sábado, 31 de janeiro de 2015

A porta que range - Daniel Russell Ribas



A porta que range


É minha última noite. Estou cansado disso tudo. Há quanto tempo faço isso? Quase nove anos? Tempo demais. Estou sentado em um semicírculo em uma livraria à espera do meu alvo. Enquanto aguardo, leio. A leitura é um hábito que aprecio em minha existência solitária. Um homem que lê é alguém que capaz de aprender muito sobre si mesmo e os outros. Além do mais, ajuda a manter a concentração, que é uma característica essencial na linha de trabalho. O problema é esta maldita porta. Toda vez que alguém entra ou sai, a porta range. Isto atrapalha minha leitura e, por consequência, me distrai do que devo fazer.
Você provavelmente pergunta o que eu faço, afinal. Sou um matador de aluguel. Não um desses que você encontra em bares de estrada com um palito mastigado no canto da boca e uma pistola enfiada na calça. Nunca entendi como esses caras evitam estourar os próprios bagos, mas deixa pra lá. Desculpe por este desvio na narrativa. Alguém acabou de sair da loja e a porta rangeu! Enfim, mato gente há quase nove anos. Prefiro tocaia. A melhor forma de fazer qualquer coisa é com tempo e foco, meu pai me ensinou. Matar para mim é basicamente isso. É fácil dar um tiro em alguém no meio da rua. Mas saber que o sujeito não vai levantar ou não ser preso é outra história. Não dou bobeira, sou um profissional que... AH! A MALDITA PORTA DE NOVO! ALGUÉM ENTROU!
Caralho, onde tava? Tocaia, claro! Sigo o alvo por algum tempo, nunca mais que uma semana. Fico por perto, mas sem dar pinta. Vou nos bares que ele vai, pego o mesmo ônibus, fico perto da casa onde mora... Em poucos dias, sei sua rotina. Em seguida, sumo por um dia. Como já sei como ele pensa e por onde se movimenta, é só escolher o local certo, a arma apropriada e fazer o serviço. Às vezes, por conveniência ou outro motivo você tem vontade de mandar o cara pro outro lado da terra logo de imediato. Mas não pode fazer, porque é preciso tempo e foco... Eu já comentei sobre tempo e foco?...  Mil perdões. Um cliente entrou na loja. É o que barulho que a porta faz realmente mexe com meus nervos! Será que ninguém tem óleo por aqui?
Voltando ao assunto, nesse tempo todo acabei com a luz nos olhos de muita gente. Sempre com uma eficácia e sutileza. Jamais fui parado por policial ou preso ou preciso lidar com vingança. Tive um colega que se deu mal porque deu bobeira, o irmão do alvo tava armado e caiu junto. Mas completou o serviço. Um bom profissional morre em serviço, mas termina. Na minha época de maior demanda, eliminei 15 num mês.
Após o primeiro ano, percebi que ainda ficava um pouco impaciente antes de cada matança. Não era nervosismo, mas o fato é uma adrenalina rola nas veias, o que pode lhe desconcentrar. Para matar, você precisa ser um monge de tão calmo. Calhou que o primeiro alvo naquele era um escritor que... DE NOVO ESTA PORTA? CARALHO! QUE TROÇO CHATO! NÃO PARA DE RANGER!
Tá, matei a porra do escritor e ele tinha um livro na mão. Levei o livro, a única vez que peguei uma lembrança de finado. Se chamava “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca. Li o negócio, me diverti horrores. Gosto de leitura leve, pra dar risada. A vida é muita tensa, já. E com este calor...
Um dia, fui finalizar mais um trabalhinho e tava um livro no bolso da calça. O sujeito entrou num puteiro. Como o sujeito provavelmente levaria talvez meia hora, e até acho justo deixar o cara ter um último momento feliz nesta dimensão, saquei o livro da mão e fiquei lendo. Era “O estrangeiro”, do Camus. Gostei muito do livro, mas não entendi o do cara ficar todo abalado porque matou. Tem gente que preciso comer ainda muito feijão com arroz para ganhar substância! Meu pai, por exemplo, era um bucho. O cabra não fazia nada... AH, PUTA QUE PARIU! A PORTA! DESTA VEZ NÃO RANGEU. VI ALGUÉM INDO EM DIREÇÃO E PENSEI “VAI RANGER, VAI RANGER.”
Bom, enquanto lia, me vi tão tomado pela leitura que, de uma forma estranha, deixou minha mente num estado de clareza total. Não ouvia carros, pedestres ou qualquer coisa que me deixasse apreensivo.  Quando o sujeito saiu, foi como se tivesse sido carregado pelo vento. Nada ficou entre nós. Me sentia frio feito ar condicionado de shopping. Andei com tranquilidade por mais algum tempo, ele entrou numa rua deserta, Pá! na cabeça e segui meu rumo. Foi ótimo.
Repeti a estratégia e sempre deu certo. A leitura, além de prazerosa, me bota num transe que preciso estar para executar a tarefa sem falhas. Já matei um cara num ensaio de escola de samba, uma vez. Para não chamar atenção, me escondi no banheiro para ler. Era “A hora da estrela”, da Clarice Lispector. Quando o alvo sentou na privada ao lado, mandei a hora dele logo em seguida. Terminei de ler o livro no ônibus de volta pra casa.
Agora, guardei dinheiro o bastante. Estou velho e cansado. Quero aproveitar meus últimos anos lendo na minha casinha nova, sem ninguém pra encher o saco... QUE SACO ESTA PORTA. Ô, GAROTO DO BALCÃO, NÃO TEM NINGUÉM PRA CONSERTAR ESSA PORRA, NÃO?
Não deixa de ser irônico que meu último alvo é num clube de leitura. Aparentemente, fez algo que alguém não gostou e ganhou uma passagem pra encontrar o criador por isso. Em geral, a maioria se vai por isso. O tal clube ia começar num horário, mas espero aqui já tem mais de meia hora? Será que é sempre assim? Tá quase vazio. Também com este barulho. Parece unha em quadro negro. Sempre detestei isso.
Volto-me ao livro. É mistério, chama-se “Suicidas”. Estou quase no final. Quero saber o motivo do crime. Com uma fome quase infantil, traço as páginas que me separam de meu destino. De repente, o horror. O horror absoluto. A MALDITA PORTA NÃO PARA DE ABRIR E FECHAR E RANGER!!! Os frequentadores devem estar chegando juntos, porque as pessoas não param de entrar e sair e a porta faz este som dos infernos!! Como alguém em sã consciência faz um clube de leitura com este barulho?!?
É demais. Dentre esta gente, avisto o alvo. Não penso. Dou um pitoco no meio da testa, três na porta e vou comer um pastel no Pavão Azul em frente a delegacia. Se vou fechar uma porta em minha vida, que seja com barulho.


