sábado, 31 de maio de 2014

O verme do meu analista - Vivian Pizzinga

O verme do meu analista



Estive, dia desses, lendo o Kundera, insustentável e leve, e pensei sobre a merda e deus, deus e suas vísceras mais recônditas, a merda borbulhando no grosso e no delgado, o ânus como porta de saída de tudo o que um dia entrou, o homem à imagem e semelhança sabe-se lá de que devorador de comidas cósmicas.
Estive pensando a seguir - associei de modo livre e esvoaçante - no meu analista, o Otto, muito impecável em suas cores em tom pastel, sua poltrona atrás de mim, seus leves movimentos, certos menear e piscar e andar, interpretações certeiras e perguntas perturbadoras, e lembrei de uma sessão em que ele disse que tomou vermífugo, nem sei a deixa, nem sei motivos, não sou capaz de adivinhar a finalidade de seu dito, mas que disse, disse! Tão contraditória aquela revelação com toda a discrição e todo o bojo de psicanalista dos bem formados, bem lidos, bem freudianos cultos, que cheguei a engasgar e, hoje, às vezes, só às vezes, duvido de que ele tenha feito uma tal confissão. Acabei lembrando também - associando de modo solto e desapegado - do dia em que ele disse que gostava de leite. Tão contraditório o Otto.
Esses pensamentos parecem ter sido o gatilho. Juntei, em questão de instantes atemporais, deus, kundera, merda, intestino grosso, intestino delgado (senti asco pensando no delgado, mas a imagem do grosso foi a mim indiferente), e mais o Otto, o vermífugo, o leite, juntei tanta coisa que me veio até um arroto. Por sorte, consegui interromper o arroto antes de ele virar som, e mais sorte ainda, o arroto abortado se deu em casa. Se fosse na análise, daria pano pra manga.
Mas os pensamentos não cessavam, e imaginei o intestino do Otto e se ele tem intestino. Acho mais fácil imaginar que deus o tenha (não ao Otto, mas aos intestinos, grossos, delgados, de qualquer espessura), do que meu analista. Ele que me acompanha há exatos 17 anos, que me viu fazer a cirurgia da vesícula, que me viu tirar o siso e ter alergia a amoxicilina, que me viu defender o mestrado em educação, que me ouviu falar sobre Paulo Freire, que me viu tentar o Doutorado e não conseguir e chorar uma semana, que acompanhou meu divórcio da Kátia, que me viu casar de novo com a Andréa, que me viu ser traído pela Andréa e procurar a Kátia de joelhos, que me viu pensar em adotar um filho e desistir na primeira visita ao orfanato, que me escutou em sonhos e pesadelos sobre os assuntos mais diversos (nunca sobre deus, sua merda e seus outros distintivos humanos ou biológicos). Ele que me acompanha há 17 anos, que não atrasa, que raramente desmarcou uma consulta (teve aquela em que achei que havia um choro embargando sua voz, pus-me a imaginar mortes, doenças, filhos depravados sendo buscados na boca de fumo na mais calada das noites) e teve aquela outra, em que alegou um motivo de saúde e suspendeu o atendimento por uma semana, mas, em 17 anos, vá lá, isso não é nada. Não consigo pensar que Otto, que me ouve há 17 anos, que me ensinou um pouco quem eu era, quem eu sou, quem eu achava que era, quem eu queria ser, quem eu não queria ser, quem eu jamais deveria ser, quem eu achava que jamais deveria ser, quem ele achava que eu deveria ser, e por aí vai, não consigo pensar que Otto come, digere e caga. Que talvez tenha tomado vermífugo. Que aprecia leite (não tive coragem de aprofundar a questão e saber se era integral ou desnatado, de cabra ou de vaca).
Não dá. Não o Otto. O Otto não sabe o que é um vaso sanitário. Jamais. O Otto nunca entrou em contato com um papel higiênico. Nunca teve remela.
Se tosse, é sem catarro,
se fica doente, é sem coriza,
se tem febre, não passa de 37,5,
se não escova os dentes, nunca tem mau-hálito,
se come comida podre, nunca tem gases,
se espirra, é sempre sem som,
jamais vomitou e não sabe o que é isso.
O Otto não. Mas deus, esse sim. Tem intestinos. Come nojeiras. Permitiu a criação da FIFA e que houvesse uma Copa no Rio de Janeiro, em 2014. Rejubila-se, sádico, quando a cidade, por causa de mega eventos, vira um caos. Deus é desses, sádico, irônico, vingativo. Se existe. E se tem intestinos. Se os tem, caga na cabeça de todos, solenemente. E o faz rolando de rir. Tosse, cospe, vomita, escarra, arrota e soluça.
Quanto ao meu analista, que não sei por que tomou vermífugos (desconfio agora que seja alguma fantasia minha, devo me certificar na próxima terça, às 18h30), quanto ao Otto, não caga e não arrota. Não tem cu e não tem medo.


