terça-feira, 31 de março de 2015

A parte real e a parte imaginária - Francisco Ohana

A parte real e a parte imaginária


Ao contrário do que muitos pensam, a matemática pura não é o país da solidão. Ela é um conjunto de ilhas entre as quais é preciso navegar. Mas, para navegar, são necessários instrumentos, tanto físicos – bússola, astrolábio, mastros – quanto psicológicos – capacidade de improvisação, inteligência e resistência ao isolamento.
Foi isso o que disse o professor no primeiro dia de aula. Era maranhense, de baixa estatura, franzino e arredio. Distribuía folhas que ele mesmo digitava, contendo exercícios sobre números complexos, geometria analítica e trigonometria, movendo-se rapidamente entre as carteiras dos alunos e dizendo uma ou outra palavra introdutória sobre a matéria com sua voz anasalada e forte sotaque nordestino.
No fim da manhã, foi abordado por um aluno com dúvidas na matéria, que acabaram por se revelar dificuldades de base. Agendaram um encontro naquela tarde para dirimir as dúvidas.
As aulas de reforço particular estenderam-se até a semana provas finais. Enquanto o garoto caminhava de volta pra casa com seu walkman tocando I am a rock, de Simon & Garfunkel, o professor corria desesperado para o consultório da analista, que o confundia com diagramas lacanianos que não pareciam comunicar-se entre sim. Na sala pouco iluminada e decorada com motivos artesanais e pequenas esculturas de pedra-sabão, ele confessava preferir que seu aluno jamais aprendesse, que se mantivesse eternamente naquele ano, para que pudessem passar mais algum tempo juntos.
Na tarde seguinte, assim que se viram sozinhos, o professor fechou a última sala do corredor e trancou a porta por dentro.
           
O menino se lavava convulsivamente, esfregando a própria pele com uma esponja como se quisesse abortar do próprio corpo a experiência que tinha acabado de viver. Mascava pedaços de canela como que para expurgar-se, mas também para tirar da boca aquele gosto azedo de pau. Sua pele ainda estava quente. Masturbou-se ao som de Simon & Garfunkel – trilha sonora apropriada para a primeira noite de um homem.
A fim de escapar da condenação a uma modorra destinada a pecadores, estudou muito nas semanas seguintes. Deixou de frequentar os plantões de dúvida privativos. Refez os cadernos. Dominou o ciclo trigonométrico, as propriedades do logaritmo e os números complexos. Era a melhor forma de livrar-se daquele homem e daquelas lembranças. Que, incrivelmente, lhe causavam uma forma desconhecida de prazer.
No dia da prova final, a criança se sente segura como um herói de epopeia. Faz o exame sem rasurar um traço de seus cálculos feitos a caneta.
Quando terminou, levantou-se e viu-se amassando aquele pedaço maldito de papel. Enfiando-o goela adentro do professor, de modo a tirar-lhe o ar e a capacidade de querer. Entretanto, apenas jogou a prova sobre sua mesa. Não precisa corrigir. É um 10.

Ao contrário do que se pensa, a matemática não é o país da solidão. São ilhas sobre as quais é preciso navegar, quiçá confundindo-se com seu próprio movimento. Ao contrário do que se pensa, as ilhas não estão presas no mesmo lugar; movem-se sobre a lava, eventualmente entram em colapso ou provocam profundos acidentes geográficos. Como um conjunto que se dobra sobre si, numa autorreferência cujo resultado é, c.q.d.:

o absurdo


Conto escrito para o encontro de 24/03/2015




Francisco Ohana é economista e participa de atividades que o mantenham ligado às artes, principalmente literatura, teatro e música. Frequenta o clube de leitura do Baratos da Ribeiro desde fevereiro de 2014.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Mote do encontro 07/04



Texto lido por Márcio Couto

De Profundis

 

 


