quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Mote do encontro 24/02/15



Texto lido por Maurício Gouveia

Deixa Comigo




Como naquela cidade nada fica a mais de cinco minutos de carro, foi fácil, com um táxi, encontrar-me diante da senhora, ou senhorita Schloss, ou Blitz, exatamente às cinco  e meia. Esperava não ser considerado informal demais por estar sem paletó e com as mangas da camisa dobradas acima do cotovelo, porém tinha resolvido deixar o paletó. O clima estava cada vez mais quente.
Ela era uma doce velhinha coquete. Tinha cabelos grisalhos e olhar bondoso. Usava o cabelo cuidadosamente repartido em duas metades, preso atrás num coque. Para minha surpresa não vestia roupas negras ; usava uma blusa branca e uma saia florida. Precisava de óculos, mas não os colocara. Recebeu-me com grande amabilidade e me fez sentar numa cadeira, introduzida no país por Hernandarias junto com o gado, e me ofereceu com copo de chá. Recusei com firmeza.
“Não, senhorita Shnagg; não se preocupe. Tomei muito café”, respondi.
Já havia resolvido, mal a vi, recusar qualquer bebida; essas velhinhas tão angelicais costumam ter arsênico no armarinho do banheiro.
“Uma tacinha de licor?”, insistiu.
“Nada, muito obrigado”, respondi; e notei que se chateava. Isso não convinha aos meus fins; pareceu-me oportuno lhe explicar que jamais pudera provar álcool porque tinha sofrido na própria carne a desgraça de ter um dipsômano na família, meu próprio pai”, estava dizendo, mas a vi se entristecer demasiado, fiz um gesto de indiferença. “Você sabe como são essas coisas. Em todo caso, aceitaria um copo d´água”.
Na água eu poderia detectar qualquer sabor estranho.
Saiu, e voltou em seguida com um copo longo sobre um pratinho. Sentou-se diante de mim, toda ouvidos, e fui lhe contando sobre minha investigação detalhadamente, incluindo a eventualidade de que Juan Pérez talvez fosse um pseudônimo, uma mulher ainda por cima. Ela poderia relembrar a década de sessenta?
Era uma mulher inteligente e sensível, e provavelmente não teria muitas ocasiões de falar com alguém que a escutasse e a compreendesse. Falou e falou, remontando aos anos sessenta, cinqüenta, quarenta. Um estado similar ao coma me invadiu, e tentei sair dele fazendo um inventário da sala sobrecarregada de objetos; o maior era um piano, o menor uma formiga que percorria meu braço. Eu a olhava fascinado, esperando que me picasse, sem forças para sacudi-la.
Navegava num pedalinho por um lago sereno como um prato de sopa. Alguém tocava mandolina, e lá no céu deslizavam lentamente, muito lentamente, nuvens brancas feito algodão. Nunca soube como apareceram o pigmeu e as luvas feitas de borracha. Fazia silêncio. A senhorita Screem tinha lágrimas nos olhos. Eu também, apesar de que certamente não pelos mesmos motivos.
“Eram outros tempos”, falei com simpatia, afogando um bocejo. Dissimuladamente, olhei a hora. Seis e quarenta e cinco.
Levantei de um salto.
“Posso voltar a incomodá-la amanhã?”, perguntei, pois não recolhera nada útil aos meus fins. “Você me fez perder a noção do tempo”.
Sugeri que ela desse conferências, para que os jovens de hoje, corrompidos pela droga e pelo sexo, alcançassem uma luz de esperança. Valores, senhorita Schloss, estamos perdendo valores. Porém não podia ficar um pouco mais; esperavam-me no canal fazia quinze minutos, para gravar uma entrevista, e não queria deixar de atendê-los. Tomei suas mãos e as sacudi ternamente. Ela sorriu, encantada.
“Espero-o amanhã, jovem. Na mesma hora”, falou comovida.

(...)

Continuei chorando até que recordei subitamente do encontro. Já estava ficando tarde. Corri até o banheiro para lavar a cara e os olhos e assoar o nariz com papel higiênico., e quando vi no espelho os olhos avermelhados e o nariz inchado me deu um ataque de riso, mas sério. Evidentemente necessitava descarregar a histeria.

(...)

Tomei um táxi e cheguei às seis, meia hora atrasado.
Não me tratou severamente, porém sua preocupação era evidente. Pedi desculpas; o calor e o cansaço tinham me feito dormir em excesso. Enquanto eu estava sentado, ela me trouxe o copo d´água, como se fosse um rito instaurado séculos atrás. Sentou-se, olhou para mim com serenidade nos olhos, e sentenciou:
“Você esteve chorando”.
Temi que começasse outra vez a risada histérica. Torci a boca e confessei que, com efeito, estivera chorando.
“Minha esposa me abandonou faz uns meses”, disse, tentando sentir uma profunda autocompaixão. “Fugiu com um traficante búlgaro para a Venezuela. Às vezes sinto saudades dela”.
Duas lágrimas umedeceram minhas bochechas. Os fatos essenciais estavam corretos, mas os enfeitara um pouco; as pessoas gostam de detalhes exóticos. O homem não era traficante, mas químico; não era búlgaro, apenas vulgar; não vivia em Venezuela, mas em Montevidéu. Tampouco minha mulher me abandonara exatamente, nem fugira; foi uma separação longamente discutida, e em comum acordo.
A anciã começou a falar suavemente generalidades e máximas cujos objetivos eram dissipar minha angústia, e depois foi resvalando para velhos temas, baixando da década de quarenta até a de trinta, e dali à de vinte. Fez em mim uma lavagem cerebral completa, e depois funilaria e pintura. Fiquei manso como um cordeiro. Consegui reencarnar penosamente às sete e meia, sem recordar as razões que me haviam levado ali.

