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Mostrando postagens de Maio, 2014

O verme do meu analista - Vivian Pizzinga

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O verme do meu analista

Estive, dia desses, lendo o Kundera, insustentável e leve, e pensei sobre a merda e deus, deus e suas vísceras mais recônditas, a merda borbulhando no grosso e no delgado, o ânus como porta de saída de tudo o que um dia entrou, o homem à imagem e semelhança sabe-se lá de que devorador de comidas cósmicas. Estive pensando a seguir - associei de modo livre e esvoaçante - no meu analista, o Otto, muito impecável em suas cores em tom pastel, sua poltrona atrás de mim, seus leves movimentos, certos menear e piscar e andar, interpretações certeiras e perguntas perturbadoras, e lembrei de uma sessão em que ele disse que tomou vermífugo, nem sei a deixa, nem sei motivos, não sou capaz de adivinhar a finalidade de seu dito, mas que disse, disse! Tão contraditória aquela revelação com toda a discrição e todo o bojo de psicanalista dos bem formados, bem lidos, bem freudianos cultos, que cheguei a engasgar e, hoje, às vezes, só às vezes, duvido de que ele tenha feito uma ta…

O Insaciável homem-aranha - Vinicius Varela

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Trecho do livro "Poema", de Alex Andrade

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O autor Alex Andrade esteve no Clube da Leitura de 13/05/14. Ele leu um texto de seu livro, "Poema", e cedeu dois exemplares para o sorteio no fim da rodada. Abaixo, o começo de seu conto, "Minhas noites com Rimbaud".
Minhas noites com Rimbaud Paulo, então, experimentou novamente seu exercício de prazer. Abriu a porta da casa sem fazer barulho, destrancou tudo, e foi saindo, deixou a casa com as portas escancaradas, sem a preocupação de fechá-las depois. Continuou a andar. Os olhos estavam compenetrados e os ouvidos concentrados na música que vinha daquela casa.  A pequena luz apontando o caminho: “Oh não, não”, pensou em um instante. E enquanto entrava, disse: “Deus, me surpreenda.” Abriu o portão com uma rapidez incrível, que nem mesmo ele sabia que tinha, pois a todo momento lembrava que lhe faltava coragem para a vida. Depois se meteu dentro da casa e foi entrando. O ar fresco era inominável, ele que morava nas montanhas numa cidade fria estava desacostumando c…

Mais um dia - Yassu Noguchi

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Mais um dia
Ao acordar, percebi. Ela já havia passado pela pia: o tubo de pasta de dente apertado na parte da frente, do contrário que faço, seguindo a lógica. Ela já havia passado pelo chuveiro: a calcinha molhada pendurada na torneira, diferente de mim, que coloco as cuecas na máquina. Ela já havia passado pelo closet: uma pilha de roupas espalhadas pelo chão, contrastando com minha coleção de camisetas pretas e blusas sociais brancas, para não ter dúvida. Ela já havia passado pela cozinha: a marca de batom na xícara dentro da pia, e a garrafa da cafeteira cheia, que nada se fazia dela, pois não tomo café. Ela já havia passado pela sala: correspondências fechadas e o jornal fora da ordem, que eu prontamente, ao ver, abria e arrumava, caderno por caderno. Ela já havia passado pela varanda: a areia do gato trocada, o que não amenizava - essa higiene toda que ela fazia questão de manter - meu horror por animais de estimação. Ela já havia passado pela área de serviço: secadora em funci…

A voz - Jeanine Salvaterra

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A voz
1-Abertura
Entrou no palácio Quitandinha como quem percorre um  labirinto. Buscava ouvir a voz  naquele lugar.Passado e presente  se confundem. Ali, sua  mãe havia experimentado o glamour de uma época. Era cantora lírica, e apresentou-se nos palcos de cassinos no final dos anos 30 e início da década de 1940. “Ela cantou aqui”, pensou, e um arrepio percorreu-lhe a alma, “em meio ao tilintar de moedas, misturando-se ao eco dos gritos dos jogadores suicidas.” 
2-Allegro non molto
No imenso salão azul de jogos, de 30 metros de altura, onde não havia dia nem noite, apostadores ganhavam e perdiam fortunas, fazendas, desgraçavam famílias, suicidavam-se.Ao lado, o teatro onde se realizavam os shows. Mais adiante, a boate, com suas mesas e cadeiras almofadadas em torno do segundo palco do antigo Hotel Quitandinha, que hospedou celebridades e  foi cenário de ostentação e do poder destruidor do dinheiro. Ainda no térreo do palácio que, ao ser inaugurado na década de 1940, era um hotel, o mais l…

O Plano - Cláudio Santos

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O Plano
E de algum tempo eu reparei que minha mulher, que já não me amava, suponho, deixava meu jantar em um pote plástico. Desses que vão pro microondas. O que, não posso deixar de admitir, é alguma forma de afeição. Mas não necessariamente amor. Nunca nada especial. Um punhado de arroz e feijão, alguma peça de carne, ou frango ou peixe ou nem isso. Uma omelete, talvez. Um punhado de macarrão e mais alguma coisa. Isso por que eu nunca dizia que horas eu iria chegar. Durante tempos antes, no início do nosso casamento, há dez anos, tudo funcionava como um relógio. Eu, digitador de uma empresa terceirizada de banco saía depois de ela chegar do trabalho. Ela funcionária de farmácia. Dez e meia ela chegava e o seu sanduíche e seu refresco já estavam numa bandeja na mesa da sala. Depois que fui trabalhar no tráfico do morro ao lado de casa não pude garantir os horários. As dívidas aumentaram, fiquei desempregado, não teve jeito. Sempre tem um colega de bar pra dar conselho errado. Nunca pen…

Mote do encontro 27/05

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mote lido por Márcio Couto

A Insustentável Leveza do Ser

Quando era garoto e folheava o Velho Testamento para crianças, ilustrado com gravuras de Gustave Doré, via nele o Bom Deus em cima de uma nuvem. Era um velho senhor, tinha olhos, nariz, uma barba comprida e eu dizia comigo mesmo que, como ele tinha boca, devia comer. E se comia, devia ter também intestinos. Mas essa ideia logo me assustava, porque apesar de pertencer a uma família pouco católica, eu sentia que a ideia dos intestinos de Deus era sacrílega. Sem o menor preparo teológico, espontaneamente a criança que eu era então já compreendia, portanto, que existe incompatibilidade entre a merda e Deus e, consequentemente, percebia a fragilidade da tese fundamental da antropologia cristã segundo a qual o homem foi criado à imagem de Deus. Das duas uma: ou o homem foi criado à imagem de Deus e então Deus tem intestinos, ou Deus não tem intestinos e o homem não se parece com ele. Os antigos gnósticos sentiam isso tão claramente quanto…

Meridiano Celeste & Bestiário - Marco Lucchesi

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