Conto escrito para o Clube da Leitura de 27 de maio de 2014.




Vivian Pizzinga é autora de Dias Roucos e Vontades Absurdas, pela Editora Oito e Meio. É também psicóloga. Tem um gato chamado Vuvu. No outono e no inverno, toma chá para esquentar as mãos.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

O Insaciável homem-aranha - Vinicius Varela



Recomendação de livro por Vinicius Varela



Pedro Juan Gutiérrez: “El Prometeo sexual”


Foi assim que Roberto Bolaño (contemporâneo seu, embora este último seja Chileno) chamou o cubano, já prevendo o sucesso do trabalho de Pedro. O apelido não poderia descrevê-lo melhor. Com uma voz narrativa cortante, uma mistura da rebeldia beatnik com a sexualidade de um Marques de Sade, o autor faz os seus leitores perceberam logo que há algo de diferente no que ele tem a dizer. Em “O Insaciável homem-aranha”, o narrador e personagem da história nos guia os passos por uma Havana decadente, libidinosa, suja, um lugar com regras próprias onde nada do que valeria no mundo exterior parece se aplicar. Por sua audácia, o autor ainda é inédito em Cuba. Seus livros não circulam no país. Conseguiu publicar seus livros pela editora Anagrama, uma das mais prestigiadas editoras da Espanha e reconhecida nos países hispânicos. Sua prosa é dura e a suas histórias tem muito que revelar. A realidade de Cuba completamente devassada nas palavras do escritor choca e ao mesmo tempo envolvem. Ele mesmo consegue se ver livre de seu fascínio por essa Havana que exala loucura e descontrole. Entrevistados, disse que só sai de Havana morto ou expulso, que é ali que precisa estar para encontrar a sua matéria prima. Em um trecho do livro vemos a angústia que permeia os habitantes da capital cubana:  “Olho pela janela. Está tudo pior que ontem, mas, por tradição e conveniência, não se diz isso. O correto seria: ‘olho pela janela. Tudo bem’ “. Um submundo onde o sexo e o rum servem de válvula de escape e mantém, mesmo que momentaneamente, a normalidade de um lugar que está prestes a explodir. A impressão que temos é de que é impossível viver ali, em Cuba, um lugar completamente inabitável: “Tento esquecer que tem sempre alguém controlando, opinando, decidindo nossas vidas. Não é bom lembrar disso porque o tigre que eu tenho dentro de mim fica furioso. E isso é terrível. Posso ficar vingativo e selvagem. Posso perder o controle. E na selva quem perde o controle perece. Nada de perder o controle. Tem que ser astuto.”
Há um permanente clima de tensão que faz as histórias pulsarem. O cubano cria uma atmosfera que proporciona uma verdadeira overdose de realidade. Não há descanso para o leitor. “O Insaciável homem-aranha” é um livro contos onde um personagem protagoniza todas as histórias, constituindo assim um romance composto por contos. O livro foi um verdadeiro presente. Me foi dado por um amigo (Filipe Ralha), comprado no Sebo Baratos da Ribeiro. Me impressionei. Aquelas palavras ficaram na minha cabeça e ainda hoje voltam. A coragem de ficcionalizar a própria vida demonstrada por Juan é admirável. Conta a si mesmo com uma brutalidade que machuca, mas não a ele, que aguenta firmemente cada palavra, senão ao leitor. Vida e obra se confundem permanentemente: “Julia quer que eu escreva coisas alegres e bonitas. E minha verdadeira vocação é me meter nas cloacas, pegar ratos e abrir a barriga deles com um facão para ver o que tem dentro”, diz o personagem.  Não bastasse tudo isso. O livro é imperdível pela maneira tão contemporânea que Gutierrez tem de narrar. Sua fluidez é incrível, fazendo a história leve, na medida do possível. Não se engane. Quem ler esse cubano não sairá ileso.   