LEVRERO, Mario. Deixa Comigo. Tradução: Joca Reiners Terron. Rio de Janeiro: Rocco, 2013.




Mario Levrero nasceu em 1940 em Montevidéu, onde morreu em 2004. Escritor, fotógrafo, livreiro, chefe de redação de revista, autor de textos humorísticos e histórias em quadrinhos, Levrero pertence à categoria dos “raros”, como são conhecidos alguns escritores uruguaios.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

As Mulheres do General - Anderson Câmara



As Mulheres do General

O cheiro de madeira queimada atiçava a fome da moça, em sua terra natal era sinal de que a refeição estava a ser servida. O céu azul estava quase limpo, o sol estava escondido atrás de uma nuvem brilhante, o que aliviava o calor do meio dia; seria perfeito para descansar a fadiga da longa viagem que terminara apenas duas horas mais cedo. Mas não havia refeição, não havia sombra de um telhado ou a maciez de almofadas. O cheiro de madeira queimada vinha junto com o cheiro do sangue sob o sol, da areia fina erguida pelo vento, e aquilo matava qualquer apetite. Sobre a colina, ela via o campo abaixo repleto de homens de armadura e longas armas nas mãos; alguns de pé, maior parte deles caídos. Dilacerados, couraças rasgadas, costelas retorcidas para dentro e para fora, sangue escurecendo a areia que cobria todo o terreno até o horizonte marcado de montanhas de pedra nua. Armas eretas fincadas em corpos, mãos erguidas em súplicas ignoradas e carros e cavalos mortos despontavam dentre a massa de cadáveres a escurecer o chão reluzente.
Para uma donzela que ainda não completara duas décadas de vida, acostumada aos hábitos domésticos, poderia ser uma contemplação desagradável e nauseante, mas não para esta moça. Os campos de batalha eram parte de seu dia, os sons de júbilo da vitória por várias vezes a despertava de manhã, e as tarefas que observava a mãe executar com esmero e amor eram limpar o sangue na armadura de seu pai e tratar suas feridas.
E ali, sentadas à entrada da tenda armada sobre a colina, cercadas de guardas por perto e cinco pelotões nos arredores, as duas mulheres tinham os olhos nas faces dos vivos que permeavam os mortos. Buscando reconhecê-lo, o homem de maior honra naquele exército que havia muito tempo saía vitorioso em cada terra que invadia. Via seus homens voltando invictos, carregando os espólios sem fazer prisioneiros. Entregavam-se a essa taciturna apreensão ao fim de cada batalha que o general começava, e quando finalmente a imagem do guerreiro surgia se aproximando da tenda, a brutalidade do bárbaro dando lugar à ternura do pai, elas suspiravam aliviadas. A mãe sempre se alvoroçava com cada ferida que o pai trazia nos braços nus ou no rosto recoberto de fúria e velhas cicatrizes; e se estivesse envenenado, e se não parasse de sangrar?
Enquanto esperavam que o general se destacasse da multidão que andava na direção da colina, o acampamento fora armado atrás desta, a mãe olhou os montes secos e feios no horizonte, depois olhou para um ponto do horizonte onde via uma fenda na muralha pela qual pouco se podia ver o verde de uma floresta.
- Para onde teu pai deseja ir? – ela perguntou.
- Ele quer fazer com que os homens das montanhas desçam todos contra ele. – respondeu a filha, escutara-o conversando com seus conselheiros alguns dias antes. – Mandou já algumas tropas para provoca-los e fazê-los descer as montanhas, não quer lutar nas encostas.
- É certo que não... estaria em desvantagem. Mas enquanto ele não tirar os olhos destes montes, vamos viver essa secura do deserto.
- Papai luta bem nas areias.
A mãe, ainda sem tirar os olhos dos vivos, soltou um som de desprezo.
- Enquanto isso vivemos neste calor terrível. Ele poderia muito bem ir logo para a passagem. Viajaríamos direto, escondidos pela mata, e logo ele conquistaria a capital.
- Ele não quer deixar nenhum inimigo às costas, mãe.
- Eu sei, mas se ele tiver as fortalezas da capital, eles não vão ser muito problema. – ela repentinamente se agitou, encontrara a imagem de seu marido começando a subir a colina logo abaixo delas. Então acrescentou. – E nós poderíamos dormir melhor e tomar um banho com ervas.
A moça ponderou. Costumava ser muito mais tolerante que a mãe, mas de fato sentia falta de um lugar fixo. Estavam tão perto do objetivo do pai, mas ele tinha planos detalhistas a cumprir.
- Então convença-o, mãe. – disse a menina. – Eu já o pedi para não nos rodear desses desprezíveis prisioneiros de guerra. Se eu quiser fazê-lo mudar de ideia outra vez tão cedo, talvez ele não queira fazer muito por mim mais tarde.
A mãe se levantou quando as fendas na armadura e as lascas perdidas na espada do general eram perfeitamente visíveis.

- Está bem... Fique longe da tenda hoje à noite.

  
Conto escrito para o encontro de 27/01/2015


Desde os nove anos, Anderson Câmara já era apaixonado por histórias que fugissem um pouco da realidade. Os quadrinhos e os filmes dos anos noventa eram seu refúgio durante a infância na Baixada Fluminense. Filho de pais nordestinos, aprendeu com eles os valores da vida e a beleza da arte. Tendo como exemplo o trabalho duro do pai e a criatividade da mãe, durante a adolescência começou a criar as próprias histórias indo publicar seis anos após o primeiro conto.