“Sou muito mais individualista hoje do que jamais fui. Nada me parece ser do menor valor, exceto aquilo que a pessoa extrai de si mesma. Minha natureza está buscando um novo modo de autorealização. E é só com isso que me preocupo. E a primeira coisa que tenho de fazer é me libertar de qualque possível sentimento de amargura contra o mundo. Estou sem um tostão, e não tenho onde morar. Mas na vida há coisas piores que isso. Sou absolutamente franco quando digo que, a sair desta prisão com amargura contra o mundo e meu coração, preferiria mil vezes mendigar meu pão de porta em porta. Se não conseguisse nada na casa do rico eu conseguiria na do pobre. Os que têm muito são em geral gananciosos; quem tem pouco sempre compartilha. Não me importaria nem um pouco de dormir na relva fresca e, quando o inverno chegasse, buscar abrigo junto à acolhedora meda de feno colmada, ou sob a cobertura de um grande celeiro, contanto que tivesse o amor em meu coração. As coisas externas da vida hoje me parecem sem a menor importância. Você pode perceber a que intensidade de individualismo cheguei – ou, antes, estou chegando, pois a jornada é longa, e “onde há caminhos há espinhos”.
Claro que sei que pedir esmolas na rua não é o quinhão que me há de caber, e que, se algum dia me deitar na relva fresca na noite, será para escrever sonetos à lua. Quando eu deixar a prisão, Robbie estará à minha espera no lado de lá do grande portão de ferro rebitado, e ele é o símbolo não meramente de sua própria afeição, mas da afeição de muitos outros além dele. Creio que disponho o suficiente com o que viver por cerca de dezoito meses, em todo caso, de modo que, se não for capaz de escrever belos livros, posso ao menos ler belos livros; e que alegria pode ser maior? Depois disso, espero ser capaz de recriar minha capacidade criativa. Mas fossem as coisas diferentes: não me tivesse restado sequer um amigo no mundo; nenhuma casa, por piedade, abrisse suas portas para mim, tivesse eu de aceitar a trouxa e o roto andrajo da mais pura penúria: contanto que eu permanecesse livre de todo ressentimento, dureza e desprezo, seria capaz de enfrentar a vida com muito mais calma e confiança do que faria se tivesse um corpo em púrpura e linho fino, e a alma dentro de mim doente de ódio. E de fato eu não terei dificuldade alguma. Quando a pessoa realmente quer o amor, ela o encontra a sua espera.”

WILDE, Oscar. De Profundis. São Paulo. Editora Tordesilhas, 2015.        

 Wilde e Bosie

Oscar Fingall O'Flahertie Wills Wilde, um dos maiores escritores de língua inglesa do século 19, tornou-se célebre pela sua obra e pela sua personalidade. Sofisticado, inteligente, dândi, adepto do esteticismo (da "arte pela arte"), escreveu contos ("O Crime de Lord Arthur Saville"), teatro ("O Leque de Lady Windermere"), ensaios ("A alma do homem sob o socialismo"), e romances ("O Retrato de Dorian Gray"). No entanto, no seu apogeu literário, começaram a surgir rumores sobre sua homossexualidade, (severamente condenada por lei na Inglaterra). Oscar se envolveu com Lord Alfred Douglas (ou Bosie), filho do Marquês de Queensberry, que sabendo do relacionamento, enviou uma carta a Oscar Wilde, no Albermale Club, onde o ofendia e recriminava já no sobrescrito: "A Oscar Wilde, conhecido Sodomita". O escritor decidiu processar o Marquês por difamação. Depois tentou desistir do processo, mas era tarde demais. Um novo processo contra ele foi instaurado. Sua fama começou a desmoronar. Suas obras e livros foram recolhidos e suas comédias retiradas de cartaz. O que lhe restava foi leiloado para as despesas do processo judicial. Acabou passando dois anos na prisão, que lhe renderam obras comoventes como "A Balada do Cárcere de Reading" (1898) e "De Profundis", uma longa carta ao Lord Douglas.