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Trecho do livro "Poema", de Alex Andrade

O autor Alex Andrade esteve no Clube da Leitura de 13/05/14. Ele leu um texto de seu livro, "Poema", e cedeu dois exemplares para o sorteio no fim da rodada. Abaixo, o começo de seu conto, "Minhas noites com Rimbaud".

Minhas noites com Rimbaud

Paulo, então, experimentou novamente seu exercício de prazer.
Abriu a porta da casa sem fazer barulho, destrancou tudo, e foi saindo, deixou a casa com as portas escancaradas, sem a preocupação de fechá-las depois. Continuou a andar. Os olhos estavam compenetrados e os ouvidos concentrados na música que vinha daquela casa.
 A pequena luz apontando o caminho: “Oh não, não”, pensou em um instante. E enquanto entrava, disse: “Deus, me surpreenda.”
Abriu o portão com uma rapidez incrível, que nem mesmo ele sabia que tinha, pois a todo momento lembrava que lhe faltava coragem para a vida. Depois se meteu dentro da casa e foi entrando. O ar fresco era inominável, ele que morava nas montanhas numa cidade fria estava desacostumando com tudo.
Recomeçou então a andar, agora duro, tateando as paredes para se assegurar de alguma coisa. Ajeitou o casaco que tinha apanhado antes de sair. Com a leve contristação de quem vivera desamparado por uma vida inteira, sem ninguém, revelava-se então um homem prestes a desvendar as surpresas da vida.
Mas a música lhe rodava os pensamentos mais inabitáveis: a ausência dos pais, a falta do amor num cansaço da procura, num choro mudo, e ele quis voltar.
No instante seguinte, o homem, sem conseguir recuar, viu apenas a sombra de alguém a andar pela sala, silenciosa e firme. Depois ouviu aquela voz, o piano não era mais tocado.
De súbito recorreu a ele o medo de tudo.
Mas era tarde e se manteve onde estava.
Andando de um lado para outro, impaciente, o corpo magro, frágil, vestido com roupas largas perambulava pela sala.
Numa das mãos um livro, enquanto a outra gesticulava impunemente, sempre com um cachimbo aceso.
Pela sombra via o emaranhado dos fios do cabelo. Era um menino. Tão belo que, à distância, desenhava-se um enigma. Nos olhos carregava a melancolia erguida pelo espírito.
O homem ficou parado admirando-o, talvez quisesse ir embora, mas o som que vinha era bom, melhor do que a canção do piano que o conduzira até ali.
E no silêncio da noite fria, os passos apressados, gestos largos, um olhar desenfreado a romper-lhe os nervos, o menino o olhou um instante.
 Paulo sentiu o frio que entrava pelas janelas abertas da casa azul, teve o ímpeto de fechá-las, mas o menino protestou: não feche, deixe o ar entrar, preciso sentir esse frescor, preciso respirar, dizia, enquanto conduzia o outro até a cadeira perto da janela.
Eles então se olharam.
O menino sorriu e estendeu a mão, muito prazer, Arthur Rimbaud, às suas ordens.
O homem aprumou um pouco a cabeça, ligeiramente recuou o corpo em desconfiança. Mantendo os olhos bem abertos, uma sensação de aflição foi se misturando com tantas outras, ele permaneceu imóvel enquanto o outro falava. O coração apressou-se em bater mais rápido, numa espécie de fuga para não sentir o que estava sentindo.
O menino deu outra investida, já derramei lágrimas demais, desgosto me assoma, sorriu com seus olhos de vertigem.
 O homem desviou o rosto perplexo, desprendeu-se da cadeira e estava quase saindo daquele lugar quando o menino, sem se mover, de onde estava, abriu os braços e disse pausadamente, como tentativa de assegurar ao outro de que ele era quem era: Arthur Rimbaud.


