quarta-feira, 30 de abril de 2014

Tudo o que parece ser é aquilo que não é - Yassu Noguchi

Tudo o que parece ser é aquilo que não é


Não eram os fios brancos que me chamavam a atenção, nem me desagradava o tempo gravado neles. Eu também estava gravado ali, sob o tempo de minhas mãos neles, no caminho percorrido. Eu fazia parte daquele emaranhado de vida. Era, sim, a forma com que, mesmo com o passar de tantos anos, ela passava a mão direita por cima da cabeça para pentear-se, da altura da testa, até o fim do gesto, nas pontas. O que ficou claro para mim nesse momento, não foi perceber a mudança da cor dos cabelos, mas que estive o tempo todo atento a esse movimento.

Não eram as marcas no rosto dela diante do espelho que eu via quando ela fazia isso, era seu olhar de cumplicidade e timidez comigo, sempre seguido de um sorriso. A impressão que eu tenho é que ela sempre se surpreendia com minha contemplação. Eu é que me surpreendia que o mesmo gesto ainda me deixasse assim, perplexo, e desconcertado. De amor.


Conto escrito para o encontro de 29/04/2014



Ha-fu japonesa, mezzo italiana, e natural do Rio de Janeiro, Yassu Noguchi é contista, artista visual, poeta residente do Pizzarau e do Santa Poesia, e integrante dos coletivos Romã com Travesseiro e Balalaica.








segunda-feira, 28 de abril de 2014

A felicidade, desesperadamente - André Comte-Sponville



Esperar é desejar sem gozar, sem saber e sem poder:

A felicidade, desesperadamente, de André Comte-Sponville  

Recomendação de livro por Vivian Pizzinga



Se alguém me dissesse que para apaziguar o alívio de uma dor física um bom remedinho seria ler um livro que defende a felicidade no desespero, talvez eu arqueasse as sobrancelhas. Se eu já não tivesse lido o delicioso e pequeno livro do filósofo André Comte-Sponville, A felicidade, desesperadamente, que saiu pela Martins Fontes, em 2005, eu estranharia e, certamente, ficaria curiosa. Ninguém me falou nada e resolvi, esses dias, futucar a estante e logo retirei de lá esse pocketbook do qual é possível dar cabo em 2 horas e é perfeito para dias outonais.
O livro é fácil de ler, acessível àqueles que não têm familiaridade com conceitos, autores ou o pensamento filosófico, é sensato e, sobretudo, afetivo. Acompanhar as experimentações de pensamento do autor, para usar seus termos, em conferência proferida em 1999, permite-nos repensar toda essa noção um tanto quanto religiosa e enganosa de que a esperança e a felicidade têm tudo a ver.
Para tal, o autor, que nos lembra o tempo inteiro seu ateísmo (e que nem por isso recusa citações a Jesus e Buda), cita Platão, Pascal, Schopenhauer, Epicuro e até Freud (sem contar Woody Allen, que de bobo Sponville não tem nada), mas a linha e a agulha do texto são spinozistas do início ao fim. O autor está preocupado em fazer uma defesa do desespero – não aquele em que o abatimento é a tônica principal – mas um desespero feliz, uma felicidade que não espera nada, porque disso não carece. Para chegar ao seu termo, Sponville primeiro fala sobre a felicidade, inserindo-a na definição de filosofia de Epicuro, que, à pergunta ‘o que é a filosofia?’, reflete: “A filosofia é uma atividade que, por discursos e raciocínios, nos proporciona uma vida mais feliz” (Fragmento 218).  O autor nos irá dizer por que gosta tanto da definição – que coloca a filosofia como uma atividade e não só como um sistema, que seja feita por discursos e raciocínios, e não por visões ou êxtases, e que leve à vida feliz e não apenas ao saber ou ao poder. Embebido da noção epicurista, irá nos dizer Sponville que “a filosofia é uma prática discursiva (...) que tem a vida por objeto, a razão por meio e a felicidade por fim” (pp.8-9).
O livro construirá um belo passeio dialético sobre a felicidade sem esperança. Um passeio com três etapas. A primeira, em que expõe o que chama de a felicidade malograda, ou as armadilhas da esperança.  A segunda etapa constitui-se de uma crítica da esperança, que irá resultar no que chama de a felicidade em ato. Finalmente, o terceiro momento é a da felicidade desesperadamente, em que Sponville evoca uma sabedoria do desespero (p. 15).
O experimento de pensamento de Sponville merece ser acompanhado de perto, mas vale aqui destacar o resumo de cada uma das características da esperança, que ele examina no segundo momento de seu livro: a primeira – “uma esperança é um desejo referente ao que não temos, ou ao que não é, em outras palavras, um desejo a que falta seu objeto. (...) esperar é desejar sem gozar” (p. 50). A segunda característica – “uma esperança é um desejo que ignora se foi ou será satisfeito (...) esperar é desejar sem saber” (p. 53). A terceira característica, que a distancia da vontade – “a esperança é um desejo cuja satisfação não depende de nós (...) esperar é desejar sem poder” (p. 57). Todas as características da esperança a afastam irremediavelmente da felicidade. O autor arremata como uma das várias citações a Spinoza: “Vocês podem compreender por que Spinoza via na esperança ‘uma falta de conhecimento’ (...) e como que ‘uma impotência da alma’ (...), por que ele dizia que ‘quanto mais nos esforçamos para viver sob a conduta da razão, mas nos esforçamos para nos tornar menos dependentes da esperança’ (Ética, IV)” (p. 58). Sponville também cita Spinoza, na Ética, III: “Não há esperança sem temor, nem temor sem esperança”.
Finalmente, nosso querido autor cita Freud, em referência ao seu texto Luto e Melancolia, associando o luto ao desespero e, portanto, à felicidade: “O trabalho do luto é esse processo psíquico, esse trabalho sobre si que faz que a alegria pelo menos torne a ser possível. Desesperar, no sentido em que emprego a palavra, é fazer o luto das suas esperanças, fazer o luto de tudo o que não é, para se regozijar o que é (...)” (p. 124). E aí, quem não vai querer ler? E aí, quem não ficou se roendo de vontade de conhecer Spinoza um pouco mais?

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Mote do encontro 29/04/14


Peça Gravada V, de Yoko Ono



Peça de Pentear (a) Grave todos os dias sua esposa penteando-se. Guarde a gravação. Enterre com ela quando ela morrer.  Peça de pentear (b) Grave todos os dias seu marido penteando-se. Guarde a gravação. Toque-a depois que ele morrer.  Peça de pentear (c) Grave todos os dias sua filha penteando-se. Deixe-a ouvir quando ela estiver doente na cama. Outono de 1963


Grapefruit, o Livro de Instruções e Desenhos de Yoko Ono