acompanhante do assento. Mesmo com poucos passageiros, sempre haverá alguém no assento 1. Além de ser janela, e próximo à saída tem aquele espaço largo pra esticar as pernas. Já estava acostumado à companhia de pessoas idosas. Será que é reservado a elas, ou apenas uma coincidência?
Entro no ônibus, e naturalmente, meu acompanhante de viagem já está ali a postos. Deve ter seus 35 anos, não muito mais velho que eu. Percebo pela indumentária tratar-se de um funcionário de uma empresa de telecomunicações. Cumprimento-o com gentileza e discrição, apenas levantando as sobrancelhas.
Observo, antes de tudo, o fundamental. O divisor de assentos. Estava levantado. Aquilo que distinguia o meu lugar do seu lugar ainda não estava posto. Ao mesmo tempo que me sento, abaixo o divisor. Agora, reflito sobre quem tem o direito de apoiar o braço. Eu? Já que fui quem o abaixou, consagrando sua existência? Ou ele que chegou antes, e por ingenuidade ainda não o tinha feito? Sem resposta para isso ocupo apenas uma metade, a metade mais próxima do banco, deixando a parte da frente livre. Assim permaneço por alguns segundos. Até que me dou conta da estapafúrdia solução que havia dado ao impasse. Pois, de que serve um divisor quando ele é coabitado por dois indivíduos? Por meritocracia, mantenho meu braço, agora por inteiro no divisor.
Percebendo que ele vai me dirigir a palavra me enrubesço, já tentando organizar, em alguns milésimos, uns argumentos para ficar com o divisor. Mas..
- Engraçado né, sexta-feira e a rodoviária nem tá assim muito cheia.
- Pois é.
- Tá indo pra Friburgo?
Penso. O que ele verdadeiramente quer com essa pergunta? Eu poderia dizer: "Não. Estou aqui de sacanagem, porque sou joselito. Antes do ônibus partir eu vou descer." Mas enfim, guardo pra mim e digo:
- Sim. Estou indo.
- Ah lá é muito bom. Gosto muito.
Ok. Eu não dei continuidade e o ônibus arrancou. Agora cada um na sua. Espero. Aproveito a deixa e abro um livro. Percebo de rabo de olho que ele está se contorcendo pra ver a capa do livro. Sem saber muito o porquê abaixo pra dificultar a intromissão do vizinho.
- Oi Aninha. É Zilda. Olha, o ônibus saiu agora há pouco. Estamos chegando na ponte. Se o sinal falhar é porque tá na ponte, tá?! Thiago passou aí? Ué, passou não? Esse menino.. Vem cá fala com sua mãe que tô chegando umas sete horas. Isso se não tiver muito engarrafado. Alô? Alô? Aninha?
Deus do céu, como fala alto essa senhora.
- Ih, começou o trânsito na ponte. Chato né?
- Pois é.
- Será que o ônibus vai fazer aquela parada em Alcântara ainda?
- Não sei.
- Tomara que não né?
- Tomara.
Meu Deus, será que ele não percebe que eu estou monossilábico? Mas é tão evidente. Essa incapacidade de ler o desinteresse alheio é uma das maiores manifestações da chatice, doença seríssima que a indústria farmacêutica ainda não deu a devida atenção.
- 'Please don't stop the music! Music! Please don't.' Alô? Ahn. Tá mãe, que saco! Tá na ponte ainda. Tchau!
Adolescentes não fazem idéia do quanto são repugnantes. Por essas e por outras não quero ser pai. Pelo menos nem tão cedo.
E agora é a vez do meu caro vizinho voltar a me perturbar. Desta vez abre um pacote de chips e dá mordidas intensas fazendo aquele barulho formidável. Mas que ônibus...por céus.
- Aceita?
- Não obrigado.
Respondo sem tirar os olhos do livro, o qual me esforço para me concentrar, nesse microcosmo dos horrores.
- Antigamente eles deixavam um cartaz aqui de quando foi a última dedetização do ônibus. Ó, nem tem mais.
- Pois é.
- Safadeza né? Também, monopólio..aí os caras fazem o que quiser né não?
- Pois é.
Sinto que meu estoque de "pois é" está acabando.
- Fala de quê esse livro?
Típica pergunta de quem não lê. Mas e agora, páro pra responder sendo legal com ele e desleal comigo? Ou não?
Por uns dez segundos tento destrinchar a personalidade do inconveniente. Há uma afoita necessidade de conversar. Possibilidades: pode ser uma manifestação de uma síndrome de pânico que tem ao entrar em veículos automotores. Pode ser gay, e estar altamente interessado em mim (prefiro essa opção, sou um medíocre). Pode ser carência, porque há uma elocução sem fim.
Em todas as situações ele puxa o assunto, e em todas eu não dou corda. Eu não olho pra ele nem mesmo quando me pergunta algo. E ele não desiste. Sinto que devo ter dó. E emprestar-lhe os ouvidos, quase que por uma obrigação social. Mas ao mesmo tempo é injusto esse pensamento, é injusto comigo. Ele pode ser um sádico. Sim, ele deve ser um sádico.