(do livro "Poema", Confraria do Vento, 2013)



quinta-feira, 22 de maio de 2014

Mais um dia - Yassu Noguchi

Mais um dia


Ao acordar, percebi. Ela já havia passado pela pia: o tubo de pasta de dente apertado na parte da frente, do contrário que faço, seguindo a lógica. Ela já havia passado pelo chuveiro: a calcinha molhada pendurada na torneira, diferente de mim, que coloco as cuecas na máquina. Ela já havia passado pelo closet: uma pilha de roupas espalhadas pelo chão, contrastando com minha coleção de camisetas pretas e blusas sociais brancas, para não ter dúvida. Ela já havia passado pela cozinha: a marca de batom na xícara dentro da pia, e a garrafa da cafeteira cheia, que nada se fazia dela, pois não tomo café. Ela já havia passado pela sala: correspondências fechadas e o jornal fora da ordem, que eu prontamente, ao ver, abria e arrumava, caderno por caderno. Ela já havia passado pela varanda: a areia do gato trocada, o que não amenizava - essa higiene toda que ela fazia questão de manter - meu horror por animais de estimação. Ela já havia passado pela área de serviço: secadora em funcionamento, contando com seu desligamento automático e eu, que precavido, a desligava no ponto que ela estivesse, para que nada acontecesse enquanto estivéssemos ausentes. Ela já havia passado pelo quarto de hóspedes: a fronha do travesseiro úmida, com marcas de rímel, que eu imediatamente colocava de molho com alvejante. Ela já havia passado pela porta: por onde não a vi mais entrar.


Conto escrito para o encontro de 13/05/2014






Ha-fu japonesa, mezzo italiana, e natural do Rio de Janeiro, Yassu Noguchi é contista, artista visual, poeta residente do Pizzarau e do Santa Poesia, e integrante dos coletivos Romã com Travesseiro e Balalaica.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

A voz - Jeanine Salvaterra

A voz


1-Abertura

Entrou no palácio Quitandinha como quem percorre um  labirinto. Buscava ouvir a voz  naquele lugar.Passado e presente  se confundem. Ali, sua  mãe havia experimentado o glamour de uma época. Era cantora lírica, e apresentou-se nos palcos de cassinos no final dos anos 30 e início da década de 1940.
“Ela cantou aqui”, pensou, e um arrepio percorreu-lhe a alma, “em meio ao tilintar de moedas, misturando-se ao eco dos gritos dos jogadores suicidas.” 

2-Allegro non molto

No imenso salão azul de jogos, de 30 metros de altura, onde não havia dia nem noite, apostadores ganhavam e perdiam fortunas, fazendas, desgraçavam famílias, suicidavam-se.Ao lado, o teatro onde se realizavam os shows. Mais adiante, a boate, com suas mesas e cadeiras almofadadas em torno do segundo palco do antigo Hotel Quitandinha, que hospedou celebridades e  foi cenário de ostentação e do poder destruidor do dinheiro.
Ainda no térreo do palácio que, ao ser inaugurado na década de 1940, era um hotel, o mais luxuoso da capital do país, havia grandiosos  salões de estar.Um corredor dava acesso a  uma  galeria, onde exibiam-se fotos das celebridades que freqüentavam o hotel. Ao final da galeria, foi erguida uma imensa gaiola onde eram aprisionados animais nativos, como araras e  papagaios. À esquerda, uma piscina em forma de piano servia aos hóspedes que podiam locomover-se através de elevadores privativos.
Pensar que sua mãe convivera com toda aquela demonstração de opulência. Era uma artista, oriunda de família de latifundiários rio-grandenses-do-sul.Eles próprios haviam perdido o patrimônio nas mesas de jogo.A roda girava, e surgia uma artista no tempo em que as mulheres artistas eram confundidas com putas. Para ela, cantar era a necessidade maior de expressar-se, era a sua vocação.E o ambiente para exercer essa vocação foram no início as rádios e depois os cassinos: Urca, Atlântico, Icaraí, Quitandinha. A carreira meteórica durou apenas 10 anos.

3-Adagio

 Terminou como terminaram várias outras carreiras de contemporâneas: ao casar-se. A sorte estava lançada. O jogo acabara. De volta à condição de mulher, cumpria seu destino. Uma fatalidade. Aceita como tal. Não havia como escapar.
Mesmo assim, durante algum tempo foi possível continuar sonhando. Até que  a ilusão do casamento por  amor chegou ao fim. Mas, havia ainda a voz. À noite, ela cantava. Sua voz reverberava em meio à escuridão do sítio  onde morava. Perpassava mangueiras, jaqueiras, cajueiros, goiabeiras, jamelões, limoeiros , chegava aos ouvidos dos filhos, das sobrinhas e dos cães.Estes, em resposta, faziam coro, uivando.

Até que a voz foi se tornando  cada vez mais inaudível.Recusava-se a acompanhar a dona. Transformou-se num sopro, confundindo-se com o vento. Os cães já não uivavam.    