Conto escrito para o encontro de 27/01/2015




Daniel Russell Ribas é membro do “Clube da Leitura” (http://clubedaleiturarj.blogspot.com.br), que organiza evento quinzenal. Escreve no blogue “Entre a rua e o meio fio” (http://multiconto.blogspot.com.br/), em parceria com o poeta Henrique Santos. Colabora como resenhista para o site “Boletim Leituras”. Mantém o blogue “Poema Diário” (http://pordiaumpoema.blogspot.com.br/), em que publica poesias de autores diferentes; atualmente em animação suspensa. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio).


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Mote do encontro 10/02/15


Texto lido por Márcio Couto    

 Graça infinita


 
Se, em virtude de caridade ou circunstância de desespero, você por acaso vier a passar algum tempo numa instituição pra recuperação de abuso de Substâncias, adquirirá todo um novo repertório de fatos exóticos.

Descobrirá por exemplo que as pessoas viciadas numa Substância, e que abruptamente param de ingeri-la, muitas vezes sofrem com uma acne papular medonha durante meses enquanto os depósitos da Substância lentamente são eliminados do corpo. Os funcionários vão te informar que isso ocorre porque a pele na verdade é o maior órgão excretor do corpo.

Ou que o coração dos alcoólatras – por motivos que Dr. nenhum conseguiu explicar – incha até obter o dobro do tamanho do coração humano civil, e nunca volta ao tamanho normal.