terça-feira, 24 de março de 2015

O desaparecimento de Beto - Patrícia Santana



O desaparecimento de Beto

Era uma tarde de 1977 quando Beto conseguiu ver claramente o que devia fazer. Parecia que alguma divindade tinha sentido pena do seu sofrimento e decidido mostrar-lhe a saída, o caminho a ser trilhado, os passos a serem dados, de forma tão detalhada quanto num manual de instruções.
Ele estava no jardim de casa, vendo o seu filho de sete anos brincar e fingir inocência e ternura. Beto não conseguia entender como todo mundo amava incondicionalmente os filhos. Ele não suportava o seu!!! Aliás, Beto não suportava ninguém, desde sempre. Vivia numa estado mental de indignação constante. Na escola ficava revoltado com a petulância da professora que se achava a fonte de todo o saber, com o comportamento demasiadamente infantil dos seus coleguinhas de oito anos e com a feminilidade exacerbada das coleguinhas que criavam histórias sem originalidade ou plausibilidade com suas bonecas mal vestidas.
A indignação com tudo e com todos perdurou, e a sua adolescência foi um purgatório que não o levou ao reino dos céus, mas sim ao inferno da vida adulta. A sociedade o incomodava. As pessoas demoravam demais nas filas ou então eram obstáculos lentos nas calçadas. Seus colegas de trabalho eram preguiçosos, os seus amigos eram vagabundos que se entregavam à boemia com a consciência inexplicavelmente limpa, as mulheres a sua volta eram fáceis demais ou então puritanas demais. No carnaval, ele conseguia ver a devassidão repugnante das pessoas, assim como o natal mostrava nitidamente a hipocrisia da humanidade. O ser humano, enfim, não prestava.
A única pessoa que nunca o irritou, e por quem ele tinha profunda admiração, era a senhora sua mãe, uma santa mulher extremamente católica que rezava o terço todos os dias e que se tornou viúva aos vinte e dois anos, tendo de criar os filhos sozinha. Por isto, quando a sua mãe quis que ele se casasse com a insuportável Larissa, ele aceitou a sentença apesar de não ter cometido nenhum crime, somente para não decepcionar o único ser que ele admirava.
Larissa... Mulher pior não havia!!! Falava baixo para irritá-lo. Gestos lerdos, sem determinação... Ela tinha prazer em agir como se fosse uma doente incapaz. Era limpa demais, submissa demais, frígida demais. Beto não tinha medo de ir para o inferno porque sabia que nada no universo podia ser pior do que aquilo.
O filho que saiu de suas entranhas fez jus ao horror que era a mãe. Garoto mimado, malicioso, que desde a tenra idade se utilizava do choro desesperado ou do sorriso esperançoso como uma arma para conseguir os seus desejos e submeter os adultos a sua dominação. Aquilo ali era um ser frio e calculista desde os três anos que fingia ser inocente, no entanto ninguém percebia as artimanhas do guri, só o pai.
Mas o Beto tratava a esposa frígida e de gestos lerdos e o garoto manipulador muito bem, porque a sua mãe sofreria muito se ele agisse de outra forma. E ele não podia decepcioná-la.
A sua indignação com o mundo deu uma leve pausa com o golpe de 1964. Achou aquilo bem-feito. Alguém tinha de botar ordem na vagabundagem que tinha virado o Brasil. Não sabia se era a herança dos escravos, mas o fato era que os brasileiros só entendiam a lei do chicote. A democracia, quando concedida ao povo errado, era um meio cujo fim, inevitavelmente, era a bagunça generalizada.
Entretanto, a senhora sua mãe ficou horrorizada com o golpe militar. Ela passou a ir a encontros para rezar pelos perseguidos da ditadura, a ler livros de uma tal teologia da libertação, a criticar abertamente os militares no almoço de domingo. A insuportável Larissa concordava com a sogra, sempre balançando a cabeça para cima e para baixo como uma doente incapaz.
Pois bem, naquela tarde de domingo de 1977 alguma divindade teve pena de Beto e mostrou-lhe a saída para seus problemas, passo a passo.
Beto começou a frequentar bares e reuniões de esquerda. Conseguia cópias do “Voz Operária” e do “Venceremos” e discutia as ideias veiculadas nestes jornais no almoço de domingo. A sua mãe e a lerda da Larissa estranharam o seu novo comportamento, porque, embora o Beto nunca tivesse defendido abertamente a ditadura militar para não contrariar a sua genitora, também não conseguia evitar demonstrar uma certa inquietude quando falavam bem dos “esquerdistas”.
A mãe de Beto pensou que o espírito santo havia iluminado o filho e lhe mostrado o caminho correto. Beto mudou da água para o vinho, e a sua mãe estava orgulhosa e agradecida pelo milagre.
Beto, por sua vez, estava enlouquecendo. A companhia dos esquerdistas era pior do que a companhia de Larissa e da criança manipuladora. Eles não tomavam banho, bebiam, não tinham fundamentação teórica para as suas opiniões, eram irracionais, falavam alto como se estivessem todos numa colônia de deficientes auditivos... Enfim, aquilo era o ápice do martírio!!!
Mas Beto, como um mártir, aguentou aquele sofrimento sem fim, convivendo com aqueles seres abomináveis. Usava as odiosas calças pantalonas, ouvia a música pretensiosa da Tropicália, tornou-se um expert na literatura de esquerda, xingava os “milicos”, deixou os caracóis se formarem nos cabelos grandes. O sucesso da peça de teatro que estava encenando vinte e quatro horas por dia foi tanto que até o deixavam liderar reuniões, perguntavam a sua opinião sobre os mais variados assuntos, apresentavam-no a pessoas importantes do movimento de insurgência.
A encenação durou cerca de um ano até que, enfim, chegou o grande dia.
Beto disse que ia à reunião de quinta-feira na fazendo do Gregório para discutir com o grupo o protesto que seria realizado no sábado. Mas Beto nunca chegou à fazenda. A sua mãe ligou para o Gregório e o Gregório ligou para os outros tantos amigos que o Beto tinha feito, mas ninguém sabia onde ele se encontrava. Larissa ficou arrasada, chorando o dia inteiro jogada no sofá, com os gestos ainda mais lerdos que o normal. A mãe do Beto rezava constantemente, os amigos questionavam os órgãos oficiais, os cartazes na rua com os dizeres “queremos o Beto de volta” se multiplicaram. Mas as semanas se passaram, assim como os meses, e o Beto não apareceu. Era, enfim, mais um desaparecido político.
A mãe do Beto colocou fotos do filho por toda a casa e o endeusou pelo resto da vida. Estava triste pela sua morte, mas orgulhosa do seu fim heroico. Tinha dado a luz a um revolucionário, um militante, um desaparecido político. Larissa nunca mais se casou e teve grande prazer em adotar a personagem da viúva da ditadura, dando-lhe um ar de grandiosidade e resignação das heroínas dos romances que leu na adolescência. O filho maquiavélico e manipulador sofreu muito com o assassinato do amoroso pai, perdendo a sanidade e tornando-se freguês habitual dos diversos manicômios do Brasil.
Beto realizou o seu grande sonho: ir para Paris. Sempre imaginou como os parisienses seriam um povo evoluído, culto, que respeitava filas, que não se entregava à devassidão do carnaval e sem a hipocrisia natalina do terceiro mundo. Ele tinha juntado dinheiro suficiente no seu trabalho insuportável e falava francês com certa fluência, de forma que imaginou que a transição seria suave e agradável. Ademais, sua santa mãe o idolatraria para o resto da vida, e isto o deixava feliz.
No entanto, para a sua surpresa, chegando à cidade da luz, descobriu que os parisienses eram um raça detestável. Metidos, educados em demasia, sem espontaneidade, frios demais, calados demais, desconfiados demais, reservados demais...

