quinta-feira, 30 de outubro de 2014

São Paulo, 40 graus - Guilherme Preger



São Paulo, 40 graus
São Paulo, 40 graus, aqui ficou tudo um caos. Do alto do Edifício Copan, eu vejo a cidade, mas não vejo amanhã. Não chove, não cai água, só há suor e mágoa. Lá embaixo,  vejo multidões sedentas, sinto sedes irredentas. No asfalto calcinante, sufocam os ambulantes. Nas calçadas ao sol, está aceso o paiol. Mataram todos os mananciais, agora não vai ter paz. Chegamos ao fundo do poço, estava sem água e todo mundo está no osso. Os manos cavam fundo a terra que só minério encerra. Maluf furou por petróleo, mas só automóvel engole óleo. Agora é sem apelo, não sobrevive nem camelo. Nego te fez de otário, te chamando de dromedário. Construíram estrada e viaduto e puseram no tributo. Fizeram uma cidade para os carros e não há saliva para escarro. Gasolina tem bastante, mas a água é diamante. A cidade virou um sertão, mas secaram o coração. Dizem que o corpo é todo líquido, mas nego foi muito iníquo. Secaram os dias e a esperança, agora é cada um com sua dança. Todo mundo espera a chuva, como o morto, a viúva. Vale qualquer reza, e somente a fé pesa. Mas se um dia chove, dessa água não há quem prove. Água cai no concreto e depois segue reto. Vaza e cai no canal, e daí é só lamaçal.  Quando encontra o Tietê, continua a escorrer. O rio vira esgoto, e as margens são como ceroto. E já não lavam nem as lágrimas, a situação é inteira lástima. Vou-me embora depressa, essa é a firme promessa. Vou pôr os pés no chão, pois não há outra opção.  Me refugiar na floresta é tudo que me resta. Levarei só a saudade, de uma antiga idade. Do Anhangabaú e do Pinheiros, quando havia verde o ano inteiro. Agora eu levo nos ombros pedaços de escombros. Quero encontrar minha sombra, onde o sol não assombra. Quero descansar junto a um regato, e deitar onde haja mato. Quero encontrar um lugar onde se possa relaxar. A cidade virou sertão, mas o sertão não virou mar.

Conto escrito para o encontro de 15/08/2014



Guilherme Preger é escritor e engenheiro, autor de Capoeiragem (7Letras) e está no Clube da Leitura desde sua fundação.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Mote do encontro 28/10



Texto lido por Daniela Ribeiro

Os falsos cretinos


(...)
O trágico da nossa época ou, melhor dizendo, do Brasil atual, é que o idiota mudou até fisicamente. Não faz apenas o curso primário, como no passado. Estuda, forma-se, lê, sabe. Põe os melhores ternos, as melhores gravatas, os sapatos mais impecáveis. Nas recepções do Itamaraty, as casacas vestem os idiotas. E mais: – eles têm as melhores mulheres e usam mais condecorações do que um arquiduque austríaco.
Não sei se me entendem e se concordam comigo. Mas é o próprio óbvio. A olho nu, qualquer um percebe a ascensão social, econômica, cultural, política do idiota. Outro dia, passou por mim um automóvel das Mil e uma noites, sim, um desses Mercedes irreais, com cascata artificial e filhote de jacaré. Lá dentro ia um idiota flamejante.
Desde Noé e antes de Noé, jamais um idiota ousaria ser estadista. É verdade que, na velha Roma, um cavalo foi senador. Mas o cavalo é um nobre animal, de maravilhoso frêmito nas ventas. E nunca se viu um idiota relinchar. Pois bem. Hoje, tudo é possível, tudo. Há idiotas liderando povos, fazendo História e fazendo lendas. Mao Tsé-tung seria impossível em outra época. Em nosso tempo, passa por ser um estadista gigantesco. Há rapazes, aqui, que se dizem da “linha chinesa”. Embora a distância geográfica que os separa, jovens brasileiros estão por conta de Mao Tsé-tung.
E, assim, lidos, viajados, falando vários idiomas, maridos das melhores mulheres – os nossos idiotas têm também os melhores cargos e exercem as funções mais transcendentes. Eu disse que estão por toda a parte: – na política como nas letras, nas finanças como no cinema, no teatro como na pintura. Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: - ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.
Dirão que exagero. Absolutamente. E é tão importante ser idiota, tão decisivo, que já desponta a fauna, sem precedentes, dos “falsos cretinos”. São rapazes inteligentíssimos, bem dotadíssimos, alguns beirando a genialidade. Pois bem. O sujeito, para viver, ou sobreviver, enterra o próprio espírito, como as joias de Raskolnikov. E, se for preciso, ele finge debilidade mental e põe-se a babar na gravata, copiosamente.
Eu citaria o exemplo do Ferreira Gullar. Ex-poeta maravilhoso. Seu livro A luta corporal ficou, se me permitem a ênfase, como um momento de eternidade. Mas o Ferreira Gullar foi cercado, envolvido, triturado pelos idiotas. E, hoje, só consente em ter espírito, à meia-noite, num terreno baldio, sob a luz de fúnebres lampiões.
(15/4/1968)
RODRIGUES, Nelson. O óbvio ululante. Rio de Janeiro: Editora Agir, 2007.