Que pode pegar meio que um leve baratinho anfetamínico se consumir velozmente três refris e um pacote inteiro de Oreo de estômago vazio (mas precisa segurar sem vomitar pra dar o barato, o que os residentes mais antigos vivem esquecendo de contar).

Que o arrepiante termo hispânico pro transtorno interno que conduz o viciado incessantemente de volta à Substância escravizadora é tecato gusano – e aparentemente conota algum tipo de verme psíquico interior que não pode ser saciado ou morto.

Que é possível, durante o sono, que alguns colegas de quarto extraiam um cigarro do seu maço de cabeceira, acendam, fumem até o sabugo, e aí amassem no cinzeiro de cabeceira sem te acordarem e sem incendiarem nada. Você será informado de que essa habilidade normalmente é adquirida em instituições penais, o que diminuirá a sua inclinação a reclamar do hábito.

Que as mulheres são capazes de ser absolutamente tão vulgares quanto às funções sexuais e excretórias quanto os homens.

Que mais de 60% de todas as pessoas presas por delitos ligados a drogas e álcool relatam ter sofrido abuso infantil, com dois terços dos 40% restantes relatando que não conseguem lembrar a infância em detalhes suficientes pra relatar se ‘sim’ ou ‘não’ no quesito abuso.

Que há exatamente tantos termos de gíria pro órgão sexual feminino quanto pro masculino.

Que um paradoxo pouco mencionado do vício é: ao notar estar suficientemente escravizado por uma Substância pra precisar largá-la e se salvar, a Substância escravizadora terá se tornado algo tão profundamente importante a você que praticamente enlouquecerá quando lhe for tirada.

Que certas pessoas simplesmente não vão gostar de você por mais que você tente.

Que por mais que se ache inteligente, na verdade você é bem menos inteligente do que acha.

Que mais de 50% das pessoas com um vício em Substâncias também sofrem de alguma outra forma reconhecida de transtorno psiquiátrico.

Que dormir pode ser uma forma de fuga emocional e pode com o devido esforço tornar-se um vício. Que se privar propositadamente de sono também pode ser uma fuga viciante.

Que é possível ficar tão puto que você realmente vê o mundo vermelho.

Que validade lógica não é garantia de verdade.

Que as pessoas más nunca acreditam serem más, mas na verdade que todos os outros o sejam.

Que é possível aprender coisas valiosas com um imbecil.

Que prestar atenção a qualquer estímulo por mais de alguns segundos requer esforço.

Que é estatisticamente mais fácil uma pessoa com QI baixo largar um vício do que uma com QI alto.

Que atividades entediantes se tornam perversamente menos entediantes se se concentra nelas.

Que se um número suficiente de pessoas numa sala quieta estiver bebendo café é possível discernir o som do vapor saindo das xícaras.

Que às vezes os seres humanos simplesmente necessitam ficar sentados quietinhos e, tipo, sofrer.

Que ficará bem menos preocupado com o que as outras pessoas pensam de você ao perceber o quanto elas pensam pouco em você.

Que existe uma coisa chamada bondade, crua, inadulterada, sem-segundas-intenções.

Que é possível cair no sono durante um ataque de pânico.

Que quase todas as pessoas viciadas em Substâncias também são viciadas em pensar, o que significa que elas mantêm uma relação compulsiva e patológica com o próprio pensamento.

Que o espirro de todo mundo soa diferente. Que as mães de certas pessoas nunca as ensinaram a cobrir ou desviar o rosto ao espirrarem.

Que as pessoas de quem deve ter mais medo são as pessoas que sentem mais medo.

Que requer muita coragem pessoal deixar-se parecer fraco.

Que meio que todo mundo se masturba.

E muito, no fim das contas.

Que certas pessoas sinceramente devotas e espiritualmente avançadas acreditam que o Deus delas as ajuda a encontrarem vagas de estacionamento e lhes dá palpites de números da loteria.

Que a generosidade anônima também pode ser uma Substância.

Que transar com alguém com quem não se importa te deixa ainda mais sozinho do que sequer ter transado, depois. Que é permitido sentir falta.