Conto escrito para o encontro de 29/04/2014




Maria Jeanine de Miranda Salvaterra ou  Jeanine Salvaterra, como assina,  é jornalista profissional  e mestra em Letras. Exerceu a profissão por mais de 30 anos. Atualmente trabalha como free-lancer. Teve a feliz oportunidade de dar aula em um programa voluntário, o PVNC(Pré-Vestibular para Negros e Carentes).Ama todas as formas de arte, mas sua paixão sempre foi a literatura. Fica feliz sempre que pode compartilhar essa preferência com outros seres apaixonados.

terça-feira, 20 de maio de 2014

O Plano - Cláudio Santos

O Plano


E de algum tempo eu reparei que minha mulher, que já não me amava, suponho, deixava meu jantar em um pote plástico. Desses que vão pro microondas. O que, não posso deixar de admitir, é alguma forma de afeição. Mas não necessariamente amor. Nunca nada especial. Um punhado de arroz e feijão, alguma peça de carne, ou frango ou peixe ou nem isso. Uma omelete, talvez. Um punhado de macarrão e mais alguma coisa. Isso por que eu nunca dizia que horas eu iria chegar. Durante tempos antes, no início do nosso casamento, há dez anos, tudo funcionava como um relógio. Eu, digitador de uma empresa terceirizada de banco saía depois de ela chegar do trabalho. Ela funcionária de farmácia. Dez e meia ela chegava e o seu sanduíche e seu refresco já estavam numa bandeja na mesa da sala. Depois que fui trabalhar no tráfico do morro ao lado de casa não pude garantir os horários. As dívidas aumentaram, fiquei desempregado, não teve jeito. Sempre tem um colega de bar pra dar conselho errado. Nunca pensei em ir pro mundo do crime. No máximo apontador de bicho, em outra época que fiquei desempregado. Que é mais “leve” do que traficante. Por mais que eu estivesse ganhando melhor, e avisasse que não precisava deixar jantar, ela o fazia. Como uma cobrança pela minha “escolha”. Que ela apenas supunha, mas eu não dava certeza.
Não era por que eu estava ganhando bem que iria me indispor aos seus caprichos. Era por que não dava tempo.  Eu não tinha mais horário. Tinha um revólver e obrigações. E não diria a ela nunca. Muito menos morto.
Me alimentava aos olhos dos gatos. Eles em cima da geladeira, eu em pé.  Um casal. Ele com uns seis anos, ela com uns cinco. Me observavam com um ar reprovador. Sempre. “Por que você faz isso aqui, como se quisesse nos provocar, aqui na sala de jantar? Vá pro seu quarto! Não nos aborreça!”
Até que a mulher vinha e discutia: “Pra que essa luz ligada na sala de jantar? Na cara dos pobres bichinhos? Que não podem se defender nem reclamar?”.
Voltei para meu quarto levando meu prato, terminei minha refeição e planejei a morte de todos eles.
Um por um.


Conto escrito para o encontro de 13/05/2014


Profissional de informática, ex-"um monte de coisas" (baixista, auxiliar de escritório, técnico em eletrônica, vendedor de pão caseiro,etc). Escrevia poemas entre os 15 e os 17 e jogou tudo fora (autocrítica forte). Em 2007 começou um blog de crônicas, em 2010 começou um livro e em 2012 conheceu o Clube da Leitura e, por isso, começou a escrever contos e publicá-los em novosapontamentos.wordpress.com



segunda-feira, 19 de maio de 2014

Mote do encontro 27/05

mote lido por Márcio Couto

A Insustentável Leveza do Ser



Quando era garoto e folheava o Velho Testamento para crianças, ilustrado com gravuras de Gustave Doré, via nele o Bom Deus em cima de uma nuvem. Era um velho senhor, tinha olhos, nariz, uma barba comprida e eu dizia comigo mesmo que, como ele tinha boca, devia comer. E se comia, devia ter também intestinos. Mas essa ideia logo me assustava, porque apesar de pertencer a uma família pouco católica, eu sentia que a ideia dos intestinos de Deus era sacrílega.
Sem o menor preparo teológico, espontaneamente a criança que eu era então já compreendia, portanto, que existe incompatibilidade entre a merda e Deus e, consequentemente, percebia a fragilidade da tese fundamental da antropologia cristã segundo a qual o homem foi criado à imagem de Deus. Das duas uma: ou o homem foi criado à imagem de Deus e então Deus tem intestinos, ou Deus não tem intestinos e o homem não se parece com ele.
Os antigos gnósticos sentiam isso tão claramente quanto eu aos cinco anos. Para resolver esse maldito problema, Valentim, grão-mestre da gonse do século II, afirmava que Jesus "comia, bebia, mas absolutamente não defecava".

