quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Mote do encontro 09/12

texto lido por Fernando Sousa Andrade


Dez centímetros acima do chão

 



Não fale com fantasma


Entre oito da manhã e dez da noite a porta de vidro fica liberada para entradas e saídas. O movimento é incompatível com a localização, uma esquina mansa do centro da cidade, e incompatível também com o espaço interno, um salão estreito e pouco profundo. Um café incompatível, é isso encaixado entre dois espigões numa fenda mínima, mínima. E se eu disser que a porta range serei pouco preciso: o rangido fará de você, entrante, o centro das atenções. Ninguém chega sorrateiro ao Tulipa Dourada, birosca mais antiga da região, ponto reverenciado por artistas sem palco e sem banda, e ainda hoje é assim, refúgio cultuado por velhotes sem ocupação e por turistas bem informados, que ficam extasiados com a atmosfera despencada do estabelecimento. Bacana visitar o Tulipa, bem bacana, você precisa aparecer por lá. É só descer daqui a duas estações e me seguir, ou perguntar para qualquer um na vizinhança, todo mundo sabe onde fica. Você precisa tirar fotos com o afresco ao fundo. O afresco reproduz uma noite típica do Tulipa de outras eras, e tem mais de meio século de idade, obra de um frequentador célebre, não lembro qual, e é um tanto tosco em matéria de refinamento artístico, sim, mas carrega uma vibração nostálgica ao sugerir tamanha alegria, moças cantando num coro, insinuantes, por mais ridículo e antiquado que possa soar o adjetivo. Acompanhadas por um senhorzinho à pianola, e homens bem- vestidos que sopram seus instrumentos para uma turma de boêmios às gargalhadas. E o cenário da fuzarca pintada na parede está fielmente preservado, tudo ali, em três dimensões, para o deleite dos novos frequentadores: estão ali as mesas com tampo de mármore, as cadeiras de madeira escura, as fotos que forram as paredes laterais, e até mesmo a pianola coberta por um pano desbotado, atestando que a história retratada com tinta pode ter sido história acontecida de fato, e servindo de passatempo aos turistas que tentam identificar os objetos reais na pintura. Você precisa conhecer. É inevitável imaginar alguns velhotes que tomam conhaque nas mesinhas individuais tenham de fato, presenciado aquela fase de ouro e música. Se sim, agora velam serenamente o descanso da espelunca. O clique enunciado nos guias turísticos não pode ser mais exato, juro: visitar o Tulipa é fazer uma viagem ao passado. Entrei ali pela primeira vez em uma dessas manhãs geladas e chuviscantes. Eu estava obviamente pouco agasalhado, minha jaqueta de brim úmida da garoa. Entrei rápido, afastando qualquer um que bloqueasse meu caminho em direção de um café quente e forte. Uma casal de turistas apontou os olhos claros na minha direção e me recebeu com um par de daqueles sorrisos meio bobos que os casais nômades de origem escandinava carregam o tempo todo, junto com as camisas de linho surradas e as calças caqui que se transformavam em bermudas com um puxar de zíper. Uma velha que ruminava um alimento indecifrável também eriçou o olho esquerdo e talvez tenha me saudado com a cabeça. Acho que foi sim, uma espécie de saudação. O homem de meia idade que atende ao balcão bateu as mãos no tampo e perguntou o que ia ser, assim mesmo o que ia ser hoje?     

CAFIERO, Flávio. Dez centímetros acima do chão. São Paulo: Cosac Naify, 2014.
  



Flavio Cafiero é carioca e vive na cidade de São Paulo. Formado em comunicação social pela UFRJ, é também ator, dramaturgo e roteirista de cinema e televisão. Seu romance de estreia, O frio aqui fora (Cosac Naify, 2013), foi finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti (2014). Dez centímetros acima do chão (Cosac Naify 2014), livro vencedor do prêmio Cidade de Belo Horizonte (2013), é sua primeira coletânea de contos.