Que todo mundo é idêntico na sua tácita crença secreta de que bem lá no fundo é diferente de todo mundo. Que isso não é necessariamente perverso. E que no final está tudo bem.
WALLACE, David Foster. Graça infinita. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.


David Foster Wallace nasceu em Nova York, em 1962. É autor de romances como "Graça infinita" (1996), volumes de contos como "Breves entrevistas com homens hediondos" (1999) e duas antologias de ensaios como a compilação "Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo" (2009, seleção: Daniel Galera), entre outros livros. Ao se suicidar, deixou um romance inacabado, "The Pale King", publicado postumamente em 2011.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Mote do encontro 27/01/15



Texto lido por Jussara Ribeiro de Oliveira


A história da aia 




Volto pelo hall em penumbra e subo as escadas abafadas, pé ante pé até meu quarto. Sento na cadeira, com as luzes apagadas e meu vestido vermelho abotoado e lacrado. Só é possível pensar claramente se se está vestida.
O que me faz falta é a perspectiva. A ilusão de profundidade gerada por uma moldura, pela disposição de formas de uma superfície plana. É necessário perspectiva. Sem ela existem apenas duas dimensões. Sem ela, a gente vive com o rosto colado na parede, tudo se resume a um imenso primeiro plano de detalhes, minúcias, cabelos, a dobra de um lençol, as moléculas de um rosto. Nossa própria pele é apenas um mapa, um diafragma de futilidade, riscado por pequenas estradas que não levam a lugar nenhum. Sem ela, a gente vive o momento. Que é onde eu não quero estar.
Mas é onde estou, não há como fugir disso. O tempo é uma arapuca, estou presa nele. Devo me esquecer do meu nome secreto e de tudo o que passou. Meu nome agora é Defred, e é aqui onde eu vivo.
Viver no presente, tirar dele o máximo proveito: é só o que temos.
Hora de fazer um balanço.
Tenho trinta e três anos. Tenho cabelos castanhos. Tenho um metro e setenta de altura, sem sapatos. Tenho dificuldade em me lembrar da minha aparência anterior. Tenho ovários viáveis. Tenho mais uma chance.
Mas alguma coisa mudou agora, hoje, esta noite. As circunstâncias se modificaram.
Posso pedir alguma coisa. Não muita coisa possivelmente; mas alguma coisa.
Os homens são máquinas de sexo, dizia Tia Lydia. E pouco mais do que isso. Só querem uma coisa. Vocês tem que aprender a manipulá-los, pelo seu próprio bem. Mantê-los em rédeas curtas – isso é uma metáfora, claro.  É o esquema da natureza. O plano de Deus. É a vida como ela é.
Dizer isso ela não dizia; mas estava implícito na maneira como falava. Pairava sobre a sua cabeça, como os dizeres dourados pintados sobre as cabeças dos santos, em épocas mais obscuras. Também como eles, ela era angular e descarnada.
Mas como encaixar nisso o comandante, tal como ele é agora, no seu escritório, com seus joguinhos de palavras e o seu desejo... desejo de quê? De ter com quem jogar, de ser docemente beijado, como se fosse a sério.
Agora preciso levar a sério este seu desejo. Pode ser importante, pode ser um passaporte, pode ser a minha ruína. Preciso me compenetrar disto, preciso ponderar a respeito. Mas não importa o que eu faça, sentada aqui no escuro, como os holofotes lá fora, iluminando o retângulo da minha janela, penetrando as cortinas etéreas como um vestido de noiva ou um ectoplasma, enquanto seguro uma de minhas mãos com a outra e me balanço levemente, para frente e para trás. Não importa o que eu faça, há algo nisso de hilariante.
Ele queria que eu jogasse mexe-mexe com ele, que o beijasse como se fosse a sério.
Esta é uma das coisas mais bizarras que já me aconteceram em toda minha vida.
O contexto é tudo.                                  




Margaret Eleanor "Peggy" Atwood é uma escritora canadense: romancista, poetisa, ensaísta e contista, que foi reconhecida com inúmeros prêmios literários internacionais importantes. Recebeu a Ordem do Canadá, a mais alta distinção em seu país.