Nelson Rodrigues nasceu no Recife, em 1912. Aos 5 anos, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, indo morar em Aldeia Campista, bairro que depois seria absorvido pelos vizinhos Andaraí, Maracanã, Tijuca e Vila Isabel. Em contato com a imaginação fértil do futuro escritor, a realidade da Zona Norte carioca, com suas tensões morais e sociais, serviu como fonte de inspiração para Nelson construir personagens memoráveis e histórias carregadas de lirismo trágico. Lado a lado com o teatro, o jornalismo foi para ele um ambiente privilegiado de expressão. Em 1943, sua segunda peça, Vestido de Noiva, revolucionava a maneira de se fazer teatro no Brasil. Morreu no Rio de Janeiro, em 1980, aos 68 anos. Além dos romances, contos e crônicas, deixou como legado 17 peças que, vistas em conjunto, colocam-no entre os grandes nomes do teatro brasileiro e universal.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Partilha amigável - Clara I. P. Mello



Partilha amigável


- Toma, fica com ‘o sexo'. Acho que não vou mais usar.
- Hum... é? Enão me dá.
- Posso ficar com ‘a parcimônia'? Sei que era sua, mas é que eu nunca tinha tido, agora me acostumei e já não sei viver sem ela...
- Tá, mas então você concorda em deixar ‘a desinibição' pra mim?
- Se ela quiser, pode ficar...
Quando recobrou a atenção no que estava se passando a sua volta, parecia que o pessoal da empresa de mudanças estava parado ali na frente dela esperando orientações há pelo menos uma hora.
Levantou os olhos que estavam fixos num jarro de vidro e deu de cara com o Sr. Luiz, encarregado chefe da mudança. Na blusa dele leu: "Gato Preto", e daí pensou que ‘a sorte' não poderia ser partilhada. Ele e ela deveriam mantê-la porque o azar de um deles poderia comprometer os projetos de ambos.
A sala foi-se esvaziando e já se ouvia o eco do apartamento vazio.
Já nos últimos itens despachados viu que ia sobrando a caixa de fotografias. Como é que eles não tinham falado sobre quem ficaria com as fotos?!
Na verdade não era uma caixa de fotos, mas uma pequena arca. Ao longo dos anos, com o falecimento de sucessivos familiares dele e dela, foram se juntando mais e mais acervos fotográficos. Para aquelas fotos de familiares, não havia dúvidas de que cada um ficasse com o que lhe dizia respeito; mas e as fotos deles mesmos, como ia ser?
Por um momento lembrou que sempre planejou que as primeiras coisas a serem salvas de um eventual incêndio seriam as fotos. Pois ali estão elas, justamente algumas das últimas coisas que sobraram no apartamento praticamente vazio...
Pensou então que sobre as ‘fotografias' nunca há uma decisão consciente, um dos dois simplesmente as leva e o outro finge que não percebeu, o que é muito diferente de concordar com isso.
Fez uma fantasia sobre como seria agradável que, durante um jantar, fossem escolhendo, um depois do outro, foto a foto, sem direito de arrependimento. Mas aí atinou que não haveria mais jantar, nem mais brincadeira feliz para eles no futuro. 




Clara Innecco Pereira de Mello, carioca, solteira, nascida no Rio Comprido, filha única de mãe Niteroiense, bibliotecária, e pai nascido em Nova Iguaçu, desenhista industrial. Formou-se em direito na década de 1990 e vem atuando como advogada desde então. Escrever textos fora do contexto de sua profissão nunca foi uma possibilidade explorada até o recente e prazeroso encontro com o 'Clube da Leitura'.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Um conto sobre o infinito - Francisco Ohana



Um conto sobre o infinito

A luz da rua empalidecia de indecisão o fim de tarde. Gostava de anoitecer porque as pessoas voltavam para casa, porque os sons começavam a ter eco, porque a brisa era fria. Porque as janelas ficavam brancas e amarelas e a vida parecia uma piscina. Um mecanismo artificial. Seguia as marcas de sapato depois de poças na calçada sobre as quais gente e gente. Chutava pedacinhos de galho, entrava numa loja de vestidos e ia ao banheiro. Procurava gotas secas de xixi na porcelana, denunciando que alguém, além dela, havia estado ali. Notava que os animais da noite (formigas voantes, libélulas e demais insetos) eram outros que os do dia – sabia de histórias de bichos com hábitos noturnos na mata detrás dos prédios. Olhava janela adentro nos andares baixos e via a cena repetida da caixa de música da vida particular. E, assim, ainda não existia dia seguinte no meio do ano.