Talvez eu tenha demorado um pouco refletindo. Pois quando olho de volta, ele já está com um pacote de biscoito doce nas mãos, daqueles recheado de chocolate. Daqueles que eu gosto.
- Agora é a vez do doce! Quer? Pega um aí?
- Não obrigado.
Salivei. Mas aceitar seria um erro, eu ficaria em débito com o chato. Ele poderia exigir que eu ouvisse suas ladainhas até o fim da viagem. E eu teria mais pudor ainda em evitá-lo.
- Você que sabe, quando quiser está aqui. Mas e o livro?
- É um livro de contos.
- Ah sim. Tipo crônica?
- Tipo.
- Tipo parábola?
- Tipo.
- Tipo Paulo Coelho?
- Tipo.
Independente de qualquer coisa, repetir "tipo" é minha melhor saída.
- Saquei. Eu lia essas coisas quando estava no segundo grau. Só que era obrigado. Rs, Rs, Rs.
Veja bem, isso não foi um recurso de texto. O camarada pronunciou em voz alta, para mim, "rs rs rs". Não aguentei e ri, desta vez um riso de verdade. A partir daí passei a perceber uma certa inocência no mala. O comportamento dele tem algo de infantil. Nessa coisa de negar com tanta veemência aquilo que não quer, ou seja, ficar em silêncio. Não tem um condicionamento às regras sociais, um suposto bom comportamento, pois, como as crianças, ele não as reconhece como tais. E fundamentalmente há uma presentificação em todo seu comportamento. Um aqui e agora sem hesitações. Me lembro de Walter Benjamin e do que ele fala sobre o tempo kairós. Por uns minutos invejei o homem. Como será existir no mundo desta forma? Há muito menos incômodo nas coisas, certamente. Depois pensei, se ele me oferecer o biscoito de novo eu até topo. Até que ele interrompe esses pensamentos de novo.
- Ih olha lá, já deu sete e meia e não estamos nem em Itaboraí ainda. Não falei? Vai chegar lá pra umas oito e meia.
- Pois é.
- Não quer mesmo um biscoito não? Tô comendo tudo pô, pega aí? Comigo não tem esse negócio de cerimônia não viu.
- Ô meu camarada, já que você insiste! Obrigado. Esse biscoito é muito bom.
- Pega mais.
- Só dois então.
- Pega mais.
- Valeu, obrigado mesmo, dois está de bom tamanho.
Como eu previa foi uma roubada ter aceitado o biscoito. Ele narra uma série de ladainhas. Meu celular estava descarregado e eu sentindo falta da sua maior qualidade: companhia pra quando se está só, e solidão pra quando se está acompanhado.
Já completou 40 minutos de fala ininterrupta. Foi uma estratégia me oferecer o biscoito, é claro. Como pude cair nessa? Decidi ignorá-lo por completo. Não havia o que fazer.
Durante todo esse tempo mantinha ainda meu olhar no livro. Mas estava totalmente incapaz de decifrar as palavras, as letras eram um emaranhado de tinta. E ainda assim fui passando as páginas, para me manter ocupado. Para ele me perceber ocupado. De nada adiantava. Pois falava. Falava.
Por sorte vasculhando minha mochila à procura de qualquer coisa, encontro meu iPod. Foi minha salvação. Prontamente, ponho os fones de ouvido.
Agora finalmente no meu universo, sem invasão, ouvindo Nina Simone, penso nos encontros. E o que a pequena porção de um dia pode nos reservar. Penso nos lugares. Tão perto, tão longe. Ao meu lado este homem (que agora já dorme), mas poderia ser outra pessoa. Tantas poderiam ser. Lembro da Cristina, e de tudo que vivemos. Eu não sei se ela faz ideia do quanto sinto falta dela. Eu quero ela. Ainda. Cinco anos, que não sei foi encontro ou desencontro. Ou se foi só passatempo. Talvez jamais tenhamos nos conhecido. Porque uma discussão boba não pode acabar com um encontro verdadeiro. Me recuso a acreditar nisso. Nunca voltei pra entender, ela também não. Faz mais sentido que nunca tenha sido nada.
Estar com alguém é o impossível. A porção da solidão será sempre maior.
Está chegando o meu aniversário. E com ele, o que sempre me vem à cabeça: a contradição de envelhecer. Maior é nossa capacidade de observar, o outro e a nós mesmos. Mas muito maior é o vão que nos separa. Maiores são os bloqueios, as mágoas, os medos, mais difícil de entrar. A gente vai se represando com os anos. Pra um encontro é preciso atravessar oceanos. Vejo da janela da frente que começa a chover. Na serra tudo é mais bonito quando chove.
É quando sinto um peso em meu ombro direito. É a cabeça trepidante do vizinho.
Hoje é este homem ao meu lado. Amanhã espero que seja Cristina.

Conto escrito para o encontro de 24/03/2015


Maiara Libano não é precisa, é contraditória.