A merda é é um problema teológico mais espinhoso que o mal. Deus deu liberdade e, portanto, podemos admitir que ele não é o responsável pelos crimes da humanidade. Mas a responsabilidade pela merda cabe inteiramente àquele que criou o homem, e somente a ele.

KUNDERA, Milan. A Insustentável Leveza do Ser. São Paulo, Ed. Companhia de Bolso, 2009.



Milan Kundera nasceu na República Tcheca. Desde 1975, vive na França.


terça-feira, 13 de maio de 2014

Meridiano Celeste & Bestiário - Marco Lucchesi




Recomendação de leitura por Vivian Pizzinga 

 Marco Lucchesi: essa fera cercada de palavras



Hoje venho tratar e indicar poesia da melhor qualidade. O nome é Marco Lucchesi e seu belíssimo livro Meridiano Celeste & Bestiário, que merece a cabeceira da cama, a bolsa no trajeto de metrô, o lugarzinho entre as meias e sapatos na mala de viagem, as horas nubladas e ensolaradas. Merece todo espaço subjetivo de que dispomos, esse que não é um livro fácil de encontrar em livrarias mas que, pasmem!, no Sebo Baratos da Ribeiro eu vi, há alguns meses, na seção de poesia, a castos cinco reais (o último que procurar é mulher do padre!).
O livro saiu pela Editora Record em 2006 e, do início ao fim, é enlevo, delícia e emoção – a linguagem constrói e desconstrói imagens mentais das mais belas, o absurdo de figuras criadas retorce a lógica comum, o intertexto está presente sem operar hermetismos impossíveis de atravessar. Meridiano Celeste & Bestiário não é um livro para ser consumido e esquecido. Não é para ser consumido e lembrado. É um livro que merece continuidade dentro de cada leitor. E tive a sorte de ser apresentada ao livro (e ao autor) pela minha cara amiga literata Ana Ribeiro, que me viu tão apaixonada pelo texto que me deu seu tesouro e ficou sem o dela, em junho de 2013.
Marco Lucchesi é mais que poeta. É romancista, ensaísta, membro da Academia Brasileira de Letras desde 2011, professor da UFRJ, ganhou diversos prêmios e recentemente foi entrevistado pelo Edney Silvestre, por seu último romance, O Bibliotecário do Imperador, de 2013.
O livro que ora indico é composto de dois: Meridiano Celeste (com o subtítulo “A melodia das romas que se gastam”) e Bestiário (“O poeta é uma fera cercada de palavras”). Marco Lucchesi é essa fera que não se contém e usa as palavras a seu favor, a nosso favor, pro nosso bem. Vejamos trechinho do primeiro poema de Meridiano Celeste, que se inicia com um tapa de beleza pura:
“Bem sei que as partes
            que me cercam
            não me atendem
que me debato
            num exílio
            de fontes e cuidados (...).”
O segundo poema de Meridiano Celeste me mata um pouco sempre que leio – me mata por excesso de vida e estética (e eu o selecionei para o projeto Paginário #3, do Leonardo Villa-Forte):
“A minha escuridão
tem fome das andorinhas
            que cruzam
o céu
            indevassável de seu corpo”
Já o segundo livro, Bestiário, é um passeio poético sobre as feras cercadas de palavras e repletas de instintos. Para os que amam felinos, excerto do pequeno poema:
“Gato
    lambe
            com os olhos
  lânguidos
as províncias
do sono (...)”.
Segundo o belo prefácio de Letícia Malard, “o figurino lucchesiano renega o fácil e burila o difícil sem cair na quadratura do círculo nem na fantasmagoria melindrosa do corte. (...) Estilo de poesia que dialoga com o corpo e o gesto das deusas e deusas desfilantes e suas vestes maravilhosas: corpo, gesto e vestes especialmente criados para encanto e espanto de todos nós. E criados divinamente, por um gênio do desenho e da tesoura”.
O meridiano celeste de Marco Lucchesi é para ter sempre perto, como um remédio para a alma nos momentos trevosos.