Não importava quantas cidades viesse a conhecer – seu mundo era um bairro de praia. Batia à porta do teatro: Quanto é? Acostumara-se à superfície dos espelhos do salão de entrada, ao suspense no cartaz de um novo espetáculo. Nada lhe era dito da luz, do distanciamento, das coisas que sufocavam. Boa pergunta, boa resposta: Entra, menina. Menina. Ignorava o intuito de tamanhas generosidades, e tudo era mais prazeroso quando tinha bom humor, quando nada quebrava nas prateleiras e decidia-se por caminhos estreitos, contando ladrilhos, alcançando muito eloquente as muretas de pedra. Seus passos eram apenas comparáveis a si próprios, numa amarelinha desordenada. Naqueles ensaios, contudo, importavam-lhe mais as sombras das cadeiras no fundo da plateia vazia, como um lugar de edificações ilusórias. Como um montão de entulho no espaço. Era isso que lhe falava melhor, quando a arte permanecia no interior do teatro morto. A bailarina dança e fala, e aquele discurso logo se dilatará.

Na boca de Luísa, as instituições passam, mas as motivações para desenvolvê-las, não. Os motivos persistem. Se de algum modo um estado de coisas passa, os homens continuam. E outros, depois. E ainda, outros, numa história de impropriedades sobre impropriedades. Diante da prepotência da natureza e da transitoriedade do corpo, restam os construtos institucionais e o incompreensível mal-estar que deles vem. (Menina ouve.) Sua investigação sobre a felicidade deixava a todos, espectadores, ainda mais desprotegidos, ao fazer graça da experiência milenar que nos trouxera até ali. A iluminação dá uma tessitura de bruma ao palco, como se a trama do texto se reproduzisse nos focos sobre a atriz. Não se tratava de um personagem, mas dela própria, da menina de pescoço curvado para trás, que em Luísa se via, deixando tombar a cabeça no encosto. Assim ela era delicadamente convidada a olhar para cima, a ouvir grego. E vivia uma quimera de felicidade no atropelo de seu pequeno universo, nos retalhos de frases e passos circulares. Nos dedos que chamam para um instante de suspensão à beira de uma terceira margem: Você tem medo de sonho por quê? Prefere vida real? A menina olhava para Luísa como se buscasse segurança em lembranças que não possuía. Agia como se nada fosse banal – pois não era. O bairro de praia. Os modos do gordo que come pão com queijo amarelo, da velha de braços engelhados que se mela de doce de chocolate mesclado na confeitaria. E franzia o rosto, via um príncipe de bermuda, reconhecendo-o por seu jeito de retornar de um beijo. Devagar... Devagar... Devagar e as costas pendidas, tudo bastante verossímil, muito convincente.

Ela gostava das cenas daquela coreografia. Punha as mãos no peito e sentia sua taquicardia, pressionando a si mesma em constrição encolhida, ouvindo as batidas do peito enrolada sobre si. Buscaria Luísa inúmeras vezes. Imaginaria seus passos de dança, seus cachinhos. Ou os cabelos de lado, presos com grampos intermináveis, ou num coque acima da nuca. Luísa. Luísa. Que deixava um cheiro de banho por onde passava. Seu trajeto para vê-la não era trivial: às vezes ia a pé, às vezes de bicicleta, às vezes de ônibus, às vezes de metrô e, às vezes, combinava dois desses meios de transporte. Comprava pãezinhos e pastas, tomava um suco, tinha dor de barriga, mas preferia ir. Um dia, por fim, abraçaram-se, subiu um cheiro estranho de talco, a ameixa que a menina mordia rolou pelo chão, parando num canto empoeirado do palco. Desceram até a pia, lavaram a fruta, secaram-na e a menina voltou a comer: Se você soubesse o que sabe agora sobre o que eu fazia, teria vindo? A criança: Sim. Então correram em círculos, deitaram no chão, dois seres pisantes contidos em seu movimento. E a pequena, desde então (todos os dias), passou a enfiar os dedos das mãos entre os dos pés – tirando urubus e sujeirinhas – para aumentar o espaço entre eles, alargá-los, quando chegava em casa.

Conto escrito para o encontro de 19/08/2014



Francisco Ohana é economista e participa de atividades que o mantenham ligado às artes, principalmente literatura, teatro e música. Frequenta o clube de leitura do Baratos da Ribeiro desde fevereiro de 2014.