Conto escrito para o encontro de 10/03/15 


Nascida em Morro do Chapéu, Bahia. Formada em direito pela UFBA

sexta-feira, 20 de março de 2015

Mote do encontro 24/03/15

Texto lido por Thiago Mourão


O feitiço da ilha do Pavão

 

 

Ah, quem estava distraído nessa hora afirma que a tarde se iluminou de rosa carmim, o ar se perfumou e toda orla da ilha do pavão faiscou. Não se sabe se isso é verdade, mas parece que sim, porque passaram um tempo infinito um dentro do outro e gozaram como ninguém nunca gozou neste mundo, atravessando a longa noite abraçados e amantes, nada de ruim podendo alcançá-los.

De noite, se os ventos invernais estão açulando as ondas, as estrelas se extinguem, a Lua deixa de existir e o horizonte se encafua para sempre no ventre do negrume, as escarpas da ilha do pavão por vezes assomam à proa das embarcações como uma aparição formidável, da qual não se conhece navegante que não haja fugido, dela passando a abrigar a mais acovardada das memórias. Logo que deparadas, essas falésias abrem redemoinhos por seus entrefolhos, que nada é capaz de resistir. Mas, antes, lá no alto, um pavão colossal acende sua cauda em cores indizíveis e acredita-se que é imperioso sair dali enquanto ele chameja, porque, depois de ela se apagar e transformar-se num ponto negro tão espesso que nem mesmo em torno se vê coisa alguma, já não haverá como. Ninguém

fala nesse pavão ruante e, na verdade, não se fala na ilha do pavão. Jamais se escutou alguém dizer ter ouvido falar na ilha do pavão, muito menos dizer que a viu, pois quem viu não fala nela e quem ouve falar não menciona a ninguém. O forasteiro que perguntar por ela receberá como resposta um sorriso e o menear de cabeça reservado às perguntas insensatas.

RIBEIRO, João Ubaldo. O feitiço da ilha do Pavão. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1997.




João Ubaldo Ribeiro foi um escritor, jornalista, roteirista e professor brasileiro, formado em direito e membro da Academia Brasileira de Letras. Sua obra é considerada uma das mais importantes na literatura brasileira, sendo autor de "Viva o povo brasileiro", "Sargento Getúlio", "A casa dos budas ditosos", entre muitos outros. Faleceu em 18 de julho de 2014, no Rio de Janeiro.